terça-feira, 26 de Agosto de 2008

ESTE PSD É COMO O RELÓGIO SUIÇO....

Anda por aí o Dr. Felipe Menezes a criticar a falta de intervenção da sua companheira de partido Dr. Manuela Ferreira Leite. Alega ele que em tempo de crise a oposição deveria ser activa e actuante. Tem razão neste aspecto. A oposição deve ser crítica e actuante contra o poder instituído. Mas isso é assim quando a oposição tem ideias úteis ao País. Que ideias úteis ao País tem o PSD? Infelizmente nenhuma!..
Senão vejamos:
- Promove o PSD se for poder a inversão do ónus de prova em direito criminal? Não.
- Aprova o PSD no Parlamento uma lei que faça contribuir de modo relevante as grandes fortunas a favor dos pobres? Não.
-Obriga os privilegiados da função pública v.g. militares, magistrados, directores-gerais, professores, médicos, etc. etc. ao exercício rigoroso das suas funções sem mordomias que são um insulto aos contribuintes que, depois de viverem em dificuldades diversas, ainda têm de pagar IRS? Não.
-Reduz o número de deputados para metade? Não.
-Acaba com o inútil Tribunal Constitucional?Não.
-Reduz os vencimentos dos políticos em 25% enquanto o país estiver nesta apagada e vil tristeza? Não.
-Promove as farmácias sociais nos hospitais mais importantes do país?Não.

Afinal o Dr. Menezes não tem razão, e a Dra. Ferreira Leite sabe que não tem alternativas válidas ao PS, infelizmente. Eles, mutatis mutandis são da mesma família e protegem.-se uns aos outros. Mesmo assim foi este governo que implementou uma lei como a da IVG pois com o PSD ficaria para as calendas…. na expectativa de que a conferência episcopal anuísse, pois o PSD anda, em todo o país, a reboque das opiniões retrógradas da prepotente igreja católica.

ASSIM VAI A SAÚDE EM PORTUGAL...

Resposta de suas excelências:




Colocado o problema:

Pelas 14 horas do dia 26 crt. dirigi-me ao Centro de Saúde de Sete Rios a fim de solicitar uma receita de um medicamento que o cardiologista me prescreveu e que inadvertidamente deixei acabar. O medicamento em causa chama-se Coversyl.A recepcionista afirmou ab initio que o médico não passava a receita. Depois de alguma insistência, pois já anteriormente havia sido bem atendido em igualdade de circunstâncias, surgiu a médica cujo nome desconheço afirmando que aquele centro de saúde estava aberto para urgências, pelo que não emitia nenhuma receita. Deveria dirigir-me a uma farmácia e apresentar posteriormente a receita. Deveria também dirigir-me no dia 28 à minha médica de família.Face à peremptória recusa, não pude deixar de lhe dizer que se fosse para um qualquer ‘primo’ ,ou para um qualquer DIM,já ela não teria problema em emitir a pretendida receita, pois conheço bem o que é a corrupção médica em Portugal.Esclareço que àquela hora havia no ‘hall’ de entrada, um único utente naquela unidade de saúde, o que pode ser confirmado pelos vossos registos.O signatário tem 68 anos de idade. Possui deficiência de 80% e desde há uns meses a esta parte também uma arritmia ventricular.Veja a Inspecção do MS como são atendidos os utentes nos vossos serviços, embora haja sempre boas excepções.Há anos deixaram morrer no Banco do Hospital um colega meu porque os médicos estavam em greve.Há meses um dos meus irmãos adoeceu em Paris e além de ter sido imediatamente atendido foi até medicado graciosamente.Penso que há médicos e muitos outros funcionários públicos que têm este comportamento para denegrir a imagem do Ministério de Tutela e do Governo, o que aliás se verifica muitas vezes em declarações do respectivo Bastonário.Espero que a Inspecção do MS averigúe a veracidade destas declarações e tome as medidas que tiver por convenientes.

sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

O TALVEGUE DA VIDA....

O TALVEGUE DA VIDA











In Memoriam

GILBERTO DE CARVALHO

Amigo inesquecível!




























Autor: Telmo Vieira












A

O Tito era neto do Zé-das-Vinte por parte do pai e do Videira por parte da mãe. Zé-das-Vinte porque no povoado os vizinhos já lhe contavam trinta governantas que cumpriram fielmente todas as suas obrigações, mesmo para além das tarefas para as quais haviam sido contratadas, isto é: governantas para todo o serviço.

O outro avô, o Videira, nascera em Santa Cruz, na Madeira, e como a vida naquelas paragens era uma triste escravatura sob o regime da colonia viu-se obrigado a emigrar para Moçambique, pese embora o facto de ter tido muito mais dificuldades do que se tivesse querido emigrar para o Brasil.

Com efeito, teve de arranjar um familiar que lhe mandasse uma "carta de chamada" para poder embarcar para aquelas terras banhadas pelo Índico; dificuldades que não eram levantadas para quem quisesse ir para o Brasil.

Assim se processava a emigração para as colónias a que o Estado Novo chamava de províncias, unas e indivisíveis da Metrópole; unas e indivisíveis do Minho a Timor...

Não era grande gastalhão como chamavam aos homens encorpados lá em Santa Cruz, e, na verdade, também não tinha alma de pau como dizem ser caracteristica dos homens grandes.

Para não andar a calcorrear a tão íngreme encosta madeirense foi granjear a vida para outras paragens.

Na paz dos cemitérios que o regime político apregoava, tudo corria da melhor maneira nesta santa terra de "Deus, Pátria e Família", cujo Estatuto do Trabalho Nacional impedia que o capital pudesse sair prejudicado perante o trabalho em caso de conflito laboral.

Quando estavam em causa o capital e o trabalho a família, tão beatificamente endeusada, ficava logo esquecida e pouco importava se o então chamado chefe de família tinha ou não pão para dar aos filhos, e quando se lembrava de o reivindicar com mais fervor era logo catalogado como comunista ainda que fosse baptizado e crismado pela Igreja Católica e fosse quadro da JOC.

O Videira, ainda jovem, mal chegou a Lourenço Marques, Maputo depois do 25.Abril, entrou logo para os caminhos-de-ferro e, rapidamente, foi escolhido para o tirocínio de maquinista. Foi seduzido pelo monstro de ferro que nunca tinha visto porque na terra dele nunca haverá espaço para comboios. Mal sabia que estava a assinar a terrível sentença que o fez perder a vida num estúpido acidente provocado por erro de agulha.

O agulheiro era um negro que dormia numa barraca com tecto de capim junto da linha. Tinha ouvido falar numa aguardente tipo cachipemba que se destilava de frutas, milho e outros produtos colocados num pote com a tampa inclinada donde saiam tubos artesanais.

Passou parte da noite naquela alquimia proibida e, à medida que ia conseguindo algum líquido, ia bebendo. Bebeu o suficiente para não acordar, mesmo com o sol a dar-lhe na cara reluzente de alcatrão molhado, e não mudar a agulha causadora do acidente fatal.

Na vida está quase tudo dependente da agulha. Para uns parece que o agulheiro nunca se engana. Por isso vão sempre em frente num crescendo dinâmico uniformemente acelerado. Outros, não têm essa sorte, e logo à partida a agulha já está desorientada. Não é uma agulha, mas sim uma verdadeira travessa deslocada, em cima do carril. Como travessa que é não orienta o percurso, antes o impede como uma barreira à marcha normal da composição, obrigando-a mais tarde ou mais cedo ao inevitável descarrilamento.

Nem todos os atletas gostam de saltar barreiras e ninguém percorre tanta distância quando tem barreiras para saltar. Nunca as corridas com barreiras tiveram nem terão o percurso da maratona, pela simples razão de que ninguém a conseguiria percorrer se tivesse barreiras.

Para muitos impõe-se-lhe que percorram a maratona com barreiras o que é um desafio hercúleo, um verdadeiro desafio ciclópico impossível de vencer, a menos que eventualmente um rasgo de génio ou um golpe de taumaturgo faça o que era humanamente impossível.

O Videira tinha tido a sorte de encontrar agulhas bem orientadas para maquinista; mas, naquele dia, a agulha transformou-se em travessa. Um verdadeiro muro intransponível e, por isso, não teve tempo de parar o monstro de ferro com o odre cheio, resfolegando vapor com pressão de muitas atmosferas de vapor ferventes, em que o oxigénio e o hidrogénio juntos, se sublimam em vapor sempre superior a cem graus centígrados.

Com o embate, o monstro de aço rebentou pelas costuras rebitadas, e o vapor canalizado para os cilindros que empurravam os êmbolos e as bielas atirou-se para dentro da cabina do Videira que, a partir daí, não mais pôde continuar a regulá-lo.

A força ficou sem controlo. Os cavalos-vapor passaram a circular à solta, livremente, e fugiram dos tubos atirando-se como línguas de fogo infernal contra o Videira. António Videira dominava com mestria as rédeas da força bruta do vapor e as suas atmosferas de pressão, mas, de repente, passou de dominador a dominado. Os manómetros zangaram-se com ele, revoltaram-se. Muitas vezes a subir para Magude o monstro negro quase não subia com o peso da carga. Os fogueiros transpiravam por todos os poros atirando pazadas de coque lá para dentro, alimentando aquela gula insaciável, e só a muito custo lá ia subindo penosamente. Por vezes, quase parava, e quando isso acontecia era necessário recuar para tomar balanço pois doutro modo a centopeia de ferro patinava, e não saía do mesmo sítio.

Nessas alturas, cheio de raiva, o Videira chamava-lhe tudo o que lhe vinha à cabeça.

- Anda minha puta, avança minha égua, mula dum cabrão que já devias estar em Magude....ao mesmo tempo que dava pontapés na pesada porta de aço da fornalha com grosso contraforte cheio de barro refractário que quase ficava incandescente.

Naquele dia, a fumegante centopeia de ferro ficou zangada com o amestrador e aproveitou o embate para se vingar das imprecações. Aquele dia foi o último do Videira.

Nada o fazia prever. Deixara em casa, junto das cubatas, a Silvia com a filha ao colo, ainda bebé de tenra idade. Tinha apenas uns meses, e não adivinhava que a vingança de um monstro de ferro lhe poderia fazer tanto mal, com sequelas para a vida inteira, quando o pai ainda era um homem novo cheio de saúde e de força.

Na altura não deu por nada. Tinha o leite materno, e a falta do pai, o Videira, não se notava, mesmo quando a Silvia desatava a chorar convulsivamente, desamparada com uma filha nos braços e o marido ali ao lado debaixo de sete palmos de terra vermelha africana, tão longe de Santa Cruz, na pérola do Atlântico, que o viu nascer.

A imprensa não deu por nada. Não saiu qualquer notícia daquele que emigrou para longes terras moçambicanas para granjear o pão de cada dia agarrado ao perigo constante. A morte do Videira não tinha importância suficiente para vender notícias. Videiras há muitos. O que aconteceu foi ter ficado a haver menos um. Que importância tinha isso; é mais um, menos um.

Se fosse o Visconde de Barroselas, presidente da administração da companhia caminhos-de-ferro que tinha chegado ao lugar por ter herdado as acções da família, cheio de mérito recebido por osmose, certamente teria saído notícia, pois era alguém que possuía muitos milhares de contos de reis; mas um simples maquinista, ninguém conhecia.

A fuga do Churchill à frente dos “boers” por usar pistola já veio nos jornais de todo o mundo, embora omitissem que o fizera escondido debaixo dum chapéu de abas largas furtado a um padre holandês... Isto já era notícia.

Mas o Videiras nem sequer ia aos salões de festas. Não iria pôr a filha a falar francês e muito menos a tocar piano... Não ia ao Clube da elite burguesa da cidade confraternizar com os fazendeiros e proprietários laurentinos. Era no fundo um zé-ninguém. Não tinha eira nem beira e, portanto, aplicava-se-lhe o ditado: quanto tens quanto vales. E o que é que ele tinha? Um simples cordão de ouro penosamente poupado à barriga, que a avó lhe dera quando se casou e que haveria de ajudar a pagar a viagem de regresso à terra, da filha órfã e da mulher viúva.

O pessoal da imprensa e da radiodifusão nacional ainda dá notícia do falecimento dos seus colegas, nem que eles sejam apenas contínuos ou porteiros. Quando as famílias ficam em maus lençóis financeiros, fazem festas com artistas de variedades para angariar fundos, e quem os ouve carpir a perda dos seus, pensa que o mundo acabou, tão enaltecidas são as qualidades dos defuntos mediatizados.

- É uma perda irreparável. É insubstituível. Tinha sempre uma palavra amável e era respeitado por colegas, superiores hierárquicos e restante pessoal. A empresa vai andar muitos anos para encontrar alguém capaz de o substituir. Ficará sempre no nosso coração, com uma saudade que jamais se apagará - diz logo um qualquer porta-voz do grupo cultural e desportivo da empresa.

Na televisão o panorama é o mesmo. A oferta de sensacionalismo está já esgotada. Os entrevistadores já não sabem quem hão-de convidar e, à falta de vedetas portuguesas, já vão convidando estrangeiros, normalmente de segundo plano e a peso de ouro (mesmo que isso ponha na falência as estações emissoras ou obrigue o Estado a despender milhões de contos anuais perfeitamente inúteis), ou estrelas decadentes que precisam de ganhar uns cobres.

Uma vez reunidos à frente das câmaras é vê-los a elogiarem-se uns aos outros.

- Tu és o maior actor cómico português de todos os tempos! Ela é a melhor actriz do século... O nosso falecido amigo Ricardo era extraordinário! Tinha sempre uma piada a propósito de tudo; sempre bem disposto. Era um grande actor que o teatro nacional não vai conseguir substituir. E o Figueiras, o locutor da rádio, alto e espadaúdo com aquela voz tonitruante que nos enche a alma nos serões para trabalhadores, é simplesmente fantástico.

- Não achas ó Xana?

- É verdade, sou da mesma opinião. Vai ser muito difícil substitui-lo (na cama, pensa ela, mas não diz). Guarda o segredo só para si. É mera coincidência terem-na convidado para falar sobre o gajo, mas como precisa de ser lembrada para arranjar algum gancho no teatro experimental, o melhor é fazer o frete e sorrir, sorrir sempre...

Entretanto, passam umas quantas cenas dos grandes actores que, habitualmente, representam mal, sem naturalidade, vendo-se mesmo que estão a tentar representar, por vezes sem saberem sequer o papel de cor, esganiçando a voz e alongando-a para ganharem tempo de se lembrarem do texto, ou ouvir o ponto. Uma pobreza enorme, sem espírito, sem elan e sem talento.

E assim se passa um serão na TV com milhões de papalvos a olhar para aquilo. Não lêem. Não falam com os filhos nem com a mulher (e vice versa). Chegam a matar-se por causa do folhetim televisivo. Não vão ao teatro nem convivem, para estar a olhar para a caixa mágica cujo interesse não é divertir, informar e instruir, mas sim alcançar auditório para lhe inocular publicidade, e, para isso, vale tudo; e mais fariam se não fosse a pressão da opinião pública, pois, doutro modo, já estariam a praticar sexo ao vivo para vender ainda mais publicidade.

O raciocínio é sempre o mesmo. A Princesa Diana morreu quase no mesmo dia da Madre Teresa de Calcutá (Prémio Nobel da Paz). A primeira era a frivolidade que se via, e embora barafustasse contra a comunicação social o facto é que foram os paparazzi que a transformaram em vedeta, o que aliás acontece com todo esse alfobre de vedetas forjadas pela imprensa internacional pink.

A segunda consagrou quase toda a sua longa vida de oito décadas aos interesses dos desafortunados da sorte, aos párias da sociedade, mitigando a fome a milhares de miseráveis abandonados de tudo e por todos. Assumiu ela e as suas companheiras a responsabilidade que competia aos governantes daquele pobre país, ironicamente mais preocupados com a tão necessária bomba atómica.....

As televisões e a imprensa ainda se ocuparam com a Madre Teresa durante as escassas horas que as exéquias demoraram. Quanto à Diana, estupidamente fugitiva do que toda a gente adivinhava da sua vida adulterina, fazem serões e mais serões televisivos em prime-time sobre todos os ângulos da sua curta vida. Correm rios de tinta na literatura cor-de-rosa para alimentar a frivolidade de milhões de cabeças que também esperam um príncipe encantado, herdeiro dum qualquer Harrods. Em breve farão leilões com os trapos que vestia e se aparecerem algumas cuecas não deixarão de valer uma fortuna...

Madre Teresa de Calcutá - Prémio Nobel da Paz - já está no limbo do esquecimento. Não vale a pena gastar mais cera com defunta tão pobre e tão amiga de pobres, tão afastada do corrupto e frívolo Jet Set desta tão pobre sociedade, tão desprovida de valores éticos, morais, culturais e espirituais.

E assim se passam os anos. Gasta-se tanto tempo a ver televisão (que no caso oficial português custa milhões de contos de prejuízo) como a trabalhar. Envelhecem as pessoas a olhar para uma futilidade que, espremida, não vale nada, a não ser às horas em que as pessoas estão a trabalhar ou a dormir, e por isso não podem ver, alguns bons programas que, por vezes, bem valeria a pena serem vistos.

Quando o Tito, neto do Zé-das-vinte e do Videira por parte da mãe, ouvia ou via estes programas, tinha vontade de despedaçar a telefonia ou o televisor, conforme o caso. Ele estava talhado para ser do contra; era quase sempre o oposto do que via e ouvia, mais rigoroso que os críticos mas como não escrevia ia acumulando a indignação que lhe causava o tele-lixo transmitido.

Quanto mais honesto se revelava mais pedradas levava de todos. Quando alinhou na greve viu os furas acusarem-no junto do patrão como o principal mentor, o cabecilha. Mal começou a trabalhar foi suspenso dois meses sem salário; esteve mesmo à beira de ser despedido não fora o jurista da empresa ser um velho democrata e ter posto água na fervura, teria sido despedido.

Quando denunciou as desonestidades dentro da empresa e aqueles que levavam material para casa dentro dos carros foi acusado de ser delator.

Quando denunciou o compadrio, os lobbies existentes e a justiça de dois bicos com dois pesos e duas medidas foi apelidado de perigoso, frustrado e mal formado.

O maquinista bem podia morrer que não fazia falta nenhuma. Foi o que aconteceu. Mesmo assim, se trabalhasse na comunicação social, certamente o noticiário diria que o maquinista, que é como quem diz, o operador ou o camaraman faleceu ainda jovem, deixa uma filha de tenra idade e iremos notar a sua falta.

Mas um maquinista dos caminhos de ferro não mostra imagens agradáveis. No trabalho era uma figura negra, coberta de carvão. O fato-macaco é azul cheio de manchas pretas da fogueira que lhe fica aos pés. Ele marcha `a frente das carruagens e só quando transporta um presidente, um primeiro ministro ou um ministro é que, normalmente, por razões eleitoralistas é cumprimentado, por ser de bom tom estender a mão aos mais desfavorecidos, tanto mais que esses momentos ficam normalmente registados para o próximo acto eleitoral.

Os passageiros desconhecem e não estão nada interessados em conhecer quem os conduz. Querem chegar sãos, salvos e depressa aos seus destinos. A excepção a este estado de espírito acontece apenas quando algum Vip se lembra de saudar o cocheiro.

Pensava o Videira neste assunto, que aliás tanto o desconsertava, quando o monstro fumegante embateu ao virar da curva, de modo fragoroso (depois de deitar faíscas pelas patas durante a travagem que incendiaram a mata circundante) contra outro monstro igual que naquele momento deveria circular por outra via, mas que um erro fatídico do agulheiro etilizado colocou em rota de colisão.







B

Mais tarde a Délia, a mãe do Tito, foi conhecendo esta fatalidade. Reparou que algo lhe faltava, especialmente quando viu que em vez do pai tinha lá em casa um homem que dormia com a mãe, outrora uma senhora, e agora transformada em serva da gleba. O padrasto guardava os melhores nacos e o afecto apenas para os seus filhos, irmãos uterinos da Délia.

Aos sete anos - já farta de guardar cabras - e muito longe de Lourenço Marques viu algumas crianças dirigirem-se pela estrada fora, saltitando como os passarinhos, de sacola às costas, na direcção da escola. Mas, nessa altura do dia, para ela já havia horas que estava no cimo do outeiro, enregelada, descalça, tomando conta das ovelhas, com um naco de broa no bolso do avental e um lenço feito de lençol velho para enxugar as lágrimas do desgosto de ser impedida de ir, com as amigas, aprender a ler, a escrever e a contar.

Limitações que surgem no talvegue da vida impeditivas dum progresso normal e que deixam sequelas, quais chagas vivas, para o resto da existência ainda que ela seja de quase nove décadas como foi o caso. A Délia ficou a dever ao carrasco a que chamava padrasto, oitenta e sete anos de analfabetismo e outros tantos de infelicidade total, pois a vida é tecida de elos que quando se partem dificilmente têm conserto.

Todos os irmãos, mais novos do que ela, filhos do padrasto e seus irmãos uterinos já tiveram outra sorte, e, um a um foram à escola, mas ela era lá em casa uma branca de segunda, com direito apenas a trabalhar de sol-a-sol, e sem jorna. Era o símbolo vivo da escravatura branca tão ~´a como aquela que não chegou a conhecer em Moçambique.

Qual sopeira, o padrasto obrigava-a a levantar-se muito mais cedo que os outros meios irmãos; para adiantar a lida da casa, bem como ajudar a criá-los e ainda a calcorrear léguas e léguas de cântaro à cabeça com vinte quilos de peso que se enterravam pelo pescoço abaixo, para vender o mel que as abelhas davam nas colmeias espalhadas por umas quantas leiras colocadas ao longo das faldas da serra, para os lados da terra do barro preto; Molelos.

Assim foi crescendo no meio das urzes e das giestas, à volta da Serra do Caramulo, já muito afastada do acidente ferroviário fatídico, a milhares de quilómetros de distância, lá longe, para lá do Cabo da Boa Esperança, também para ela transformado em Cabo das Tormentas, de tal maneira que, se um adamastor do qual nunca ouvira falar a tivesse engolido, teria sido um descanso, poupando-a a uma longa e dolorosa via-sacra de mais de oito décadas de sacrifício.

Não deu pela travessia do Atlântico a bordo dum outro monstro de ferro com a quilha a sulcar os mares como aquela quilha que a Délia haveria de empunhar mais tarde, ainda criança, rasgando a terra com a charrua atrás da junta de bois.

Também o monstro flutuante se orientava através duma agulha, embora mais pequena que a do caminho de ferro, mas também muito importante para poder rumar a bom porto: a agulha magnética.

Mas uma agulha perra e enganadora surge durante a vida, muitas vezes, repetidamente. A filha da Silvia podia ter ido parar a qualquer ponto do país, mas logo havia de ter caído nas faldas do Caramulo onde o Toni, filho espúrio do Zé-das-Vinte, andava errante, também por erro de agulha..., desnorteado, pois quem nascesse duma cepa tão torta como o Zé-das-Vinte, não podia ter grande orientação na vida.

Um para fugir à sardinha partida em dois ao almoço, e a outra para fugir ao terrorismo familiar e assédio sexual sistemático imposto pelo padrasto, tinham de se encontrar em qualquer lado. Que sítio mais aziago, no meio de tantos tuberculosos, por vezes anafados, que aparentemente pareciam vender saúde, e de igual modo também desamparados, muitos deles, por erro de agulha, lá estavam num ghetto chamado Caramulo, onde muita gente tinha medo de passar, com medo de contágio com os sanguinárias hemoptises quase sempre prenúncio da morte.

Era o tempo da segunda guerra mundial mas, ainda assim, havia algum trabalho, pois ali apareciam desenganados dos médicos e em desespero de terapêutica para as hemoptises, os que não podiam ir para o ameno clima do Funchal ou em busca duma hematose mais pura nas brisas dos Alpes suíços, devido à falta de recursos financeiros suficientes.

Inúmeras famílias ficaram apáticas, a olhar para as paredes, perguntando a Deus que crime nefando teriam cometido para ficarem sem filhos. Na verdade, a dor da partida dos entes queridos é também gradativa. Há uma certa ordem natural quando se está na curva descendente. O tempo torna tudo natural. Mas, quando o ciclo da vida é cortado abruptamente, a dor causada é muito maior e chocante.

Eram os jovens as maiores vítimas. Um após outro iam ficando reféns das hemoptises, e a partir daí eram raros os que sobreviviam. Esperava-os a quinta solarenga dos Lancastres e os respectivos hotéis serranos, antecâmaras da morte a que davam o nome de sanatórios.

A região era um verdadeiro feudo verdejante duma só família brasonada onde o sacristão do Vimieiro passava parte das férias. Ali pousou para o retrato a óleo do qual viria a dizer não gostar nada devido à linha paisagística de fundo, apesar de ter sido pintado por um grande mestre da época. E não é que o ditador tinha razão. Na verdade, a linha oblíqua do horizonte, demasiado pronunciada, altera a estética da obra. Ditador sim, mas com bom gosto pictórico. Todavia a obliquidade em causa condiz com o Ditador todo ele forjado em pensamentos oblíquos como todos os déspotas deste mundo.




C




- Se hão-de ser duas casas estragadas juntem os trapos duma vez, dizia-lhe a futura cunhada, a Micas.

E o Tóni fez-lhe a vontade, pois, não queria ele outra coisa, senão outra desventurada com a agulha desorientada, como ele também com o norte desconhecido e nunca encontrado no meio de tanta apagada e vil tristeza.

Estava farto de comer batatas com batatas. Mas não era por estar na clandestinidade, como acontecia a vários militantes comunistas. Era por nada mais ter para comer, e, por vezes, nem batatas comia, como aconteceu no dia em que lhe deram uma vasilha de folha de flandres com um resto dum líquido amarelo, que de imediato aproveitou para pôr nas batatas que desde logo ficaram boas para o lixo, pois o líquido não era azeite como parecia, mas sim óleo de linhaça...

Assim como o dinheiro atrai dinheiro, parece que à miséria pode aplicar-se a mesma regra mas, em sinal contrário, dada a sua natureza negativa.

Também na natalidade se verifica o mesmo fenómeno. Quem tem recursos evita o aumento da prole por saber quanto custa manter o mesmo nível de vida para todo o agregado familiar.

Ao contrário, os que não ganham suficientemente o pão de cada dia, não estão nada preocupados com o aumento da prole. Quantos mais nascerem mais abono de família recebem, e isso basta. Tudo se cria...mesmo que seja com raquitismo insuperável causado pela carência alimentar e com a tuberculose a bater-lhes à porta.

Por outro lado, também a informação das classes desfavorecidas é mais limitada e, portanto, não estão nada preocupados com esses conceitos, nomeadamente quando sofrem o nefasto influxo de certo tipo de igrejas como a Católica, mais preocupadas com os seus dogmas do que com o bem estar físico, moral e espiritual dos seus fiéis.

O fundamentalismo papal arrasta milhões de almas para o abismo da miséria e da doença sob a máscara duma benção que só complica a vida dos pobres mortais.

Só dum homem solteiro, isolado da realidade, mas que controla os canonicamente casados, poderiam sair tais ideias.

Cá está mais um caso para daqui por umas décadas ou centenas de anos vir o futuro Papa pedir perdão à humanidade, como agora vai fazendo em relação aos judeus vítimas do nazismo tacitamente apoiado pela Igreja Católica; do esclavagismo não denunciado durante séculos, e pela Santa Inquisição que transformou em archotes tantas gentes só por comer carne à sexta-feira...sem pagar as competentes indulgências. Assim mataram, entre muitos outros, o nosso Damião de Gois.

Quando já não houver ninguém sobre a terra, por estar tudo condenado à morte através do maldito vírus HIV, é que verão as consequências da sua doutrina, as consequências de se imiscuírem na vida íntima de milhões de pessoas que não conseguem pensar pelas suas próprias cabeças por ser muito o temor reverencial... Sim, porque medo da excomunhão que amedrontou milhões de pessoas, esse já não conta; já não mete medo a ninguém, embora ainda tenha utilização em casos extremos. O mundo está cheio de ayatollahs de diversas naturezas e em latitudes diversas sempre prontos a decretarem “fathas”??????.

Foi assim que a sobrinha do Toni, a Salette, teve dezasseis filhos, quando o médico lhe dizia que não devia ter nenhum, por razões de natureza biológica e de saúde.

Mas a obediência ao catecismo escravizou-a a ponto de acabar por morrer alguns anos depois de casada, abandonada no leito do Hospital de São Marcos que no caso em apreço nada teve de taumaturgo; com uma dúzia de filhos entregues à caridade alheia e às prisões do Estado, pois nem todos poderiam ter o tino suficiente para se defenderem perante tão poderosos adversários, numa idade em que as crianças e os jovens muito precisam do amparo familiar.

A religião, mal orientada, pode ser castradora e traumatizante para o resto da vida.

Se por um lado se pode ficar selvagem por falta de princípios éticos, habitualmente adquiridos através da família e da religião; por outro, também se pode ficar marcado de forma indelével, no sentido negativo.

O caracter e a personalidade são formados durante os primeiros anos e, tal como uma árvore, pode crescer de modo harmonioso ou ficar deformada para sempre.

A árvore precisa de ser regada, podada, guiada e protegida para um crescimento uniforme. Também os jovens, no período de formação, precisam de ser amparados para não crescerem com deformações que jamais serão rectificadas.

Também aqui se aplica o princípio enunciado pelo impoluto liberal - Bispo Alves Martins - condenado pelos absolutistas a morrer fuzilado em Viseu, no Parque do Fontelo, do que escapou graças a atribulada fuga por montes e vales. É lapidar o princípio religioso que o norteava: "A religião deve ser como o sal na comida; nem muito nem pouco, só o preciso!..."

A Igreja Católica demora alguns séculos para reconhecer os erros que comete, como aconteceu com Galileu Galilei obrigado a abjurar de joelhos para escapar à fogueira inquisitorial, já velho, no fim da vida: "E pur si muove!".

Está para vir ainda o dia do reconhecimento sincero do erro da prática da simonia cujos lucros permitiram a construção da Basílica de S. Pedro em Roma. De qualquer modo essa prática continua ainda nos nossos dias embora com uma roupagem mais moderna. As chorudas ofertas para pagarem milagres em Fátima não são assim tão diferentes da simonia de antanho. Fátima corresponde às indulgências dos tempos modernos. E o negócio promete, pois com frequência aparecem mais e mais Fátimas em diversas latitudes.

Ao proibir o uso do contraceptivo está a criar as condições objectivas para um aumento demográfico contraproducente e lesivo dos interesses das populações a nível global, como ainda a fomentar a propagação duma doença tão horrível e devastadora como é a sida.

Apenas alguns bispos católicos, timidamente, adiantam que aconselhariam os seus familiares a usar o preservativo, se as condições de risco se verificassem e, pasme-se, pois isto é já um acto de coragem para essa meia dúzia de responsáveis eclesiásticos.








D



Foi neste ambiente social que a Délia foi apanhada numa ratoeira social da qual não podia libertar-se.

Quando se viu com aqueles dois quilos e trezentos de gente nos braços a que chamaria Tito, ainda foi aconselhada a abandonar a situação e regressar a casa de um dos irmãos, mas recusou dado o opróbrio social que representava regressar à terra - o Botulho - uma aldeia com uma dúzia de casas, na vexatória e aviltante situação de mãe-solteira, desde logo transformada em objecto de escárnio e de mofa sociais.

Lembrou-se que havia uma solução, mas os seus princípios e o seu temperamento não a consentiam. Uma noite ainda lhe passou pela cabeça a solução radical por ter ouvido contar uma história macabra duma tal Bernarda que se libertou de dois fardos duma só vez, mas, para ela era impossível. Tinha o sulfato das videiras e o raticida mesmo à mão, mas não conseguia deixar ao abandono aquele rebento que nem mamar sabia, por tão fraco e debilitado ter nascido, qual coelho esfolado.

Não era capaz de matar uma galinha. Como haveria de ser capaz de se libertar por essa via tão violenta. Nem em legítima defesa seria capaz de lançar mão duma tal violência. Era a sua própria natureza que a impedia de reagir. Tal como o escorpião que não se liberta da sua natureza, também ela, mas em sentido contrário era escrava da sua própria natureza passiva. Nada havia a fazer.

- Nasci para sofrer! Que hei-de fazer! É a vida!.. Se nasci para isto - desabafava falando com o filho que nada podia entender do drama que a ambos envolvia; enquanto ia dando o biberão ao fruto duma relação tão infeliz que, na verdade, se desaparecesse tal fruto, talvez ajudasse a alterar o rumo da sua pobre história.

Era uma relação sacrificial. Há uniões matrimoniais que não casam nada a não ser a miséria, a solidão e a infelicidade, até que a morte separe os infelizes cônjuges.

Se ao menos houvesse um pouco de respeito mútuo, mas nem isso. Depois dos primeiros dias, a paixão accionada pelo sexo ficou congelada para sempre e, pior que a indiferença, passou a haver um certo ódio surdo-mudo, incapaz de se rebelar com força suficiente para se libertar duma vez por todas.

Atrás do filho vieram as doenças sexualmente transmitidas como a sífilis, herdada das amantes do Toni, e não bastando tudo isto, também a fome e a miséria eram uma constante naquela barraca de falheiras e chão térreo, coberta com zinco, escondida atrás dum barranco no pinhal que circundava o maior Sanatório do Caramulo.

Se no verão, à noite, a temperatura no cume da serra atingia um frio considerável, no inverno, o vento, a chuva e o frio penetrando pelos interstícios das falheiras mal tapados com panos e latas cortavam o coração só de admitir a hipótese duma parturiente ter de viver num tugúrio tão insalubre.

Era inimaginável pedir ajuda à autarquia; esta, liderada por um homem-de-mão do salazarismo não tinha compaixão por pobres que não fossem da sua esfera de acção social. Tratava-se de um casal que vivia maritalmente, no pecado abominável tão contrário à pureza da Santa Madre Igreja.

Se no antanho eram queimados pela inquisição, agora bem podiam suportar as agruras da vida. A Virgem Maria também tinha tido o filho numa estrebaria e ninguém lhe valeu, e era o Messias que nascia, quanto mais o filho adulterino duma relação pecaminosa...

Sempre haverão de ter pobres junto de vós como diz o Evangelho, portanto que aguentassem. Davam apenas cumprimento às sagradas letras. Além disso a autarquia não tinha recursos para todos os necessitados.

No mês anterior tinha havido um comício da União Nacional contra o maçónico do General Norton de Matos, como lhe chamavam para amedrontar o povo, e todas as verbas tinham sido gastas ficando um saldo negativo que só no orçamento do ano seguinte ficaria equilibrado.

Já com a barriga de sete meses a Délia encontrou na rua o presidente da Junta de Freguesia e, timidamente, dirigiu-se-lhe pedindo ajuda. De tanto se baixar agarrada à mão do homem, acabou por cair de joelhos implorando-lhe ajuda, mas ele sacudiu-a logo retirando a mão como se a mulher tivesse lepra, proibindo-a de voltar a dirigir-se-lhe.

- Vá à Misericórdia, vá à Misericórdia, eles que lhe resolvam o problema. A junta não é capote de francês - vociferava ao afastar-se agastado com a ousadia da pobre mulher indigna de ser vista a falar-lhe na rua. Ele que além de presidente da Junta de Freguesia tinha sido candidato a deputado à Assembleia Nacional.

A Délia ficou caída no chão, de joelhos, desesperada, limpando as lágrimas ao avental oleoso e cheio de remendos, cabisbaixo, envergonhada por adivinhar que alguns transeuntes teriam observado a triste cena que a miséria a obrigara a fazer na via pública.

Afinal não era só o padrasto que tinha um coração de pedra. O presidente da Junta que ela vira tanta vez envergando a opa roxa das procissões, com o andor do Senhor dos Passos às costas pelas ruas do Caramulo, também não era melhor.

Ouvira na missa que quem dá aos pobres empresta a Deus, mas concluía que muitos nem a Deus emprestam nada. O egoísmo não deixa lugar para mais nada. Estava certa a parábola do rico que procurou Jesus. Não se importava de seguir o Mestre, mas desfazer-se dos bens que possuía isso é que era impossível, e por isso desistiu da Sua companhia. Por isso diz o Eclesiastes: O amor ao dinheiro é o princípio de todos os males...







E


O Zé-das-Vinte tinha umas leiras que no princípio do século ainda valiam alguma coisa. Tinha onde cair morto, como dizia o povo, e dava trabalho aos jornaleiros para as amanhar tanto mais que eram trabalhosas por serem dispersas desde os confins de Torredeita até Caparrosa.


Contratava o pessoal para as mondas entre homens e mulheres que se juntavam no adro da igreja à espera de serem recrutados. - De preferência mulheres, dizia o Zé-das-vintes para o feitor, sem contudo revelar as suas inconfessáveis razões. Resmungavam menos e não reclamavam tanto salário, além de que comiam e bebiam menos – justificava ele.

Quanto a mulheres dava preferência às moças novas e quando ia escolher o pessoal mantinha um olho em cima dos homens a imaginar-lhes o ritmo de trabalho, mas preferia aproximar-se da moça que mais lhe excitava os instintos libidinosos.

Não havia empregos e a fome obrigava os trabalhadores a aproveitar qualquer tarefa que aparecesse. Muitos dos primos da Flora já tinham ido para o Brasil. Outros menos corajosos ou com menos recursos também tinham ido para o Alentejo – eram os ratinhos - por serem muito activos e por quebrarem o espírito reivindicativo dos trabalhadores rurais daquelas paragens integrantes da meseta ibérica.

Os latifundiários sabiam que entre os ratinhos não surgia nenhuma ceifeira que se chamasse Catarina. Eles vinham da região onde os feudos duraram mais tempo e de algum modo os proprietários mais abastados continuavam a ser ainda os suseranos das beiras e de toda a região acima do Mondego.

Se o 5 de Outubro foi celebrado em Almada e em Loures na véspera, no dia 4, naquela região serrana a notícia só lá chegou dias depois, e mesmo assim ainda pensavam que o rei continuava a ser a principal figura da nação mesmo depois de José Relvas ter proclamado a República nos Paços do Concelho em Lisboa.

A Flora tinha a pobre mãe para sustentar, já velha, doente, avistando apenas vultos devido às cataratas, trôpega e viúva crivada pela osteoporose e manietada pelo reumático, nem parecia a mesma mulher que levava o trabalho à frente dela como se fosse um ciclone. Tinha ficado sem nada porque o marido gostava mais de vinho e mulheres que doutra coisa, e a pouco e pouco foram-se as pequenas terras que herdara dos avós que mesmo depois de morto ainda trazia credores de dívidas desconhecidas que a honra e a pobreza da família tinham de pagar.

Restava-lhe o casebre e o quintal onde plantava umas couves para fazer um caldo, umas alfaces e pouco mais; que as dores da ciática também não deixavam coragem nem força para maiores fainas agrícolas.

Para comprar o pão e um naco de carne ou peixe era preciso ir trabalhar para as quintas dos mais abastados. Era preciso ganhar a jorna e não ter azares de doenças que lhes levasse para o boticário o que conseguiam ir amealhando.

Havia anos em que até o fio de ouro era tirado do pescoço e empenhado na Caixa Económica, o que redundava em dois prejuízos, pois, para além dos juros, o fio vinha sempre mais curto quando era resgatado, enchendo assim os bolsos dos prestamistas que sem escrúpulo mesmo trabalhando numa instituição de crédito pública não tinham pejo em roubar os infelizes que lhes caíam nas mãos.

A fome levava muitos à morte. A falta de pão fazia nódoas negras nos pulmões e punha-os a expelir golfadas de sangue. Era o fim.


Um pouco antes da hora da merenda era preciso ir arranjá-la; abandonar as terras por algum tempo e, nessa altura, o Zé-das-Vinte não deixava de aproveitar para dar uma ajuda na escolha da broa, do chouriço, da morcela, do presunto, do paio e da pinga, como ele dizia referindo-se ao excelente palhete da colheita do ano anterior.

- Ó Flora - chamava ele para o andar de cima depois de encher o garrafão - dá cá uma ajuda quando desceres...

A adega era um depósito de tudo. Alfaias, pipos cheios e vazios, a carroça dos bois que dormiam debaixo do quarto do Zé para os não roubarem de noite, os fardos de palha para dar e fazer a cama dos animais, tudo era atirado para a adega.

Os toneis e as pipas ficavam logo à entrada da adega mas ele começava por pôr o espicho no último, já meio escondido, para não lhe irem lá encher copos sem ele ver. Este último estava aparafusado sem que se visse para não poder ser desviado por ninguém. Atrás dele, num buraco na parede disfarçado com um tijolo colado com cal e barro, estava uma lata cheia de dobrões em ouro que os antepassados lhe tinham deixado.

Mesmo ao lado a palha ficava acamada em fardos, mas havia sempre alguma dispersa que fazia quase uma cama, onde por vezes, em certos dias em que o calor aperta, não se ralava nada de dormir uma sesta aproveitando o fresco das paredes graníticas da adega.


Naquele dia a Flora vinha vestida de branco. Com uma daquelas blusas justas que o peito mais entumecido pelo período menstrual que acabara e pelo calor duma tarde solarenga de Julho, faz inchar.

Era uma blusa bordada com renda de bilros feita pela avó (pois já só as velhas se dedicavam a tão difícil lavor feminino) que deixava adivinhar as duas coroas circulares de que se salientavam dois redondos bicos, de abrir o apetite mais enfastiado.

O cabelo liso, brilhante, longo e sedoso, a cair pelas costas era um elemento erótico mal disfarçado.

Quando ela virava a cabeça o cabelo brilhava ao sol parecendo o reflexo dum espelho que uma mão invisível movimentasse na direcção dos olhos de quem a via.
Muitas faziam tratamentos em cabeleireiros para terem um cabelo com aquela beleza e acabavam por ficar sempre com inveja da Flora.

A saia era longa como as que se usam nos campos para as safras agrícolas, mas permitia adivinhar as duas longas pernas encimadas por duas coxas que lhe davam uma forma elegante, quente e apetitosa, contrastando com a generalidade das colegas, baixas, gordas e anafadas da quantidade de farináceos que comiam à falta de proteínas.

Havia já alguns dias que o Zé andava com a ideia fisgada e, enquanto não concretizasse os seus intentos, não descansaria.

- Que ricas trancas - deixa estar que também hás-de cair - dizia para consigo mesmo, entre dentes, ao mesmo tempo que cofiava as pontas do bigode molhando os dedos em saliva.

O namorado da Flora - o Caetano - estava nas minas da Urgeiriça havia meses. Passavam-se semanas que não vinha à terra na tentativa de ganhar alguma coisa de jeito. Trabalhava mesmo aos Domingos. Quantas mais vagonetes enchesse daquele pesadíssimo minério, mais ganhava.

O minério era negro. Quando ele saía lá do buraco vinha todo preto. Só se viam os olhos e os dentes já um tanto amarelados pelo tabaco. Tudo o resto era fuligem e pó. Um pó finíssimo, um verdadeiro pólen, que se introduzia nos poros como betume feito com o suor salgado que ia escorrendo pelo corpo todo.

Mesmo depois do banho de mangueira e sabão azul ainda ficavam resíduos na pele que continuava ponteada de preto à volta dos pêlos, dando-lhe um ar de primata negro, ainda mais peludo do que era na realidade.


Era o volfrâmio, a cassiterite, o zinco, e um minério que desconhecia mas que diziam ser muito perigoso e que os alemães vinham buscar para as usinas da guerra e que se dizia ter poderes tremendos que até dava para ver através das coisas e também para fazer bombas capazes de matar uma nação inteira, duma só vez.

A Flora ouvia mas fazia ouvidos moucos. Já adivinhava o que o Zé-das-Vinte queria e retardava o arranjo do cesto com as vitualhas para ver se ele saía da adega para fora junto ao fundo da escada, evitando entrar.

Algumas vezes pôs-se a caminho pelo carreiro com o cesto à cabeça. Outras vezes esperava á porta e resistia a entrar na adega dizendo ao patrão que já não podia com mais nada, mas que se fosse preciso ainda aguentaria com mais um garrafão mostrando-se assim sempre serviçal.

O Zé percebia que ela resistia a entrar, mas, como os homens estavam sozinhos pensava logo que patrão fora, dia santo na loja, não insistia para não perder muito tempo.

Mas prometia para si mesmo que não demoraria muito que ela não caísse.

O esquema não resultava com a rapidez pretendida. Imaginou outro mais directo, mais eficaz.

Passaram os dias e a monda já estava acabada. Já tinha dispensado metade do pessoal e a Flora já se via de novo ameaçada sem trabalho.

Uma das vezes que teve de ir à cidade comprar um remédio para o reumático da mãe ainda bateu à porta do Hotel Central perguntando se precisavam duma empregada para os quartos, mas disseram-lhe que não. O verão já estava quase no fim e o número de clientes já não justificava tanto pessoal.

Ao pagar a jorna o Zé deixou ficar para último o pagamento à Flora que já tremia por se ver sozinha em casa do patrão. O resto do pessoal já tinha saído e ela permanecia para receber a féria. Cuidado com as más línguas, pensava ela, escaldada do falatório do povo sempre que qualquer mulher passava por casa daquele lavrador, cuja alcunha dizia tudo: “...das vinte”.

- Ó Flora - diz-lhe ele com voz melosa de quem não sabe se há-de atacar bruscamente dominando logo a presa, correndo o risco duma reacção brusca, ou se a há-de convencer paulatinamente até que lhe caia na ratoeira - preciso duma mulher para tomar conta da casa. Preciso duma camisa arranjada e não tenho, quem me cosa um botão. Tu podias vir para cá durante o dia e à noite ias para junto da tua mãe... Uma rapariga tão bonita com mãos tão delicadas a trabalhar no campo até me custa - acrescentava cinicamente no tom mais mavioso que conseguia.

- Tenho pena Sr. José (disse hesitando pois quase ia a tratá-lo pela alcunha com que sempre falava dele) mas não estou habituada a trabalhos desses. Não tenho irmãos e mal conheci o meu pai; não sei tratar desses trabalhos mais delicados - esquivava-se.

- Não tenhas problemas com isso. Tudo se aprende. Quando fui para a tropa também não sabia tratar de nada e depois até botões tive de coser, e não havia soldado mais engomado do que eu. Ainda te hei-de ensinar como é que eu passava as minhas calças automaticamente...

- Vou pensar; depois digo-lhe alguma coisa - remata.

- Fala com a tua mãe e podes crer que não te vais arrepender.

Os dias passavam e o trabalho escasseava. Agora já só para as vindimas ou na apanha da azeitona lá para o Natal é que conseguiria arranjar mais uns dias de trabalho. Até lá era difícil granjear mais uns cobres para pagar à mercearia.

O Tio Manel da taberna já lhe ia dizendo que o rol ia grande e que não podia continuar a fiar mais. Criava-se uma situação diplomática. O fio de ouro ainda há pouco tempo tinha sido resgatado do penhor. A resistência à penúria acumulada não poderia durar muito mais.

Não tinha trabalho nem conseguia arranjar outro, nem sequer no hotel onde uma vizinha já tinha trabalhado e acabado por ficar com um filho nos braços dum malandro caixeiro-viajante que a enganou e nunca mais apareceu, deixando-a com mais um filho de pai incógnito nos braços.

Pensou que iria resistir às tentativas do Zé-das-Vinte. A mãe deu-lhe força nesse sentido. Os homens só fazem o que nós deixamos, lembrava-lhe. Eles não comem ninguém. É preciso é fazer-lhes frente. - Que vão montar as irmãs deles, acrescentava já meio colérica ao lembrar-se que também já tinha passado pelo mesmo, anos antes, com o Morgado de Farminhão quando ainda era jovem como a filha.

- Malditos homens que não podem ver uma burra de saias que não fiquem logo com cio como os cachorros.

A Flora passava a medo à porta do Zé para ir à venda do Tio Manel comprar as mercearias. Mal chegava à porta de casa a primeira coisa que fazia era olhar para o fundo da estrada a ver se ele vinha em sentido contrário para o Barbeiro, onde, por vezes, parava a cavaquear e a afiar a língua; no que, segundo diziam, era pior que as mulheres...

Quando o via ao longe mudava logo de berma porque na aldeia não havia passeios e estugava o andamento conforme visse que passava algum carro de bois ou algum grupo de pessoas para evitar falar-lhe a sós, ainda que apenas para o saudar como é hábito nas aldeias.

Mas, por outro lado, as dificuldades apertavam, e o tio do Brasil já raramente mandava latas de figada e goiabada, e muito menos algumas notas que ainda chegou a mandar por altura do Natal. A vida dele não deveria estar muito boa. As patacas também não eram para todos. Eram para quem lhes chegava...

Os recursos escasseavam cada vez mais. Passados uns quinze dias não o pôde evitar e como já ia avançada no caminho parecia mal estar a mudar de berma ostensivamente. Vinha lá o Senhor José-das-Vinte; não podia deixar de cumprimentá-lo. Ao aproximar-se ele parou.

-Como estás tu Flora? Falaste com a tua mãe? Então quando é que vais lá para casa? - perguntou-lhe ele com aquela afabilidade melosa de quem pretende algo mais do que diz.

-Um dia destes, Sr. José. Lá para o fim do mês, para não estar a receber à jorna.

- Tá bem! Lá fico à tua espera, que aquela casa está um autêntico adelo; bem precisa dumas mãos que saibam lidar com as coisas caseiras - acrescentou.


A partir daí o Zé ia olhando para o calendário pendurado na parede exibindo uma gravura com uma loira quase nua, e ia riscando mentalmente os dias, como no tempo do quartel de infantaria 14 durante a recruta. De noite nem dormia. Já estava a afiar o dente para o naco de mulher que graciosamente lhe ia entrar pela casa dentro.

Sonhava com ela. Imaginava-a na cama e comparava-a com as melhores que já tivera. O que lhe faria. Seria passiva ou activa. Seria daquelas que têm nojo do sexo ou seria das outras que o devoram com uma galga que nunca mais acaba?!!!

Numa das noites, por pouco, durante um sonho, quase ejaculava ao vê-la no rio a tomar banho nua, enquanto ele, escondido atrás do canavial, apreciava aquelas formas de vénus de cor ebúrnea mais torneadas que a guitarra do Hilário. Acordou a tempo e disse para o travesseiro que era melhor aguentar e esperar pelo modelo quente e fogoso em carne e osso. Sonhar assim era a mesma coisa que comer um rebuçado embrulhado em papel.

Durante aqueles dias não pensava em mais nada, a não ser no modo de se aproximar, não fosse ela fugir-lhe espavorida pela rua fora e provocar algum escândalo como aconteceu certa vez com uma que ainda estava virgem e começou a gritar quando ele se aproximou já a desabotoar as calças.

Todo o cuidado era pouco para evitar os falatórios pois até na missa, às vezes, ouvia cochichar, e por isso ficava sempre num banco recuado sozinho, ao canto, pois ninguém queria ficar sentado por perto.

Cuidado com ele, é malandro...se calhar vem pedir perdão para depois voltar a fazer o mesmo. Enquanto não chegar às trinta não descansa. Se fosse uma filha minha matava-o como um cão raivoso. Cianeto ou mesmo sulfato igual ao que a minha prima bebeu, também chegava para ele, misturado no caldo verde.

Destas e doutras ouvira ele das velhas beatas enquanto arranjavam as flores do altar da Santa Eufémia (ainda santa naquela época, e que por isso é hoje difícil saber a quem atribuir os milagres verificados), logo à entrada da capela.

No primeiro dia daquele mês, pelas oito horas, a Flora levantou-se, e, como um animal que pressente ir para o matadouro e tenta resistir, assim ela se foi vestindo e preparando com a sensação de que fazia tudo ao contrário e, quando caminhava para a frente, mais lhe parecia que os pés queriam ir para trás.

A hora ia-se aproximando e o ruidoso relógio da Igreja, que de noite só servia para alimentar as insónias, já batera o último quarto de hora.

Mastigou um pouco de pão com uma côdea rija de queijo que estava ainda na gaveta e foi saindo receosa, estugando o passo ao encontro da casa do Zé, ao fundo da rua, junto ao largo da igreja - o largo principal.

Chegou. Subiu as escadas tremendo e suspendendo os pés como quem sobe para o cadafalso. A sineta estava ainda desligada. Bateu hesitante, com pancadas dos nós dos dedos que mal se ouviam naquela porta de grossa madeira de castanho com mais de três séculos.

-Quem é? - ouviu uma voz dengosa mas ao mesmo tempo abrutalhada, rude e em falsete cheio de catarro, vir lá de dentro, do fundo do corredor da casa.

- Sou eu Senhor José, a Flora - respondeu tartamudeando.

- Entra... entra... e vai arranjando essa cozinha. Dá de comer aos animais, que devem estar esfaimados.

A Flora entrou e colocou o xaile no cabide feito de unhas de bode viradas para cima ainda com pelo à volta das falanges. Pôs o avental, e como já conhecia os cantos à casa, logo amanhou a sêmola para os bichos e uns restos para os cães que quase a derrubavam quando a viram com o tacho na mão ainda meio cheio de arroz de frango já com dois dias.

- Então sempre resolveste vir Flora!... Observou matreiro em tom meloso o Zé-das-Vinte enquanto se ia sentando para tomar o pequeno almoço já arranjado pela pêssega como ele costumava chamar às moças trigueiras que ousavam falar-lhe.

- Passa-me ai a cafeteira do café‚ e senta-te, come qualquer coisa. Se calhar ainda não mataste o bicho...

A Flora teve um calafrio pela espinha quando ouviu aquele doce e subtil 'senta-te' cujo significado era mais extensivo que uma mera cortesia. Já sabia que o lobo começava a afiar as unhas para o ataque, mas já não podia fugir-lhe. Não sabia como fugir-lhe.

-Muito obrigada senhor José‚ mas já fiz o mesmo antes de vir - e continuou a pôr a mesa com o que faltava: talher, manteiga, compota, presunto, etc.

Ficou sozinha a tratar daquele casarão onde, além do Zé-das-Vinte, só viviam os cães, os gatos e os ratos, bem acompanhados por um arsenal de moscas e vespas que sempre assentam arraiais onde o lixo se acumula.

Era uma casa tipo solarenga construída em granito, não muito grande, mas encimada com uma pedra heráldica dos antepassados do Zé-das-Vinte os Cogominhos, cuja arquiavó fora sepultada no século XIV na Sé de Lisboa por ter estado ligada à criação da Misericórdia juntamente com Frei Miguel, há mais de 500 anos.

Na cozinha ainda se viam os espetos que davam para assar cabritos inteiros, bem como os tachos de cobre estanhado, onde se faziam os torresmos e se preparavam os enchidos.

Eram nobres, duma nobreza decadente e aviltada não tanto pelos azares económicos mas pelas fatalidades que uma cabeça pouco assente entre os ombros sempre trás para qualquer família, tenha ela brasão ou seja simplesmente plebeia.

Era pródigo a construir castelos na areia que se iam por água abaixo, mal caíam as primeiras chuvadas da adversidade. As mulheres, o casino e o vinho tinham destruído quase tudo que fora vida abastada e tranquila.

Restava ainda aquela casa já em estado relativamente avançado de deterioração. Há muitos anos que não via uma trincha nem um balde de cal. Algumas das pedras começavam a esfarelar-se e as juntas cada vez eram mais fundas cavadas pelo vento e pela chuva que nos meses de inverno era quase diária. Por isso o povo dizia que aquela terra era o penico do céu...

Os peitoris e as armações das janelas estavam já esburacadas com o caruncho. A chuva ia penetrando também através dos vidros partidos que ninguém substituía, limitando-se a colar-lhes um bocado de papelão para não acabarem de cair. Parecia que a casa tinha escritos para arrendar, com os cartões colados aos vidros.

A chaminé há muito que não tinha cobertura. A chapa de ferro que a cobria voara com o vento já esburacada pela chuva e comida pela ferrugem. O fogão a lenha estava agora coberto com papeis, para não enferrujar ainda mais.

Tinha também umas terras de semeadura, vinha e pomar com poucos hectares que iam dando alguma coisa ao proprietário e trabalho a uns quantos homens e mulheres nas fases mais trabalhosas da ceifa, das vindimas e das colheitas de frutos e da azeitona.

A pouco e pouco os amigos foram fugindo, deixando o Zé-das-Vinte cada vez mais abandonado. Não dava nada a ninguém e quando um dos miúdos da aldeia lhe roubou um cacho de uvas chamou logo a GNR, fez queixa e obrigou o pobre do pai do miúdo a pagar-lhe o preço duma canastra cheia após julgamento sumário feito pelo cabo da guarda que para defender os possidentes, sempre fazem uma demonstração de excesso de zelo a troco dalguma gorjeta.

A única família que estimava, sem que aliás fosse retribuído, eram dois sobrinhos que esperavam a hora de deitar a mão àqueles bens logo que o velho fechasse os olhos, para tudo reduzirem a patacos para pagar o vício de jogo adquirido no Casino durante as férias no Tamaris na companhia do tio.

Poupava num estilo confundível com a avareza e a sovinice receando ficar velho e só, sem ninguém que o amparasse nos últimos dias pois, lá no fundo, não acreditava que os sobrinhos o ajudassem quando fosse preciso.

Ia muitas vezes à missa, mas não distinguia o real do acessório e confundia o acto duma criança com fome com a vingança e com a manifestação de autoridade,
que, aliás, ia perdendo à medida que ia ficando economicamente depauperado; além de, por essa via prepotente, aproveitar para acumular mais uns cobres extorquidos com a conivência da GNR aos famintos lá da terra, sempre tentados a surripiar algum fruto junto ao muro da estrada, chamada ainda real, várias décadas depois da implantação da República.

Nenhuma mulher nutria qualquer interesse por ele. Não era flor que se cheirasse nem mata donde saísse lobo! E, quando raramente recebia visitas alheias à aldeia, logo os vizinhos se apressavam a informa-los sobre a fera que ali estava escondida, disfarçado com pele de cordeiro...

Era do tipo de só dar uma azeitona a quem lhe desse uma oliveira; mas, nem assim conseguia ter uma vida a condizer com o brasão que ostentava com orgulho deslocado e serôdio, dados os factos sociais e políticos dum regime que há décadas tinha abolido a monarquia, e ainda pelo bem estar que lhe ia desaparecendo.

Os antepassados ainda usaram o título de barão mas ele já não ousava faze-lo. Quando uma vez aludiu a esse facto referindo os livros existentes na Torre do Tombo onde se podia ver a árvore genealógica, logo alguém disse em tom jocoso: "barão sem tostão"; o que o irritou supinamente e, por isso, cada vez se foi fechando mais, acrisolado nos títulos que para nada serviam.

Só um amigo - o Arnoldo - que tinha ido às sortes com ele o acompanhava mais de perto, mas, mesmo assim, não era visita de casa. Sabia que tudo que lá comesse era chorado e também não o convidava para casa dele por pensar que a mulher não estaria a bom recato se lhe desse azo a visitas. O melhor era preservar o recesso do seu lar de investidas de falsos amigos.

A fama já ia longe. Não era por acaso que tinha aquele cognome.

Os seus antepassados e os monarcas tiveram cognomes a condizer mas bem diferentes do dele, pois os antepassados tiveram cognomes atribuídos pelos historiadores mas ele foi o próprio povo, que bem o conhecia, que lhe criou o cognome ainda em vida quando ele ainda só chegava à meia idade: Zé-das-Vinte

Não era uma grande figura de homem que atraísse o mulherio mesmo quando jovem. Mas os homens pequeninos gozavam da fama de serem bem apetrechados sexualmente, e ele fazia constar esses atributos que provavelmente não correspondiam à realidade, face ao ritmo com que as serviçais o iam abandonando.

A próxima vítima seria a Flora. Coitada. Sem pão, sem trabalho, e com a mãe a ficar entrevada, sem se poder mexer, arrimada a um pau de marmeleiro; tinha de trabalhar em qualquer lado para ganhar o pão de cada dia e, um pouco menos que conformada, assim se foi sujeitando às investidas daquele aríete machista que ninguém queria ver por perto.

Passou uma semana sem que nada de especial tivesse acontecido. A janta estava pronta a horas, os animais tratados, as camisas lavadas e arrumadas, e ao cair da noite saía para casa da mãe que se ia corroendo de saudades e se angustiava em fezes com medo do que acontecesse à filha.

- Então minha querida filha como é que te correu a vida hoje ?!!- Perguntava-lhe a mãe evitando aludir directamente ao que mais a preocupava.

A Flora encolhia os ombros como quem vive numa apagada e vil tristeza sobrevivendo à pouca sorte que o destino lhe traçou. Abandonava-se à desdita de não ter trabalho estável e aos assédios comprometedores que a exibiam desde logo aos mexericos do povo, mesmo que, estoicamente, resistisse.

A Flora estava admirada com a passividade da fera, mas sabia que não podia durar muito tal quietude. Só podia ser dissimulação. Aquela rês não era mansa; poderia disfarçar mas era sol de pouca dura. Mais dia menos dia passaria ao ataque. Estava a ganhar terreno na confiança da vítima para a jugular com mais facilidade como os leões fazem na savana.

No Sábado pagou-lhe os dias de trabalho e perguntou se precisava de mais dinheiro para as compras da casa. Se faltava alguma coisa. Como estava a mãe dela. Conhecia uma mesinha que lhe tinha feito muito bem. Era uma infusão de álcool canforado e alho. Esfregando quando doía passava logo a dor; se quisesse podia levar para a mãe experimentar.

Era melhor que ir à romaria da Senhora da Agrela. Toda a gente se sentia bem com a tintura cuja infusão, depois de alguns meses, começava a ter uma cor acastanhada de tipo medicinal.

- Está bem. Eu levo o frasco e amanhã trago-o. É só para experimentar, pode ser que lhe faça bem! Observou a Flora ao mesmo tempo que ia metendo o frasco na seira e ia saindo na direcção da porta, despedindo-se.

O Zé já não aguentava mais. Aquela voz sedosa e aveludada da moça. Aquela rosto que mais parecia um pêssego acabado de colher coberto por uma penugem dourada que só apetecia acariciar, começava a transtorná-lo causando-lhe sezões febris.

À noite, ao deitar-se, era a pior altura do dia. Já estava habituado a viver e a dormir sozinho, mas quando a via ir embora ficava transtornado, acordando muitas vezes agarrado ao enorme travesseiro que ficava colocado ao longo da cama torneada em pau santo que os antepassados tinham trazido de África.

- Ai filha..., dizia ao acordar, por vezes a meio da noite, ele que dormia normalmente como um justo não porque o fosse, mas porque não tinha consciência dos remorsos que lhe deveriam povoar a mente todos os dias, se acaso tivesse nascido outro tipo de homem.

Já lá iam quinze dias e o Zé-das-Vinte recalcava os torpes sentimentos impávido e sereno perante a fogosidade que lhe ia na alma pérfida e no corpo. Por vezes começavam-lhe a latejar as frontes mas continuava com medo da reacção da Flora que se fosse impetuosa poderia gorar os seus objectivos.

Sentiu-se mal. Nem sabia se era doença se era ronha. Naquele dia não quis sair da cama. Logo que a Flora chegou pediu-lhe um chá com bastante mel e que lho fosse levar ao quarto; estava doente, sentia-se febril com arrepios; estaria certamente gripado.

Logo agora que tencionava ir à cidade pagar a décima já com mora é que lhe havia de aparecer aquela indisposição; ele que não se aguentava com 37 de temperatura, mais parecendo uma flor de estufa.

Soergueu-se ligeiramente e encostou-se ao espaldar da cama de dossel que pertencera à bisavó, para beber o chá que a Flora lhe deu para a mão ficando com o pires ainda molhado de chá entornado.

Ficou a aguardar a chávena, enquanto o doente ia sorvendo o chá em pequenos goles, soprando para arrefecer.

Ao chegar ao fim do chá colocou a chávena no pires, na mesinha de cabeceira, que tinha pedido à Flora, e disse-lhe para se sentar na borda da cama para lhe dar as instruções do dia que seriam longas, pois certamente não iria levantar-se.

Ela resistiu ao pedido; mas ele pegou-lhe na mão e forçou-a ligeiramente como quem pega em algo quebradiço que obriga a um cuidado redobrado para evitar acidentes. O temor reverencial fez o resto e a Flora acabou por sentar-se como ele pretendia para não ser desagradável por tão pouco.

Falou dos animais, dos homens que ainda vinham para fazer os molhos de vides para a casa da lenha e suavemente começou a dizer-lhe que podia ser a independência dela. Que estava assim porque queria. Podia ser a dona daquilo tudo. Que ligar-se a quem não tem eira nem beira nunca deu bom resultado porque "casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão". Que "vale mais um pássaro na mão que dois a voar". Que pensasse na mãe doente e sem recursos que até poderia ir lá para casa se quisesse...

Uma panóplia de argumentos que nunca mais acabava.

A Flora olhava para o chão, sem palavras, ao mesmo tempo que ia torcendo com o dedo a fita do avental. As faces estavam já ruborizadas pela declaração explícita e apesar de tudo inesperada. Ainda quis furtar-se mas não pôde. Ele segurou-a pelo braço ao mesmo tempo que a aproximou para si inalando o suave perfume daquela pele tenra de perfume dos campos cheios de frutos silvestres, papoilas e rosmaninho...

Num impulso mais firme apertou-a nos braços, e, desequilibrando-se ficou deitada na cama, atravessada.

A pomba tinha caído nas garras do assanhado gato bravo e, pouco depois duma breve refrega em que ela tentara resistir, só se ouvia um gemido quente e inebriante de quem tinha estado no sétimo céu sem sair da terra...A Flora rendeu-se e acabou desflorada por um Zé-das-vinte que agora poderia contar com mais uma no rol da sua perversidade.

Nove meses depois nascia o Tóni que, sem culpa nenhuma, veio penar o vexame social de ser filho duma mãe solteira, e participar do opíparo banquete duma sardinha dividida por dois quando a Flora meses depois não teve alternativa senão fugir para a miséria que a mãe lhe podia oferecer.







F

O Tóni nasceu em dia aziago, frio e húmido do princípio do Outono. Caíam as folhas dos plátanos que atapetavam o chão das alamedas da Cava do Viriato. É aquele período do ano em que as pessoas se sentem mais tristes e leva muitas à última morada. É o chamado cair da folha, época do ano que mais ataca a terceira idade já de si atacada pela osteoporose e pelo reumático para não falar nas outras maleitas que para serem travadas obrigam a refeições completas de capsulas e comprimidos que tanto enriquecem a corrupta indústria farmacêutica.

O reumático espreita para molestar ainda mais impiedosamente e até‚ o cabelo desaparece voando como as folhas caducas, amarelecidas, sem seiva, arrastadas pelo sopro do vento.

Muitas vezes pensou que se só tinha um metro e meio de altura, talvez fosse por ter nascido nos dias pequenos. Talvez à força de tanto ouvir a família e os amigos a repetirem-lho, o tivesse convencido disso mesmo.

A verdade, contudo, era bem outra. Não era impunemente que se nascia nas berças do interior do país. As populações ribeirinhas eram normalmente de estatura mais alta, mesmo aqueles que também nasceram no outono ou no pico do inverno.

Era uma questão de proteínas e de cálcio. Na orla marítima comia-se peixe e no interior comia-se pão muitas vezes com pão apenas, ou com uma cebola cortada em quatro partes a que adicionavam umas pingas de vinagre e sal: uma galinha como lhe chamavam, ou então um pouco de toucinho cuja gordura não acrescenta um centímetro de altura a ninguém, antes contribuía para as maleitas vindouras a que hoje se dá o nome de colesterol, termo que então ninguém pronunciava, além de serem também a génese de vários tumores do foro cancerígeno.

Era um período em que os bebes nasciam com os olhos fechados, por falta de vitaminas. Mais se pareciam com os coelhos e com os gatos do que com gente possuidora daquela centelha anímica que nos aproxima do Criador pela imagem e pela semelhança, segundo as Escrituras.

Nunca terá lido Camões mas bem podia subscrever o famoso soneto onde ele diz: "o dia em que nasci mora e pereça não o torne nunca ao mundo dar..."

Era baixo, entroncado e bem disposto quando não estava etilizado. Nunca chegou a andar na escola e gabava-se de ter tido uma mestra que, sendo ele já homem, o ensinou a ler e a escrever, chegando a fazer o exame da 2ª classe já com vinte anos de idade.

Muito cedo reparou que estava a mais no mundo. O pai nunca o reconheceu. O Zé-das-Vinte alegava que a mãe já tinha andado com outros homens antes de ter estado com ele, e que não era seu filho, o que todos sabiam ser falso tanto mais que era a cara do pai.

No fundo o que ele não queria era assumir a paternidade, cujos custos a sua avareza repudiava e, por outro lado, era o filho duma simples criada, sem eira nem beira, o que apenas lhe traria despesas e responsabilidades.

O miúdo foi nascer a casa da avó e por lá ficou aos tombos, criado por uma avó velha e cansada que mal podia com as pernas sempre encostada a um cajado, arrastando-se de um lado para o outro, penosamente.

Ao dar-lhe o biberão não tirou a tampa da chupeta e o miúdo cada vez chorava mais cheio de fome. Só depois reparou que a tampa de plástico não permitia a sucção. Acidentes de avós cuja vista está cansada e já eram doutras épocas. Uma época em que não havia biberões práticos, sendo mais usadas as boneca de pano com açúcar dentro.

Num dia de inverno o miúdo saiu para o quintal quase despido. Diz o povo que "Deus dá o frio conforme a roupa". Nesse dia só não ficou dentro do poço porque o frio tinha congelado a água fazendo uma pista vitrificada à superfície. Lá o foram encontrar aos saltos brincando com a inesperada pista de gelo ali às porta de casa.

Mesmo em criança já ia fazendo recados e trabalhando para os lavradores da zona e até mesmo para o pai, incógnito como se fosse um jornaleiro; nunca reconhecido como filho, embora toda a gente dissesse que ele era a cara do pai.

Calçou as primeiras botas com dezoito anos pois o que ia ganhando não chegava para comprar conduto e muitas vezes comeu as batatas apenas com umas couves e sem azeite.

Naquela Beira Alta não havia trabalho. Ainda chegou a ir para as minas da Urgeiriça mas depressa prescindiram do seu trabalho porque, com o fim da guerra que se aproximava, as encomendas de volfrâmio começavam a baixar, e não precisavam de tanto pessoal.

Chegou o tempo de ir às sortes mas aí não tinha pinhê e ficou livre. Perdeu um ou dois anos de rancho gratuito e teve de ir granjeá-lo para outras paragens.

- Hoje só aparecem trinca espinhas - disse o Coronel Médico - quando o viu entrar, acrescentando. "Este tem de voltar para a mãe para acabar de o criar."


Os agrários precisavam de ratinhos no Alentejo. Fez a trouxa com umas côdeas para o caminho e abalou arregimentado por um capataz que correu as beiras a contratar pessoal e o aliciou a mudar de rumo. - Pelo menos lá sempre tinha um naco de toucinho para comer e umas migas - alegava o capataz para o convencer.

Nunca pensou ter de andar tantas léguas para trabalhar. Duma zona onde quase tudo ficava perto, lá no Alentejo tinha de palmilhar quase duas horas antes de nascer o sol para chegar à herdade do Santos Jorge.

Trabalho duro e mal pago. As mãos rapidamente ficaram calejadas da enxada e da foice. Pensava que tinha caído num campo de trabalhos forçados. À noite chegava à camarata e por vezes nem comia. Atirava-se para cima do catre e já não abria mais os olhos até à alvorada do dia seguinte. Ficou pele e osso. Os olhos encovados e as maças do rosto mais salientes davam-lhe o aspecto de um esqueleto ambulante.

Era habilidoso de mãos. Onde as punha tudo tinha conserto. Ainda tinha aprendido a trabalhar a folha de flandres e sabia arranjar as alfaias agrícolas mesmo que fosse preciso caldear o ferro ou afiar o material para um corte menos cego.

Passados meses, depois de ter comido o pão que o diabo amassou, como ele mais tarde tanto gostava de dizer aos filhos fazendo-lhes sentir o que é uma vida dura e madrasta, passou para as oficinas, tendo sido encarregado da forja, do malho e do cavalete.

Fazia de tudo. Desde cintar as aduelas das pipas até acrescentar as enxadas; fazia de tudo a contento.

Mas o que ele mais gostava de fazer era arranjar os pulverizadores de sulfatar as videiras, as enxofradeiras e outras máquinas similares bem como outros utensílios necessárias para essas lides como os cântaros, os regadores, os potes, os alambiques, etc.

Escolhia, se pudesse, trabalhos com metais não ferrosos, talvez porque o seu brilho lhe empresta a nobreza do ouro, particularmente quando fabricados em latão.

Despediu-se meses depois de ter amealhado uns cobres e fez-se à estrada a caminho de Setúbal onde, com relativa facilidade, arranjou trabalho na sua arte.

Dali em diante passaria a vida a falar de Elmano Sadino intrigando os amigos que normalmente não sabiam de quem se tratava e, depois de os manter na dúvida, acabava por exibir os seus conhecimentos referindo que se tratava do senhor Manuel Maria Barbosa du Bocage acentuando o du que ainda mais espantados deixava muitos dos seus amigos e colegas da copofonia na tasca do Zé-Povo.

Insistia com os conhecimentos que tinha daquele poeta, contando a anedota conhecida de ser capaz de dizer três asneiras duma só vez.

- Como é que é possível dizer três asneiras duma só vez? – Perguntavam-lhe os amigos na tasca no meio dos copos de tinto.

- Na serrá facel - dizia ele depois de várias insistências dos companheiros já um tanto agastados com a demora.

Era a homenagem que assim prestava ao grande poeta português conhecido como autor de inúmeras anedotas, mas que melhor seria ser bem mais conhecido pelo valor literário da sua inspirada e talentosa obra.

Conheceu aí a Mariana, criada duma senhora que alugava quartos, bem perto da praça onde se encontra a estátua do poeta.

Quem sai aos seus não degenera e em breve se embeiçou pela pobre da Mariana que cedeu às suas falinhas mansas como a Flora havia cedido vinte anos antes, e tal como ela ficou com um sadino nos braços cujo pai nunca chegara a conhecer.

O apelo da Beira chamava-o com insistência. As saudades da mãe que já não visitava havia três anos, e a avó que estava com os pés para a cova levaram-no até Santa Apolónia a fim de chegar ao ramal do Dão onde desceu a meia dúzia de quilómetros da cidade de Viriato, percorrendo a pé o resto do caminho para casa.

Estava de novo na terra. Aquela terra ingrata que só lhe oferecia fome e miséria, mas era a terra dele e dos amigos com quem tinha jogado ao pião e à bilharda no adro da igreja. Ainda se lembrava daquela tarde em que o regedor lhe foi bater à porta a perguntar pela D. Flora.

Sabia bem o que tinha feito e meteu-se atrás da porta do sótão.
A bilharda tinha partido um triângulo do vitral da igreja, e as beatas logo o acusaram de ser o autor da sacrílega proeza, certamente inspirada pelo belzebu.

Ele jogava com o filho do escrivão do tribunal, mas a corda parte sempre pelo lado mais fraco, e o mais fraco era ele. Tinha sido ele o culpado do dano causado no vitral que não era mais que uma rosácea circular com vidros foscos de várias cores que o Toni alegara ainda lhe pertencerem, por ter sido um parente dele, já falecido que a mandara construir quando regressou do Brasil com o fruto da árvore das patacas, e por isso tinha a alcunha de brazuca.

O pároco conhecia a miséria que ia naquela casa. Por vezes até lhes tinha feito chegar a casa uma garrafita de azeite, um cartucho de açúcar e outros víveres, especialmente no período do Natal que é quando toda a gente parece mais amiga uns dos outros, e com tais ofertas parece ficarem com a consciência mais piamente descansada.

Foi para a cidade procurar trabalho e logo o arranjou porque aquelas mãos eram abençoadas quando queriam trabalhar.

Mais tarde, muito a custo alugou uma loja próximo do terreiro onde anos antes tinha passado por aquela vergonha de ter partido o vitral da igreja.

A clientela logo começou a procurá-lo, embora pagasse mal e com atrasos, enchendo o livro de fiados por tudo e por nada. Dedicava aos clientes uma boa fatia da simpatia que deveria ter em casa para a mulher e para os filhos que nasceram todos os anos em escadinha durante o primeiro lustre conjugal.

Quanto maior é a miséria mais filhos nascem. Em casa dos pobres os filhos nascem como tortulhos (só que os tortulhos comem-se grelhados com sal e são bastante bons, enquanto que aos filhos é preciso dar-lhes comer que para os pobres corresponde à maior fatia dos proventos que com tanto sacrifício conseguem auferir).

Naquela altura ainda não havia televisão, só anos mais tarde viria a juntar as pessoas com os narizes colados às montras das lojas de electrodomésticos. Por isso as pessoas ainda iam para a cama mais cedo.

"Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer". Era o ditado popular que ele repetia aos miúdos para os estimular a deitarem-se cedo e evitar as vadiagens nocturnas.

A cidade era muito quente no verão e muito fria no inverno, clima típico continental. No verão as pessoas saíam de casa e iam passear para o Rossio, debaixo das tílias frondosas de muitos anos. Os patrões numa ala. As criadas e os miúdos na outra.

Era um picadeiro onde a burguesia aproveitava para passear as fatiotas novas, e a rapaziada ia dando uma piscadela de olhos às moças, sempre vigiadas pelas mães que não deixavam de olhar pelo canto do olho.

A primeira mulher já era viúva e tinha filhos. O conflito estava latente e em breve chegou a vias de facto. Os bens da velha, como o Toni lhe chamava, iam desaparecendo e, quando deram conta, o tacho já não tinha nada para rapar.

- Ó senhor Tóni, tenho a casa cheia de visitas, venha cá a casa que tenho uma inundação na casa de banho... - Ó senhor Toni venha cá a casa que a bomba do motor da quinta não ferra...

“Senhor Toni”; chamavam para isto e para aquilo; parecia um bombeiro voluntário dum lado para o outro a resolver as pannes da cidade que calcorreava na motorizada marca Pachancho, vermelha como os copos cheios do palhete do Zé-povo e como os carros dos bombeiros voluntários...

O casamento estava cada vez mais periclitante. Os conflitos com os filhos da mulher eram uma ameaça constante. Um dos enteados não lhe perdoava o terem desaparecido alguns bens da mãe que já vinham da família, há longos anos.

- Esse malandro com quem te meteste é que é o culpado de estares nesta miséria. Bem te avisámos para não te casares com ele.

Num dos dias em que este diálogo se gerava entre filho e mãe aquele estava a fazer a barba e o António entrou em casa vindo da oficina para tomar o pequeno almoço. Ouviu parte da conversa e não se conteve.

- Repete lá isso que estavas a dizer à tua mãe, ó palhaço de merda...Levas um estalo que nem sabes de que terra és, ouviste ?... - e foi-se virando para o outro lado preparando-se para se sentar.

Num ápice, sentiu um finíssimo golpe no queixo que instintivamente virou para baixo inclinando-se para a mesa. Era a navalha de barba que foi apontada para o pescoço naquela manhã de um longínquo dia 13 de Junho.

Milagre de Santo António! Exclamou. A partir dali passou o resto da vida a comemorar ter-se livrado da morte certa na ponta daquela navalha graças ao Santo António, o santo que tinha o seu nome. Passou a ser o santo predilecto do Toni!

Já não dormiu mais naquela casa. Saiu. Foi para o Caramulo onde havia vários sanatórios cheios de tuberculosos. Tinha aí muito trabalho como canalizador.

Na prática aqueles sanatórios eram enormes hotéis onde os doentes tentavam recuperar a saúde com os ares da serra, livrando-se das malditas hemoptises que a estreptomicina ainda não curava, porque ainda não existia.

O bacilo identificado pelo microbiologista Roberto Koch cavalgava à solta pelos pulmões que apanhasse mais fracos e desprevenidos. Era a pneumónica dos tempos modernos que igualmente dizimava famílias inteiras.

Os que podiam iam para a Madeira. Outros apanhavam os ares dos Alpes Suíços, mas os mais pobres ficavam pelo Caramulo e não eram todos, pois muitos outros acabavam por morrer em casa amparados pela família que por vezes acabava por ficar contaminada.

Ali conheceu a Délia; moça solteira já trintona que também subira do sopé da serra, da Ermida, para fugir às garras do padrasto que a mãe lhe arranjara quando ficou viúva no acidente ferroviário de Moçambique onde o Videira tinha perdido a vida e a fez regressar ao puto com a filha nos braços.

Ainda com tenra idade desde logo a Délia começou a ver a vida a andar para trás. A falta do pai transformou-a numa escrava do padrasto e dos filhos deste.

Era a mais velha e era em cima dos filhos mais velhos que caía sempre o fardo dos trabalhos mais pesados, além do peso das responsabilidades.

Todos os filhos acabariam por ser atingidos pela fatídica doença, o que o não espantava pois alguns deles foram mesmo feitos em plena serra que não deixaria de estar contaminada com tantos tuberculosos por ali a passear e a escarrar para o chão.

O Tito também não escapou e, aos seis anos, começou a ter um fastio tal que nada conseguia obrigá-lo a comer. Nem a bem nem a mal. Com promessas não comia, com pancada também não. Como era possível bater naquele corpito, pele e osso, duma palidez ebúrnea quase cadavérica.

O Tóni já não sabia o que fazer. O RX deixava ver uma mancha negra do tamanho duma moeda de dois tostões.

Havia que salvar o miúdo fosse como fosse. Encomendou no matadouro sangue de vitela que misturava em marmelada e açúcar amarelo. Ficava um xarope grosso só comestível às colheres, pois mal escorria dos copos.

O Tito começou a comer aquela pasta grossa intragável mas, como era a título de remédio, não tinha alternativa. Havia que ganhar forças para imitar o avô e ter também umas vinte...

Alguém sugeriu que o petróleo é bom para a tísica e o Tóni logo procurou petróleo branco que não havia em lado nenhum, mas o farmacêutico lá conseguiu encomendá-lo a um laboratório de Lisboa.

O Tito passou a beber, misturadas na água, umas quantas gotas daquela solução petroaquosa que tinha um sabor bastante esquisito, mas suportável.

Periodicamente ia ao RX e o Dr. Anriques ia descrevendo a situação:
- Estacionária, Mestre Tóni; estacionária!...Parece que temos homem!- tranquilizava o médico em jeito de João Semana citadino.

A mancha não diminuía. Não aumentava, mas também não desaparecia. Muitos litros de mistela já bebidos e muitos copos de petróleo branco, mas nada de resultados definitivos.

Quando as esperanças começavam a minguar surgiu a notícia da descoberta da estreptomicina. Estava salvo. Onde há ?; Quanto custa?

-Olha Tóni, isto é como diz o povo: "vão-se os anéis, fiquem os dedos!"- disse-lhe o médico ao fim de mais uma consulta.

Foi aí que o Tóni reparou pela primeira vez que nunca tinha usado um anel. O médico usava um anel de ouro com uma torre dum lado e um mocho do outro encimado por uma pedra amarela. Esteve uma vez para perguntar-lhe se o anel tinha sido feito em Coimbra por ter uma torre igual, mas acanhou-se e nada perguntou.

Quando ouviu aquela frase ficou a matutar que raio de sorte aquela de ver irem os anéis que nunca tivera, e ter de trabalhar tanto para quem lho dizia, apenas por causa dos miúdos enfermiços que volta meia volta lá iam parar ao consultório cheios de tosse, de febre e ameaças de raquitismo por falta de pão suficiente.

Vão-se os anéis fiquem os dedos era fácil de dizer, mas a verdade é que ele não tinha anéis para irem. Tinha apenas dedos para ficarem e a trabalhar, cada vez mais arduamente e, mesmo assim, ganhar apenas uns pobres patacos que não chegavam para a mercearia.

Cada caixa de estreptomicina custava o que ele ganhava durante um mês. O dinheiro não chegava para a mercearia e para o talho, como é que havia de chegar para medicamentos.

Noutras doenças do foro pediátrico o médico lá ia dando amostras gratuitas dos laboratórios farmacêuticos que o Tóni acabaria por pagar com trabalhos gratuitos incluindo as consultas; mas estreptomicina ninguém dava em amostras, custava uma fortuna, cada caixa representava muitos dias de trabalho.

Os laboratórios dão muitas amostras quando o medicamento já está firmado no mercado mas quando ele aparece, e representa a salvação de vidas humanas, querem é aproveitar para vender o máximo. Quando dão é ao médico, em viagens, electrodomésticos, automóveis, e mesmo em dinheiro por cada caixa de medicamentos vendida. Mas, amostras para os pobres não dão; dizem que não são a Santa Casa da Misericórdia.

Depois havia ainda o problema de injectar as ampolas. O enfermeiro também não era barato.

- Dr. Anriques eu não podia aprender a dar as injecções ao miúdo? - perguntou o Toni.

- Boa ideia, amigo Tóni, respondeu-lhe o clínico. E ainda com o miúdo de barriga para baixo em cima da marquesa desenhou naquela magricela nádega o sítio onde a agulha deveria ser espetada, e assim passou o Tóni a dar as injecções ao filho, poupando desse modo algum dinheiro que muita falta fazia para a broa de milho que a Liza padeira fornecia lá para casa, sempre com medo de algum calote.

O miúdo escapou à força de tanta injecção, petróleo e sangue de vitela com marmelada e açúcar mascavado. Quem não escapou foi o médico que fumava cigarro atrás de cigarro e nem uma operação à garganta o salvou da metastase que se foi espalhando pelo esófago e pelos pulmões e o condenou à morte implacável pouco tempo depois, embora as notícias publicadas no pasquim salazarista lá da terra o dessem como curado.

O Tito ficou marcado para o resto da vida quando viu o médico ( que o punha bom só de falar com ele, tal a simpatia que irradiava,) reduzido a metade do homem que tinha sido antes da fatídica doença cancerígena.

Entre outras razões de natureza profiláctica e religiosa que o determinavam a não poder ser escravo de vícios, aquela impediu-o de fumar durante toda a vida. Ainda tentou experimentar, mas a faringe expeliu ruidosamente catorrenta tosse com expectoração insuportável.








G

Vivendo economicamente em palpos de aranha os credores não largavam o Tóni para que cumprisse os seus compromissos com pontualidade e começavam a cortar os fornecimentos de materiais.

O pagamento dos medicamentos caríssimos sem qualquer comparticipação medicamentosa. O ter de os pagar no próprio acto de compra, apesar de serem fornecidos através da Cruz Vermelha, obrigava-o a dar para medicamentos o que não havia para o talho, para a mercearia e também para os credores.

Os fornecedores, quais hienas farejando sangue, adivinhavam dificuldades de solvabilidade e começaram a fechar o cerco, não fosse fechar a loja sem lhes pagar.

Alguns dos fornecedores eram do Porto, da Rua dos Caldeireiros, armazéns de metais não ferrosos que forneciam para todo o país. Ao saberem da crise apressaram-se a tentar cobrar as dívidas do Tóni.

- Ó Sr. Toni, tenho aqui as letras para aceite, e não vou embora sem estarem assinadas - dizia-lhe o Faustino do Porto fornecedor da chapa de cobre e outros materiais.

A discussão estava cada vez mais quente e quase se chegava a vias de facto com insultos pelo meio.

O Tito assistia àquilo tudo aparentemente impávido e sereno mas fervendo por dentro por ver o pai atormentado e metido numa alhada daquelas em parte por sua própria culpa, na medida em que alguém tenha culpa de adoecer...mas que não pode ser indiferente à desdita de outrém sendo ele o pivô de tal contratempo.

- Dê cá as letras Sr. Faustino, faz favor - pediu num repente o Tito ao Faustino que instintivamente lhas passou para a mão longe de imaginar o que poderia acontecer.

A situação ficou resolvida de imediato. O Tito pegou nas letras de câmbio, uma dúzia delas, e com aquelas mãozitas pálidas e febris da doença que o atormentava, rasgou-as ao meio exclamando: já estão aceites..., e atirou os bocados ao ar que se espalharam pela oficina como confetis de grandes dimensões.

O Faustino ficou furibundo quando viu aquela inesperada cena. Tremia como varas verdes. Não sabia se havia de sair se havia de bater no miúdo de palmo e meio. Mas ao ver o Tóni, que nunca tinha parado de trabalhar, com o compasso de aço na mão com que talhava os cântaros e os regadores de folha de flandres, saiu barafustando e ameaçando accionar a cobrança, coercivamente, através de processo judicial por dívidas.








H

As congeminações filosóficas do Tito abarcavam um leque muito largo de dúvidas das chamadas angústias metafísicas.

Quanto mais lia Platão, Aristóteles, Kant, Jung, Kirkegaard e tantos outros, mais angústias e dúvidas concentrava no seu espírito. Não era uma dúvida metódica de resolução provável. Era uma dúvida niilista, constante e insolúvel, cuja existência atormentaria o mais indiferente.

Quanto mais estudava mais dúvidas assimilava sem encontrar qualquer chave para os dilemas que o afligiam.

Seria limitação sua ou outros sobredotados também se debateriam com os mesmos problemas até ao paroxismo terminal?

Bem aventurados os ignorantes porque deles é o reino do descanso e da tranquilidade.

Aliás, já o Evangelho segundo S. João diz que são "bem aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus..."

O texto sagrado não especifica concretamente o que são os pobres de espírito. Tanto podem ser deficientes como aqueles que, não sendo deficientes, são simples por natureza.

Simples podem ser consideradas as crianças que, de igual modo, gozam daquele beatífico privilégio.

Ora, há pessoas que são simples sem serem deficientes. São pessoas boas que acreditam no seu semelhante e são por isso mesmo frequentemente ludibriadas mas como são boas reincidem sem nunca desistir; há nessas pessoas como que uma segunda natureza.

Nesta medida todas as pessoas são naturalmente simples. Mas outras, à medida que vão estando em contacto com os habilidosos, vão sendo burladas e enganadas pelos trapaceiros, causticadas pelas vicissitudes impostas pelo dia-a-dia, e a simplicidade esvai-se, para não mais ser encontrada dando lugar ao cinismo e ao calculismo.

É o endurecimento dos anos em vivências sociais que colocam o cidadão de pé atrás com tudo, fazendo-o desconfiado de tudo e de todos.

Nas compras pensa sempre que o produto não é o que lhe apresentam nem quanto à qualidade nem quanto à quantidade, e muitas vezes não se engana. É o gato por lebre... Há quem consiga vender a Ponte Sobre o Tejo, um eléctrico da Carris ou o Marquês de Pombal.

A astúcia é enorme. A cada passo descobrem novas maneiras de vigarizar as pessoas simples e menos simples. As máquinas de fotocopias a cores fazem notas de banco que uma pessoa simples aceita como boas; um indivíduo bem falante consegue fazer-se passar por inspector do Banco de Portugal e pedir numa aldeia as notas de 5 contos para verificar se são boas e desaparecer com elas deixando fotocópias.

O caso do bilhete de lotaria premiado é o mais clássico. Mesmo assim muita gente cai na armadilha e não ousa queixar-se dado ter sido conivente com o burlão.

O ouro falso foi outro caso em que até o Tito caiu. Um falso objecto de ouro é atirado para o chão junto de alguém que, inquirido, diz logo pertencer-lhe. É-lhe então pedida uma gratificação que perante o achado é sempre demasiadamente grande. Claro que o objecto é apenas de latão dourado e pago, portanto, por bom preço dado o oportunismo do falso perdedor.

O rol é infindável. Os expedientes para ganhar dinheiro fácil, sem trabalho, explorando a boa-fé dos incautos são inúmeros.










I

Afinal não estudar e trabalhar de modo braçal e chegar ao fim do dia e cair na cama como um tordo cheio de cansaço é bem melhor que debater-se com insónias infindáveis com o miolo em turbilhão, com problemas de toda a ordem e sem qualquer solução.

Mas o que se torna ainda mais desconcertante é o facto de tanta gente fazer afirmações categóricas sem qualquer prova, apenas por mera intuição, nomeadamente no que concerne ao âmbito da fé onde as provas são ainda mais inconcludentes.

Afirmações produzidas com o objectivo de as transformar em verdades axiomáticas à força de tanta repetição.

Se o Homem pregasse o bem e o praticasse com a mesma veemência com que prega a imortalidade da alma, certamente que o mundo já estaria transformado e as prisões estariam vazias à míngua de hóspedes, aliás tão dispendiosos para o erário público.

O Homem inventou a escrita há cerca de cinco mil anos e ainda antes as palavras. Instrumento excelente para construir efabulações em espiral que nunca mais acabam.

As palavras constróem conceitos que permitem a quadratura do circulo intelectual.

Como alguém observou já está tudo dito para salvar a humanidade. Falta apenas salvá-la.

Só livros semelhantes à Bíblia são vários. Alguns anteriores e outros posteriores. Cada um pregando o bem, a justiça, a solidariedade, a paz, etc. e, não obstante, a humanidade nunca mais pára de acirrar os ânimos fomentando a guerra por vezes empunhando bandeiras religiosas.

Aliás, um mundo tão belicista e com tanta soldadesca, necessita de dar que fazer a uma indústria tão lucrativa.

É impensável que um agricultor tenha um tractor a enferrujar sem amanhar as terras e sem produzir os bens de consumo primário que lhe dão e nos dão a subsistência.

Ora, a indústria castrense não pode suportar ver o seu equipamento lubrificado e afinado para os fins a que se destina e não ser utilizado.

A indústria automóvel por vezes tem parado por não ter onde colocar o produto. Ora, o mesmo aconteceria com a indústria bélica se não tomassem medidas conducentes ao uso dos respectivos produtos.

Quando em 1954 Raoul Follereau pediu a Eisenhower e a Malenkov o valor de um caça bombardeiro para com esse valor resolver os problemas da lepra, pura e simplesmente ficou sem resposta.

Quando as populações ficam isoladas devido a cataclismos naturais nem sempre os socorros chegam a tempo e os alimentos ficam muitas vezes nos bolsos de quem os deveria distribuir, mas o armamento chega sempre aos lugares mais recônditos provocando guerras civis miseráveis que matam pela violência das armas, pela doença e pela fome milhões de pessoas completamente inocentes.

Onde houver estúpidas divergências de natureza étnica, social, política ou religiosa é imperioso estimular os próceres dessas desinteligências porque é certo e sabido que aí estarão pelo menos dois bons clientes de armamento.

Se soubermos que um simples tiro de rockets custa muitas dezenas de contos, fácil é imaginar a hemorragia financeira que esta indústria causa a todos os países, nomeadamente aos mais carenciados.

A esta lei nenhum estadista consegue fugir. Democratas, Conservadores, Trabalhistas, Socialistas e também os ditadores que ainda reinam todos estão manietados por estes liames imperscrutáveis da actividade bélica.


Miriades de livros foram já escritos para salvar a humanidade e toda a gente sabe como fazê-lo, mas outros valores mais fortes impõem o seu diktat.

O Homem está a atolar-se no pântano da sua própria destruição física, moral e espiritual.

Certamente que a humanidade caminha inexoravelmente para o abismo e nem as religiões instaladas no mundo há tantos séculos, multiplicadas em termos exponenciais, chegarão para a levar a bom porto, não por demérito, mas porque a humanidade é refractária a valores espirituais e nada mais vê do que o lucro fácil em toda a plenitude da sua actividade. O Homem criou uma cultura que assenta no sucesso a qualquer preço, mesmo que veja estar a caminhar para o abismo.

Os EUA conhecem melhor que qualquer outro país o que é anunciado na Bíblia. Os Presidentes daquele poderoso país sabem o que disse o profeta Isaías quando preconizou que o Homem deve transformar as espadas em enxadas e as lanças em foices, mas, para eles, trata-se de letra morta, pese embora ser a pátria da grande mediatização evangélica e também da grande criminalidade.

As razões em parte são óbvias, pois, na mesma pátria coexistem o infinitamente rico e o infinitamente pobre.

Durante o dia a cidade de New York tem uma vida agitada, mas normal para uma metropole com 11 milhões de habitantes. Ao fim do dia é que começam a surgir os magotes afroamericanos, com a lata da Coca-Cola na mão a pedir uns trocos, muitos dos quais dormem embrulhados em papelões num estranho parque de campismo nocturno a que se dá o nome de Central Park. E tudo isto a dois passos de Wall Street...

A ironia de tudo isto é que o Homem sabe o que está a acontecer, mas não consegue arrepiar caminho. Sabe que o buraco do ozono o vai matar, mas não consegue deixar de utilizar os gases letais tão nocivos à existência humana.

Alguns animais, inexplicavelmente, suicidam-se em grupo. O Homem está a actuar como os irracionais e vai ateando a fogueira do seu próprio holocausto, enquanto vai dançando no cimo da pira, num baile macabro que imagina só poder ser ateado pelas gerações vindouras, e, portanto, quem cá estiver que resolva o problema.

Em breve deixará de poder respirar o ar que o rodeia. Deixará de poder beber a água que corre nas fontes cada vez mais poluída. Os alimentos vão começar a ficar contaminados tendo-se já consciência de que são vários os que contêm um indíce de veneno que mata a curto, médio ou longo prazo. Estamos a caminhar para o reino do enxofre, do chumbo, do monóxido de carbono, do mercúrio, dos pesticidas, etc.

Nas conferências internacionais sobre o ambiente todas as nações prometem tomar medidas para solucionar tão grave problema, mas, depois, os anos vão passando e as medidas preconizadas não são implementadas, pois nem os países mais ricos querem pagar a factura; o seu interesse é outro; consiste apenas em facturar.

Tem sido um manancial para os laboratórios farmacêuticos cada vez com mais lucros distribuídos também pela classe médica que vai viajando graciosamente pelo mundo todo a pretexto de participar em congressos, e enriquecendo à custa da saúde pública, locupletando-se com verbas que deveriam ser abatidas aos preços dos medicamentos para aliviar os encargos dos mais desprotegidos da ignóbil sociedade capitalista em que vivemos.

Nunca houve tanto cancro. Nunca houve tanta alergia. Nunca se nasceu tão doente como hoje, embora as técnicas de saúde prolonguem a longevidade cada vez mais; mas, no fundo, de modo artificial, porque a saúde é escassa para a generalidade das pessoas, mesmo nos países industrializados.

Nunca como hoje o mundo esteve tão endogenamente adulterado e poluído.

Onde ontem corriam rios de água cristalina que as pessoas bebiam sem rebuço, correm hoje caudais de produtos químicos venenosos que matam a fauna e a flora transformados em esgotos fétidos a céu aberto o que ontem eram águas potáveis.

Ainda há poucos anos a poluição era apenas superficial. Tratava-se de produtos que uma vez removidos e incinerados deixavam de constituir problema. Hoje, o caso muda de figura. Os resíduos estão infiltrados no subsolo e a degradação é muito maior. Em breve será difícil beber um copo de água potável a qual virá a ser porventura a maior riqueza do próximo milénio.

Nunca houve guerra por causa da água mas, no futuro, esse precioso líquido vai ser a principal fonte de discórdia, como sempre, pondo em confrontação vizinho contra vizinho e nação contra nação porque mesmo onde houver muita água, a que for potável será escassa para uma população que cresce exponencialmente.

Portugal tornou-se independente de Castela desde o século XII. Várias foram as guerras impulsionadas pelo amor ao poder. Mas, apesar de todo esse ódio característico de maus vizinhos, nunca se lembraram de desviar os caudais dos grandes rios com nascente em Espanha.

Hoje é o principal pomo de discórdia com o país vizinho. Claro que foi um erro a independência de Castela, que aliás a União Europeia acaba por provar ser inútil à medida que avançar o inevitável federalismo tão contestado pelos políticos de direita sempre saudosos do "deus, pátria, família".

Os recursos do país seriam muito mais ricos se estivéssemos ligados a Espanha cuja industrialização começou muito mais cedo que a nossa, mesmo impulsionada pelo caudilho-ditador.

A independência do país é semelhante à que a FLA e a FLAMA pretendiam para os Açores e Madeira na década de setenta. Hoje o pudor político é maior e já não se manifestam, limitando-se alguns cabecilhas ao insulto soez ao povo e aos políticos do Continente.

Não temos grande viabilidade económica num solo que apenas em 60 % é arável, sem jazidas naturais que nos proporcionem outros recursos para além da mão-de-obra barata e do turismo.

Durante décadas os ideólogos do antigo regime repetiram à saciedade a independência natural do país, inventando separações naturais, onde, afinal, só há ligações com Espanha.

Separação há nos Pirinéus. Até lá realmente temos em Trás-os-Montes e Beiras alguns acidentes naturais que mais justificavam a ligação ao país vizinho como acontece entre o Minho e a Galiza..

Portugal parece o refugo da criação da Europa e da Ibéria. Ficámos com a pior parte, e insistimos em manter-nos fechados nela.

A nossa ligação a Espanha é tão natural que até ao século XVI falámos a mesma língua, e à guisa de exemplo se referem dois escritores que escreveram em castelhano: Gil Vicente e Camões.

O povo, ludibriado, fez a vontade a uma elite ávida de poder, tanto em 1140 como em 1640. Mas o povo nem sempre tem razão. Grandes atrocidades foram apoiadas pelo povo. O povo é manobrável. Num país de cassiques o povo fica diminuído e em vez de resolver os seus graves problemas endossa-os para os políticos que os resolvem de acordo com os seus interesses ideológicos e/ou partidários.

A democracia parece um dado adquirido, mas, na verdade, além de podermos perdela, é um edifício que nunca está construído. Os alicerces são sempre fracos e a corrosão não perde tempo. A democracia está exposta dia e noite às intempéries que enferrujam a estrutura social mais resistente.

Parece por vezes um lindo edifício, mas na verdade não passa dum prédio imisso com acabamentos superficiais e sem qualidade, muitas vezes com caboucos assentes em areia movediça.

Alega-se, em tese contrária, que Espanha é constituída por várias nações; pois ainda bem. A diversidade é factor cultural e Portugal seria apenas mais uma, pois, a prosseguir nesse raciocínio teríamos em Portugal mais onze micro nações com características tão diferentes como os Açores e o Algarve. Aliás, imitando a situação espanhola também já temos o mirandês em placas toponímicas não se sabe bem para quê mas eles lá sabem. Talvez um dia queiram ser uma Andorra.

A rivalidade existente entre o Norte e o Sul é prova do erro em que muita gente mal informada continua a lavrar.

Quando se forma um governo não se tem em vista quais são os melhores elementos do país para o integrar. Tem-se em vista quantos membros do governo são do Norte e quantos são do Sul, sendo que todos têm de ser afectos ao partido mais votado.

Esta situação teve lamentáveis reflexos em empresas, nomeadamente as nacionalizadas, cujos lobbies exerceram nefasta influência na gestão, defendendo a sua dama em razão das regiões ou de interesses de grupos, em vez do equilibro sócio-profissional e a respectiva competência de cada um.

A falta de preparação de muitos responsáveis não lhes permite reconhecer esta moléstia que estende os seus tentáculos com total desrespeito pelos interesses legítimos de todos aqueles que não integram as pseudo elites.

Diz o evangelista João que no princípio era o verbo...Desde sempre, e enquanto o Homem na sua autofagia não destruir tudo e todos, há-de questionar-se sobre a sua origem e o seu destino. Donde vimos? Para onde vamos? serão sempre incógnitas sem resposta cabal. Adão significa barro. O Profeta Jó diz que somos pó e ao pó voltaremos: pulvis est. Na verdade isso é o que está diante dos olhos da humanidade desde que se conhece. Essa é a aparência da vida.

Tudo que nasce morre. É o ciclo da vida. Nascer, viver e morrer, quando não há alterações abruptas de percurso. Mas será que esta é a realidade existencial, concreta, inexorável, autêntica, ou haverá algo mais para além de tudo isto? Seremos apenas um primata que levantou as mãos, e tentou dominar o mundo que o rodeia tentando explorar outros in loco e a milhões de anos luz, acabando provavelmente por destruir a própria vida?

A Bíblia diz que fomos feitos à imagem e semelhança do Criador. Quem fez o criador? Quando nasceu? Quando morrerá? Nunca teremos respostas. A resposta é certamente a bíblica: Eu sou no sentido mais ôntico do termo.

Estaremos numa relação similar ao insecto perante o Homem?
Será que um dia o Homem descobrirá o que o transcende espiritualmente e tudo isso passa a ser comum, como comum é a electricidade que descobriu e domina sem que a explique senão através do significado da palavra âmbar e dos efeitos produzidos pela mesma.

Bertrand Russel, filósofo, matemático e Prémio Nobel da Paz, em "Porque não sou Cristão" debruçou-se sobre este tema e concluiu apenas que não podia provar a inexistência de Deus, mas que em contrapartida ninguém lhe poderia provar a Sua existência.

Com efeito, nem a Bíblia prova a existência de Deus, sendo esse um tema remetido para o âmbito da fé que, ao contrário do que alguns afirmam, nada tem a ver com a razão, pois se imperasse a razão numa tal área não seria necessária a fé.

Trata-se duma situação dilemática a que os seus profundos conhecimentos de matemática não responderam cabalmente, tal como a Bíblia não responde.


Mais recentemente um dos continuadores do Físico Albert Einstein, o Professor da Universidade de Cambridge, Stephen Hawking na 'Breve História do Tempo' vem dizer-nos que a linguagem de Deus é a matemática.

Mas, então, nessa matemática pura não cabe o simples cálculo daqueles que neste mundo, criados à Sua imagem e semelhança estão condenados a morrer de fome ao ritmo de 10 milhões por ano; enquanto outros estão condenados a morrer de congestão por excesso de alimentos e gula em todos os países industrializados, com excesso de produção armazenada e destinada a queima por falta de consumidores? Mistério...

O Homem precisará de maior coeficiente intelectual para verificar que 19% da humanidade possui tudo, e 81% não possui nada.

O Apocalipse diz que o mundo acabará em fogo, sendo óbvio que a 'chaminé' já está em construção tal como foi construída a inútil Torre de Babel que só serviu para confundir quem deveria viver terra-a-terra em vez de sonhar com construções de tamanha megalomania.

O buraco do ozono aumenta todos os dias e os políticos, interessados apenas nas suas candidaturas e sinecuras e na colocação das suas clientelas, metem a cabeça debaixo da areia e deixam correr.

Salve-se quem puder, é a palavra de ordem! Pena é que não haja hipótese de fuga. Com Noé tudo acabou em água. Desta vez, e segundo o Apocalipse, o último livro e o mais escatológico da Bíblia, tudo acabará destruído pelo fogo.

"Não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada" - é a sentença do Evangelho!

Na verdade a humanidade tem já potencial para se destruir cerca de 20 vezes. Será que só falta um louco para começar a disparar? Ou não será louco e cumprirá apenas os ditames existenciais da humanidade, condenada a desaparecer na sua trajectória desde o nascer ao viver, como todos os seres vivos, além doutros que vagueiam pelo espaço ao encontro do seu próprio buraco negro?...




J

Estas e outras congeminações atormentavam o Tito desde rapaz pois que a realidade da vida se lhe afigurava esquisita e nada compaginável com as teorias apregoadas por todo o lado, nomeadamente no âmbito religioso menos esclarecido.

A sua preocupação dominante era a sinceridade. Ficava pasmado quando ouvia na Igreja o Pastor afirmar que era completamente feliz graças a Jesus Cristo e que estava salvo para a Eternidade, sendo que ele se sentia tal como o poeta Fernando Pessoa se confessara: vil, reles, cobarde, ignominioso e também infeliz...

- Desde que entreguei a minha vida a Cristo Jesus sou completamente feliz, dizia o Pastor Cerqueira cada vez que se falava na relação que deve haver com o Redentor.

É certo que o Cerqueira tinha sido um alcoólico e drogado. Trabalhara numa fábrica de confeitaria até aos quarenta anos, após o que ficou no desemprego por ter falido a empresa.

Tinha sido uma empresa próspera durante décadas, mas depois de ter sido comprada por um economista defensor do capitalismo liberal, começou a ser descapitalizada a pouco e pouco, até que as centenas de empregados começaram a ver os salários em atraso, durante meses e anos, até ao encerramento.

A massa falida que restou não era mais que umas paredes cheias de fendas, um telhado de fibrocimento, umas quantas mesas térmicas zincadas já com 30 anos e uns portões enferrrujados; tudo bom para a sucata e para demolir, embora os 3 filhos do dono tivessem todos comprado carros topo de gama já depois da gestão do economista e da declaração de falência.

A mulher do Cerqueira quando viu que tinha de trabalhar para ele e para o filho desapareceu para parte incerta. Constou que tinha um primo açoriano nos EUA e terá fugido para lá. O miúdo acabou por ir parar à Casa do Gaiato, e o Cerqueira ficou a tentar dormir nas arcadas do Teatro Nacional, comendo a única refeição quente do dia constituída por uma sopa distribuída diariamente pelo “Exército da Salvação” no Rossio de Lisboa.

Durante o dia ia até à lixeira de Camarate e, procurando chumbo, aluminio, latão e zinco lá ia juntando dinheiro para o tabaco e para os copos. Os morcões mais novos não o deixavam arrumar automóveis no Largo de S. Domingos e ele não conseguia resistir-lhes fisicamente. Estava velho e alquebrado. Só pensava em morrer para fugir à sociedade que o amaldiçoara e banira. Fugia para Camarate repicando bilhetes de autocarro já utilizados e que apanhava no chão.

Certo dia, no meio da lixeira viu um folheto duma igreja evangélica que apenas transcrevia meia dúzia de versículos do Novo Testamento:

"Disse Jesus: - Eu sou o caminho, e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão
por mim."

"Vinde após mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve."

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que lhe deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna"

"Bem-aventurados os que têm fome e sede de Justiça, porque eles serão fartos."

Concluía o folheto: Visite a nossa igreja na Rua Filipe Folque, etc.

O Cerqueira começou a pensar que não podia continuar a viver daquela maneira e que talvez houvesse uma esperança. Afinal Deus é Amor dizia também o folheto.

Ao chegar à Igreja uma hora mais cedo, pois o relógio já tinha sido transformado em vinho, quase assustou o porteiro que não queria deixá-lo entrar. Mas chegava naquele momento outro diácono que se lembrou que acabavam de receber bastantes donativos para enviar para o Huambo. Lembrou-se de o mandar tomar banho no balneário das instalações da Escola Dominical da Igreja com uma muda total de roupa e calçado.

O Cerqueira com a barba feita, fato novo e banho tomado, parecia um diplomata. Era alto, bem parecido e magro. Quem não soubesse o que ia por trás daquela vida de tormento teria até muito gosto em estar a seu lado. Parecia um diplomata. Assistiu ao culto que nesse dia era dirigido por um missionário muito inspirado e muito bom orador. Quando chegou ao fim da pregação convidou todos os que quisessem uma vida nova a irem à frente para orarem todos juntos. Entre as dezenas de arrependidos estava o Cerqueira que nessa noite, auxiliado pela Igreja, já não dormiu nas arcadas do Teatro Nacional, (onde outrora esteve o Palácio dos Estaus da Inquisição Católica), mas sim no Lar da Terceira Idade da Igreja Evangélica.

Um dos membros da Igreja, dono duma cadeia de supermercados, prontificou-se a dar-lhe trabalho nos armazéns. O Cerqueira já tinha o 11º ano do Liceu e fácil lhe foi estudar 3 anos para o bacharelato do Seminário Evangélico e ser hoje um Pastor com um trabalho muito apreciável graças ao folheto que encontrou na lixeira o qual lhe disse que Jesus era o caminho, a verdade e a vida...

Apesar de conhecer a história do Pastor Cerqueira, o Tito ficava siderado com aquelas afirmações de felicidade. Ao princípio não dizia nada. Engolia em seco como quem está a anos-luz desse dom que parece só alcançar alguns. Desconfiava de si mesmo.

- O problema deve ser meu – desabafava consigo mesmo. Perante uma afirmação tão categórica certamente que era sua a limitação congénita que o impedia de receber uma tal graça: ser Feliz.

Toda a humanidade busca ser feliz por todos os meios ao seu alcance. Feliz pelo dinheiro, pelo amor, pela sabedoria e mesmo com isto tudo teremos uma felicidade mitigada, nunca comparável com a do Pastor Cerqueira: Completamente feliz.

Nas reuniões, nos estudos, na Igreja, do púlpito para baixo, o Pastor proclamava a sua total felicidade por ter entregado a sua vida nas mãos de Jesus Cristo e ponto final. Parecia um dogma, axiomático, inquestionável e irrefragável.

Gera-se um ambiente em que ninguém pode retorquir, sob pena de se declarar um ser inferior não atingido pela benção de ser completamente feliz; logo, um cristão de segunda, como os pretos nas colónias salazaristas; cidadãos de segunda.

Questionar o tema era confessar que se pode fazer parte duma Igreja - onde é suposto só haver membros autênticos - havendo afinal ovelhas negras que, dissimuladamente, passaram o crivo da análise pastoral que lhes permitiu serem baptizados como Cristo, num rio ou num baptistério, mas sempre por imersão que é a tradução do termo grego baptismo sem que sejam cristãos genuínos.

Aliás, é por isso que se contesta o baptismo católico que nada tem de imersão e até parece ter algo de perversão com a quantidade de sal colocada na boca dos inocentes nunca tidos nem achados para tão importante pacto confessional.

A igreja católica recruta adeptos como os clubes de futebol. Mal nascem já fazem parte da torcida do progenitor. O Tito remoía a afirmação que lhe parecia bombástica e um tanto jactanciosa num mundo de tanta e tão profunda infelicidade.

Só se vêem infelizes. Porque não têm trabalho, por doença, pela traição dos amigos e da família, e tantas outras razões, o que via mais na sociedade em que vivemos é gente infeliz, excluídos pela família e pela sociedade.

O Pastor Cerqueira era um caso isolado, único, agraciado por uma sorte que ninguém tinha alcançado, embora por vezes alguns outros esporadicamente falassem do tema quase com a mesma convicção.

Num certo dia o Tito não se conteve. O Pastor Cerqueira acabava de afirmar que era completamente feliz e o Tito, que já não suportava aquela lengalenga, dispara.

- Sabe que mais: felizes são os parvos.

O Pastor Cerqueira ficou lívido. Em primeiro lugar porque a confiança que tinham não podia permitir tal liberalidade. Em segundo lugar porque depois dum tema tão sério e até sagrado era insuportável uma afirmação tão rude.

- Felizes não são os parvos. Felizes são os que depositam as suas vidas nas mãos de Cristo Salvador - reiterou o Pastor Cerqueira.

O Tito não desarmou e recomeçou a sua argumentação.

Como é que se pode ser completamente feliz num mundo onde milhões de pessoas morrem de fome e doença todos os anos. Quando países como aquele que lhe paga o salário têm os armazéns cheios de víveres e pagam aos produtores subsídios para não produzirem mais? - repetia o Tito.

- Como é que se pode ser completamente feliz num mundo onde as pessoas continuam a ser mortas apenas pelas suas ideias e ainda por cima as mais justas em defesa da liberdade e da justiça social? - insistia o Tito.

- Como é que se pode ser completamente feliz quando o seu colega Martin Luter King, Prémio Nobel da Paz, foi morto por defender os direitos cívicos dos negros norte americanos que não podiam viajar nos mesmos autocarros dos brancos num vergonhoso; no black no white? - reiterava o Tito. I have a dream...dizia ele na ânsia de transformar a violência americana. Caiu vítima da feroz violência dos KKK e lá onde quer que se encontre estará dizendo: I have a dream!

Como é que se pode ser completamente feliz quando alguns membros da sua igreja aparecem em carros de grande cilindrada, topo de gama, de muitos milhares de contos, enquanto outros seus irmãos em Cristo não têm pão para comer, e estendem envergonhados a mão à caridade da Igreja, para não morrerem de fome? - questionava o Tito.

Que espécie de felicidade é essa que não passa duma quimérica ilha paradisíaca num vale de lágrimas choradas por milhões de pessoas que ao longo dos séculos têm sido uns sacrificados tão injustamente tratados, escravizados pela prepotência, arrogância e vileza dos possidentes da terra que despoticamente agem como suseranos intocáveis no cimo das suas torres plutocráticas? - rematou o Tito.

E a conversa ficava por aqui, num contragosto para vencido e vencedor, porque há discussões em que ninguém sai vencedor. A vitória seria o encontrar de soluções para a triste realidade da vida que, só é hedonista para alguns.

O Cristianismo não deixa de ter uma boa quota-parte de responsabilidades nesta matéria.

Foram vítimas quando há dois mil anos enfrentavam as feras nas arenas para testemunharem a sua fé mas, depois, quando Constantino os chamou ao poder, a filosofia mudou bastante, particularmente no mundo católico que quase sempre tem estado ao lado do poder, não só em Portugal durante o consulado salazarista, como em muitas partes do mundo.

Quem abençoou a guerra colonial com milhares de vítimas inocentes? Quem calou as injustiças sociais do Estado Novo? Quem vilipendiou o Bispo do Porto cinicamente impedido de regressar à sua pátria e assim tacitamente desterrado para Roma pelo Salazarismo com a conivência criminosa da Igreja Católica portuguesa liderada pelo Cardeal Cerejeira?

A Igreja Católica não é uma Igreja. É um Estado dentro doutro Estado. Nenhum outro grupo teve a prerrogativa de ter um direito próprio dentro do Estado, e nenhum outro goza de tantos privilégios; tantos que até os políticos laicos e maçónicos se curvam perante o seu poder, dada a ameaça sempre latente de verem desviados muitos milhares de votos para outros candidatos eventualmente considerados mais pios.

A pretexto de terem sido espoliados durante a Primeira República, o salazarismo restituiu-lhes muito do que deveria ter sido entregue a institutos de solidariedade social, para proteger as crianças abandonadas, os orfãos e a terceira idade empobrecida e envergonhada cujas reformas de miséria fica na farmácia, nas mãos do senhorio, na sopa sem proteínas, numa falta de cuidados médicos constante que atiram para a tumba prematuramente quem não pôde alcançar uma reforma condigna.

Os impostos que a Igreja Católica não paga (privilégio que nenhuma outra tem neste estado dito laico) eram suficientes para retirar da rua os que não têm abrigo, criar inúmeros infantários para as populações trabalhadoras e ainda resolver o internamento de muitos milhares de idosos abandonados em lares ligados ao circuito comercial, que não têm escrúpulos em ir matando lentamente os utentes sem qualquer assistência, a não ser na publicidade, e até à fome, não obstante pagarem boas mensalidades a tais depósitos de velhos, abandonados nas antecâmaras da morte, quais campos de concentração pois até pancada chegam a apanhar como se fossem marginais indisciplinados e insolentes.







K


Naquele período surgia na América uma figura extremamente mediática do mundo evangélico: Billy Graham.

Tinha sido vendedor de electrodomésticos. Após a conversão prostrou-se no chão do seu quarto e afirma ter sentido a chamada de Cristo para a evangelização.

O Tito leu atentamente o seu livro "Paz Com Deus" e fez o mesmo, mas não conseguiu sentir nada. Nem salvação, nem chamada, nem maior grau de espiritualidade, nem nada. Tudo como dantes...Nem o baptismo no rio como Jesus no Jordão lhe aumentou o índice de espiritualidade, que tanto desejava.

Sentia-se um verme rastejante quando ouvia os inefáveis sermões teorizando sobre os transcendentes conceitos da escatologia e do homem novo, renascido. "Necessário vos é nascer de novo..."é o imperativo do Mestre. Porém, muitos dos renascidos são piores que os agnósticos, os cépticos e os ateus, pelo que fácil lhe foi concluir que nem sempre os ditos filhos de Deus foram transformados em homens novos como afirmam e seria mister.

Certamente será necessário ter uma maior dose de fé. "Se tiveres fé do tamanho dum grão de mostarda...dirás a este monte muda-te para ali, e ele mudar-se-á." Os montes mudam-se de facto. Mudam-se os Continentes que quando nasceram estavam todos colados formando o continente Pangeia rodeado pelo oceano Pantalassa até‚ há cerca de 225 milhões de anos como uma massa única. Mas não mudaram por imperativos anímicos, volitivos ou quaisquer outros de natureza humana ou espiritual.

A mudança parece ter a ver com a força centrífuga que achatou os polos e tornou mais bojudo o globo no equador, ficando um tanto parecido com a laranja.

É certo que o Tito tinha tido a sorte de encontrar um bom amigo, um irmão mais velho. O Diácono da Igreja, o Gil, homem de baixa estatura, calvo, com uma cara que muito denunciava a nossa origem primata, culto, jornalista, dono duma tipografia, sempre pronto para ajudar os mais desfavorecidos.

Bom orador, capaz de arrebatar as massas, com um certo jeito republicano mas ao mesmo tempo dialogante com todos, para poder coexistir com a situação política. Vaidoso, de anel no dedo indicador por já não caber no anelar, ficava com um certo ar de novo rico, para quem os anéis são promoção social.

Talvez fosse a profissão que o obrigava a estar de bem com todos e certamente de mal consigo mesmo. Ele bem sabia que ninguém pode servir a dois senhores pois, tanta vez terá falado desse tema na Igreja, sendo como é um tema tão comummente tratado nas homílias religiosas.

Razões talvez não lhe faltassem, pois corriam uns fumos adulterinos sobre si que muito preocupavam a comunidade evangélica do sítio. A carne é fraca e não são apenas os priores do Eça que se metem em alhadas inspiradas pelo frufru dos saiotes, como os do “Crime do Padre Amaro...”

A diferença existe na consciência de quem prevarica. Uns assumem os erros, outros não.

Certo dia foi solicitado para dirigir o funeral duma criança de meses que os médicos tinham matado no hospital com excesso de antibióticos em comprimidos, que o pequeno músculo cardíaco com meses de idade, não podia aguentar.

Quem sabe se a necessidade de vender medicamentos não estaria na origem de facto tão trágico. A ganância e a incompetência andam por vezes de mãos dadas.

Receitar comprimidos a um bebé parece não ser a terapêutica mais aconselhável. O clínico lá se desculpou, mas quem ficou sem o filho foi o casal, recentemente unido pelo matrimónio e que irão chorar o filho até ao fim das suas vidas.

Ficou tão perturbado por não ter a consciência limpa que entrou em autêntica histeria. Fiteiro, parecia mais o progenitor do miúdo que o próprio pai. Este tentava animá-lo em vez de chorar a morte do filho, tal o teatro do evangelista para quem não havia copo de água com açúcar que acalmasse aquela conturbada consciência. Tiveram que chamar um outro evangelista de fora para realizar o funeral, pois o da localidade não conseguiu compostura para o efeito.

Ele levantava-se, agitava-se, dizia coisas incompreensíveis mais parecendo estar endemoninhado. A realidade é que se debatia com uma consciência pesada como o chumbo, pois o incesto deixa as suas marcas, por mais naturalidade e ingenuidade que os folhetins televisivos brasileiros pretendem transmitir.

Houve um outro que chegou mesmo a ser ouvido pelo conselho da igreja. Defendeu-se. Que não; que era tudo falso, e mostrou mesmo a cinta que comprovava ser herniado, querendo com isso dizer que não podia ter relações sexuais, o que era manifestamente duvidoso como duvidosa era, naquele caso, a necessidade da funda.

O Gil era amigo dum famoso escritor beirão. Acompanhava-o sempre que se deslocava à terra; mas depois também tinha de conviver com o Governador Civil salazarista, com o caudilho da união Nacional e quejandos. Eram eles que lhe davam as informações noticiosas; era com eles que ia às inaugurações e quando alguém lhe fazia um pedido para um qualquer figurão da Capital lá estava o amigo Gil a utilizar esses contactos para ajudar a resolver o problema, sempre com franqueza, amigo do seu amigo, do tipo: só não ajudo se não puder.

Na Igreja Evangélica era o principal interventor. Agia como se fosse Pastor. Era o Obreiro...Autodidacta; tinha muito mais preparação que muitos licenciados em muitas áreas do saber. Inteligência brilhante, memória privilegiada, facilmente ia buscar o que tinha lido sobre determinado tema e recitava textos enormes sobre a matéria. Dizia ele que um dos métodos que tinha era ler alto, o que aconselhava a todos.

Num certo Domingo subiu ao púlpito e começou a dissertar sobre a Cosmogonia biblica; tema que lhe era muito querido e que não se cansava de debater à luz das novas teorias científicas, por vezes um tanto contraditórias com o texto mosaico do Pentateuco.

Camisa branca, toda engomada com botões de punho e alfinete de gravata em ouro. Fato azul com colete e sapatos pretos tipo verniz, o Gil começou a falar do púlpito mas, passados algumas minutos, para cortar a monotonia começou a deambular dum lado para o outro e para melhor expressar as suas afirmações meteu as mãos nos bolsos das calças ao mesmo tempo que fazia peito enchendo os pulmões para com mais vigor proclamar as suas ideias em tom tonitruante.

Era uma manhã fria de Inverno. Cerca das 11 horas. O Gil havia-se vestido à pressa para chegar a tempo à Igreja.

Meteu as mãos nos bolsos e, de imediato, a braguilha abriu-se vendo-se as alvas ceroulas por baixo das calças.

Os crentes ficaram enxutos. Não causou risada mas o enlevo espiritual do momento volatilizou-se...









L



Foi neste ambiente que o Tito também foi formado e amparado para atingir os seus objectivos. Queria estudar. Ser alguém, como se dizia na época. Vivia em frente de sua casa um brilhante advogado cuja eloquência sobressaía particularmente nos comícios republicanos do 5 de Outubro e do 31 de Janeiro.

Sabia que um primo da sua avó tinha estado ligado ao 31 de Janeiro na praça de santo Ovídio no Porto e que teve de fugir para África escondido dentro duma barrica para não ser morto pelos monárquicos tripeiros.

Mas ele queria ser como o advogado. Para farda apenas queria a toga do tribunal. Pensava que, conhecendo as leis conseguiria endireitar as injustiças do mundo. Desconhecia que, antes dele, muitos outros consagraram as suas vidas a essa meritória causa, e o mundo está cada vez mais torto. O pai não o deixava estudar, queria-o na oficina para explorar a sua mão de obra barata. Precisava de mão-de-obra, tanto quanto possível barata para fazer face às dificuldades duma vida sem horizontes. Quanto mais insistia, pior. É como no amor; quanto mais contrariado mais se cimenta...Também é assim com as ideias. Se não forem avivadas talvez esqueçam mas se forem contrariadas transformam-se em ideias fixas até que sejam realizadas.

O Gil não podia alinhar com a Oposição Democrática embora gostasse imenso da acção e da coragem do General Sem Medo. A Pide não dava os nomes dos eleitores. Para complicar dizia que quem os quisesse fosse ao Governo Civil copiá-los. Assim foi feito. O nosso rapaz o Tito não olhou para trás e ofereceu-se voluntariamente para ajudar na ingente tarefa de copiar à mão os cadernos eleitorais.

Durante vários dias metido dentro da toca do lobo, ele e os seus companheiros não fizeram outra coisa. Trabalho insano aquele de copiar nome após nome numa lista de muitos milhares.

Foi-lhe conferido um cartão de livre trânsito vermelho com uma lista verde-rubra que recebeu com uma enorme alegria, cheio de orgulho. Lutava por uma boa causa. A causa da libertação do povo português dominado desde 1926 por um seminarista lá da terra.

O país fervilhava de norte a sul. A geração de que o Tito fazia parte jamais tinha vivido dias tão gratificantes. Aproximava-se o dia da visita do General. Todos andavam nervosos. Que iria acontecer na própria terra onde o Botas tinha passado os melhores anos da sua vida. Ali mesmo onde ele tinha passado onze anos num quarto de granito virado para a estátua do preclaro Bispo Alves Martins.

Os esbirros certamente iriam ficar mais assanhados que nunca.

O Tito era um ingénuo. Pides só conhecia os que então estavam fardados acumulando funções; PSP, GNR, PVT, Mocidade Portuguesa e Legião Portuguesa. Desses conhecia uns quantos por vê-los passar atrás da charanga que em dias de festa se passeava até à Sé. Mas os verdadeiros, os desfardados, os paisanos, desconhecia-os completamente.

Na inconsciência a um tempo rebelde revoltada e revolucionária da juventude arriscava e dizia abertamente que o regime estava errado. Mesmo o Chefe da Policia esteve certa vez a ouvi-lo com alguma atenção pois os seus argumentos eram irrefragáveis e claros.

- Veja o que se passa na América- proclamava - um país que já nasceu democrata, argumentava o Tito, para o Chefe da Polícia que ficava sem resposta quando invocava as virtualidades do salazarismo e a paz que o país vivia graças ao regime político corporativo vigente.

- O povo português não está preparado para a democracia - diz o Chefe Chaves. - - Olhe, quem não está preparado é ele que não aprendeu nada para além do catecismo do Cerejeira - respondeu o Tito.

- Este país é uma vergonha. Uma igreja que vive à custa da política e uma política que vive à custa da Igreja Católica, dizia indignado o Tito para o chefe da polícia que só não o prendeu logo dada a amizade que tinha com o pai dele e porque também era menor; tinha apenas dezassete anos e naquela época a maioridade só se atingia aos 21 anos.

- Portugal é um país proscrito no concerto das nações, argumentava. Já não há país no mundo que tenha colónias e vem este sacristão dizer que Portugal é uno e indivisível desde o Minho até Timor. Está maluco! Parou no tempo, o que não admira, pois trata-se dum político que está a governar um império e nunca ultrapassou Badajoz, e ainda assim só para ver outro ditador como ele, pois, certamente não se afastava do país com medo que aparecesse algum Botelho Moniz que o pusesse a andar, como ele fazia aos seus opositores.


Custava ainda mais quando se via que uma boa parte dos nomes constantes dos cadernos eleitorais eram os próceres e acólitos do regime. A Oposição reprimida e apontada a dedo pelos caciques do regime, só à força de muita persuasão é que se recenseava. Requerer o recenseamento era um acto de coragem na autarcia salazarista.

Quando chegava às Marias aquela lista manuscrita com uma caligrafia hieroglífica nunca mais acabava. Mas não eram as mulheres do povo que estavam recenseadas. Eram sim as freiras e noviças que depois apareceram no acto eleitoral cumprindo piamente o seu dever de acordo com a vontade do capelão e da madre abadessa.

- Ó Tito, já viste que estes gajos não saem de cima de nós - segredava o Cardoso enquanto ia copiando mais uns nomes à vista de uns quantos legionários à paisana, entretanto reconhecidos, que não arredavam pé, não fosse desaparecer algum caderno eleitoral.

Custar-lhe-ia caro a ousadia anti-fascista: só anos mais tarde veria que nunca conseguiria o passaporte para a bolsa de estudos em Inglaterra que obtivera anos depois na Igreja Evangélica que frequentava. Como também nunca conseguiria trabalhar na Emissora Nacional nem na RTP.

Custar-lhe-ia também uma cicatriz na cabeça que uma discussão política com o pai lhe infligiu e quase o podia ter liquidado e ainda um 'carimbo' que o impediria mais tarde de entrar na comunicação social que a Pide nunca apagaria e que consta dos arquivos da Torre do Tombo...

Tal como disse o General no comício do Teatro Avenida, cheio como uma pinha, naquela noite quente de Junho/58, vigorosamente, ao mesmo tempo que mimicamente apontava para a anca direita: "o Salazarismo marca as pessoas como o ganadeiro marca as rezes com o ferro rubro da sua ganadaria. É esse o significado do 'S' nos cintos da Mocidade Portuguesa. Portugal merece uma vida melhor. Merece mais justiça social. Merece liberdade de pensamento e de reunião. Portugal não pode continuar a viver na idade média. É tempo de pôr em prática os princípios da revolução francesa e acabar com o ancien regime português do “Deus, Pátria Família”. Portugal não pode continuar a ser governado por um sacristão como se o país fosse uma paróquia. Queremos para o povo portugês: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Bater-nos-emos por isso até `a morte se necessário for.”

Durante o dia a multidão tinha-o acompanhado por quase toda a cidade acabando por parar junto à estátua do soldado desconhecido. Nunca se viu dia de maior alegria naquelas terra de Viriato. Um outro cabo de guerra trazia agora não a libertação da Lusitânia expulsando o dominador romano, mas a liberdade e a democracia para a Pátria oprimida, havia décadas.

Desde 1926 que o povo não sabia o que era liberdade. Muitos, ainda jovens, apenas tinham ouvido falar dela como tabu. Falar em liberdade era falar contra o regime instalado no poder. Muito menos em democracia se podia falar. Até a palavra “política” parecia património da União Nacional. O léxico da língua portuguesa estava amputado, sendo raros aqueles que ousavam utilizar termos ligados à liberdade.

A sociedade estava castrada tal como no tempo da Inquisição. Todos sabiam que qualquer pretexto poderia servir para os algozes encarcerarem um chefe de família.

Alguns comerciantes que não concordavam com o regime com receio de perseguições chegavam a enfeitar as montras com a fotografia do ditador. Um deles além da fotografia fez mesmo uma legenda em letra gótica chamando ao ditador grande estadista. Mas o apuro da caligrafia levou a desenhar mais uma letra e só horas depois, quando os democratas observavam aquelas manifestações de subserviência, é que repararam no erro que classificava bastante bem o ditador; em vez de estadista chamava-lhe estradista.

Ninguém conseguia falar com o vizinho sobre política sem o medo de ir engavetado sem saber porquê. A rádio estrangeira era ouvida com um copo de água em cima da telefonia para que os vizinhos não se apercebessem que alguém tentava ouvir a Rádio Moscovo, a Voz da liberdade ou apenas a BBC.

Todavia, durante toda a campanha, e especialmente naquele dia da visita do Candidato, as pessoas ganharam uma inesperada coragem, e mesmo sem se conhecerem, saíram à rua e gritaram:- Viva a Liberdade. Viva a Democracia. Viva o General sem Medo.

E acompanhando-o para todo o lado, não se cansavam de gritar bem alto aquelas palavras de ordem reprimidas durante tantos anos, e agora possíveis durante aquele período eleitoral. Sufocadas no imo mais recôndito da alma popular mais esclarecida e politizada.








M



Voltando ao nosso amigo Gil importa salientar que foi ele quem efectivamente ajudou, sem qualquer interesse pessoal, o Tito, talvez sensibilizado com a intervenção política do jovem que de motu proprio se envolveu de peito aberto contra um inimigo tão poderoso.

Resolveu pagar-lhe os estudos. Foi para o colégio. Pagava de propinas 300 escudos por mês, mas, parecendo pouco, por vezes o mecenas não sabia onde ir buscar o dinheiro. O que hoje não é mais que o preço de um maço de tabaco, era naquela altura um pequeno ordenado mensal o pagamento das propinas dum colégio, fundamentais para quem pretendia libertar-se de horizontes intelectuais fechados, e poder voar mais alto começando desde logo a abrir as azas que a cultura empresta à inteligência.

Por tudo isto era grande a simpatia pelo rapaz e, por isso, desdobrava-se no fim de cada mês para lhe arranjar os tais 300 escudos que na época eram três notas de banco, para pagar as aulas.

- Ó Tito, passe por cá amanhã que hoje não há verba - dizia-lhe o Gil com o semblante carregado por estar teso.

A tipografia do Gil era antiga. Os caracteres tipográficos já estavam gastos, danificados. Mas o trabalho tinha de aparecer feito. Imprimiam-se cartazes e no meio das letras apareciam falhas de impressão causadas pelo uso dos caracteres. O Gil não desistia, e preenchia as falhas com esferográfica... à mão, um a um, com uma paciência impaciente que até revoltava quem via...


O estudante também não fazia pequeno sacrifício. Incompreendido pelo pai que o maltratava, rapava fome de cão vadio e certo dia, no meio duma aula de História começou a sentir a visão a ficar-lhe turva, uma turbulência enorme nos ouvidos enquanto o professor fazia a sua brilhante prelecção e, ao ouvir falar do terror guilhotinesco do Robespierre durante a Revoluto Francesa da sua “LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE” caiu, redondo, no chão, sem sentidos, o que se explicava também por não poder ver sangue nem em imaginação.

Reanimado, abandonou a sala de aulas e foi para casa tentar comer qualquer coisa para poder regressar; talvez uma malga de sopa de cebola, refeição completa em tempo de crise...

Assim foram feitos os dois primeiros anos do Liceu; com sangue, suor e lágrimas, como diria o célebre político inglês Winston Churchill, aquele que teve de fugir dos boers por usar pistola.

Quando se ouvia a propaganda da Emissora Nacional - na altura decorriam ainda em Lisboa os primeiros ensaios da televisão - parecia que tudo corria sobre rodas, mas a realidade era bem diferente. Os locutores não eram mais que a voz-do-dono, verdadeiros papagaios psitacistas; eram bons propagandistas do Regime. Como poderiam aceitar o 25 de Abril que lhes tirava os privilégios e a companhia dos padrinhos? Lá no Viso havia pelo menos duas classes; a dos ricos e a dos pobres. Os ricos falavam muito bem aos pobres. Iam à missa todos os domingos e portanto era de bom tom ser cortês com os pobres, os desprotegidos.

Era a terra do 'botas'. Volta meia volta o senhor doutor aparecia por lá e até‚ o leiteiro ficava a saber. A medida do leite vendido lá para casa aumentava. Ficava em casa do manda chuva a matar saudades do seu tempo de estudante e Prefeito no Colégio do Fontelo, bem como da casa no Largo Pintor Gata onde estivera hospedado para fazer a 4ª. classe.

O ambiente era suástico. Os legionários (pais e avós da mocidade portuguesa) todos os domingos passavam fardados e perfilados para a Sé - iam à missa!

"Quem não é por nós é contra nós" - proclamava-se por todo o lado.

Os tribunais plenários resolviam os problemas dos oposicionistas mais notórios na sociedade. Os outros eram eliminados e desapareciam.

Na década de cinquenta Portugal não passava de um Estado confessional. A simbiose então existente entre a Igreja Católica e o poder político fomentava um Regime saprófito de benefícios recíprocos.

Apenas era eleitor quem o Regime consentia, passando pelo crivo da União Nacional (partido político único do regime) que fazia registar nos cadernos eleitorais apenas os próceres do regime.

As mesas de voto eram constituídas por elementos afectos ao salazarismo. Os cadernos eleitorais estavam eivados de erros de toda a ordem, registando eleitores vivos com eleitores já falecidos, cuja baixa não era efectuada.

O regime salazarista aproveitava todas as anomalias a seu favor, incluindo o facto de, qualquer cidadão, poder votar em várias mesas desde que inspirasse confiança para o efeito, como acontecia com os legionários, padres, freiras, etc. .

Assim, até os mortos votavam, desde que alguém da confiança do regime se apresentasse para votar em seu nome.

Qualquer candidato que não pertencesse à União Nacional era um inimigo da pátria, um pária, comunista e maçónico - termo que naquele período produzia um impacto extraordinariamente negativo junto do povo - que, para além do seu supersticioso catolicismo, pouco mais conhecia.

Porém, outra dificuldade se levantava aos democratas que se apresentavam às eleições. Com efeito, os cadernos eleitorais encontravam-se em poder do Regime que não os facultava à Oposição para que esta não pudesse controlar as irregularidades do acto eleitoral.

Os cadernos eleitorais encontravam-se em poder dos Governos Civis que, como se disse acima, se negavam a fornecer qualquer cópia à Oposição Democrática.

Durante alguns dias a tarefa atribuída a alguns democratas foi a de transcrever os nomes constantes nos cadernos eleitorais, a fim de propiciar afinal um hipotético controlo do acto eleitoral.

Este desiderato nunca seria alcançado. O Regime colocou ao lado dos democratas alguns filiados da União Nacional e afins, que, alegando também necessitarem de cadernos eleitorais para os seus serviços, dificultavam, tanto quanto podiam, que os referidos cadernos fossem manuseados pelos democratas.

É evidente que, ao fim de alguns dias de trabalho, de pé, junto a um balcão do Governo Civil que não era mais que uma extensão da Pide, poucas páginas haviam copiado em termos de possibilitar um controlo minimamente efectivo do acto eleitoral.

Não obstante, o entusiasmo popular era enorme. Embora muitos cidadãos, por medo, não se manifestassem abertamente, sentia-se o pulsar dum povo que, havia décadas, se encontrava amordaçado pela censura, agrilhoado pela Pide e desmotivado por uma Igreja cuja hierarquia, salvo honrosas excepções, estava bem instalada junto do poder político e económico.

Quem teve o prazer de ouvir directamente os discursos do General Humberto Delgado apercebeu-se de imediato estar na presença de um Homem com formação completamente diferente dos acólitos salazaristas. Mesmo quem não conhecesse o percurso do candidato da Oposição, facilmente constatava estar na presença de alguém que tinha visto outros mundos, com outra visão da vida, da sociedade e da política.

Os contactos do General Sem Medo com a democracia reinante no novo mundo haveriam de ser fatais para o regime político, pois a revolução dos cravos surgida dezasseis anos mais tarde não deixou de estar inspirada nesse período heróico anterior. Os Capitães de Abril.74 tinham vivido, ainda que indirectamente, a corajosa epopeia de 58.

O seu estilo era inconfundível; pela coerência, pela dignidade, pelo desassombro e pela coragem. Só assim se pode compreender que quem estava bem instalado na sociedade castrense do regime tenha ousado lutar contra o mesmo, pondo em causa todo o seu bem estar por amor genuíno ao seu povo oprimido, havia já três décadas.

Os que mais tarde o vieram criticar não terá sido por outra razão senão a que advém da pusilanimidade e do comodismo, pois não era sem um pouco de espirito temerário que se fazia frente a um governo de gerontes maus, bem instalados no aparelho de Estado.

Naquela noite, em meados de Maio.58, no Cine-Teatro Avenida, as paredes parecia virem abaixo com o entusiasmo daqueles que tiveram o prazer de ouvir o eloquente discurso do General Humberto Delgado.

Passados tantos anos parece ainda ouvir-se as vibrações daquele edifício, nomeadamente durante o discurso do nosso candidato contra a ditadura. Em nenhum outro comício político - e muitos foram aqueles a que o Tito assistiu - antes e depois do 25.Abril, verificou tão entusiástica manifestação de fervor político.

Além de brilhante militar - o mais novo General da sua geração - o General Humberto Delgado era um orador duma eloquência ímpar; falando de improviso, o seu discurso caracterizava-se por uma autenticidade contagiante para todos os que o ouviam.

Não aconteceram por acaso as manifestações populares por todo o país que culminariam com as impressionantes manifestações da Avenida dos Aliados no Porto em 15.05.58.

O General Sem Medo, pese embora as inúmeras burlas da União Nacional, ganhou incontestavelmente as eleições. O Ditador apanhou o maior susto de toda a sua vida.

Durante o período eleitoral, e depois deste, as perseguições aos democratas foram uma constante. No caso do Tito viu apenas o domicílio violado e todos os papéis e móveis revolvidos. Mas, para outros, com maiores responsabilidades no processo adivinhava-se que o regime haveria de desencadear uma perseguição bem mais feroz.

O que aconteceu em Villanueva del Fresno era de algum modo previsível porque o Regime nunca tinha conseguido digerir tão estrondosa derrota política. Portugal estava lançado ao ostracismo internacional dada a política ditatorial e colonialista que prosseguia.

A Pide era um estado dentro doutro estado, mais papista que o papa, sedenta de mostrar serviço. O Ditador, tão beato, não revelava quaisquer escrúpulos em eliminar todos aqueles que se lhe opusessem e, para isso, lançava mão de vários métodos, conforme os opositores e as circunstâncias.

O modo execrável como foi perpetrado o homicídio do General Humberto Delgado é a todos os títulos abominável pois, assassinado num país estrangeiro para que o crime não fosse atribuído à Pide por exclusão de área e competência territorial, estaria assim ilibado o Ditador português alijando para Espanha e para a Oposição Portuguesa a responsabilidade do crime. Forjou um alibi quase perfeito não fora a verdade ser como o azeite...

Contudo, a esperança cimentada pelo sacrifício do General Humberto Delgado foi o alicerce do edifício construído à Liberdade e à Democracia em 25.Abril.74 - o dia mais feliz do Tito, como ele afirmava em todo o lado.

Sendo certo que os Capitães arriscaram muito caso houvesse um fracasso, o que seria muito difícil a menos que no teatro das operações alguns cobardes abandonassem os objectivos, o General Humberto Delgado, de algum modo, agiu sozinho, de peito aberto, e por isso se tornou tão vulnerável.

Mas, cá se fazem cá se pagam, diz o povo, e uma simples cadeira de lona que a forretice salazarista não substituiu a tempo, veio acelerar o processo de democratização do país para felicidade de todo o povo português.








N


Outros, contudo, como o Zuzarte na expectativa dum emprego melhor, também se deixou aliciar pela Legião mas por pouco tempo. Fartou-se depressa quando viu o servilismo que por lá reinava. Queria sair e não podia, não o deixavam. Lembrou-se então de pintar numa parede em frente à casa onde nasceu o Rei Eloquente uma foice e um martelo, e, então foi logo expulso. Foi fácil. Desculpou-se dizendo que estava bêbado, não sabia o que fazia e como era simpático e pagava uns copos à malta toda, na tasca do Zé-Maria, onde sempre paravam bastantes polícias, safou-se!

Quem não se safou foi o pobre do Zé-Maria cuja memória sempre o perseguiu durante toda a vida. O Zuzarte era solteiro e não saía da tasca. O Zé não tinha filhos e em todos os casais há problemas. A rotina do casamento cansa, os princípios afrouxam, amolecem, e o vício, com o calor do verão, onde os estios são prolongados, às vezes dão para o azar...


A Ana, vestida de preto, ainda ficava mais elegante. A sua pele ebúrnea e aveludada ficava ainda mais atraente naquele decote que deixava adivinhar óptima guloseima. Morena, de olhos negros, brilhantes, toda ela aciganada com uma ponta de malícia em quase tudo que dizia, provocava um corrupio lá na tasca. Era só homens. Ela e os seus petiscos faziam crescer água na boca, pois o aroma atraía os fregueses ainda na rua. Comia-se mesmo sem fome, e depois, aquele palhete puro, fresquinho, a borbulhar no meio do copo, acompanhado por boas azeitonas e broa ainda quente, servida pela Anita, era um convite constante, nomeadamente para os mulherengos.

Os fregueses, matreiros, pediam sempre o vinho para a mesa. Aí a Ana baixava-se para pôr a travessa e distribuir os copos. Viam-se então os dois rechonchudos seios que se adivinhavam rijos e quentes bem aureolados, oscilantes, de bicos espetados; nunca tinham amamentado e, pelos vistos, não tinham sido muito apalpados.

Freguês de longa data o Zuzarte dava-se ao luxo de a tratar por Anita e outras vezes por Aninhas conforme lhe parecia mais íntimo. Mal se aproximava começava a sentir-se febril. Um suor fino perpassava-lhe a espinha de alto a baixo.

A garganta ficava seca e quando ia para começar a falar as palavras saiam-lhe truncadas e em falsete. Depois passava a um tom mais calmo e quente de quem quer dizer qualquer coisa mas não consegue, e espera que os outros adivinhem, o que aliás não era difícil. Nunca o seu falar se tornara tão redondo e aveludado.

A paixão cegava-o. Tinha dias que não conseguia largar a tasca. Qualquer freguês seu era pretexto para ir até lá beber mais um copo e dar uma olhadela ternurenta à Aninhas.

Para o Zé, ele era um bom freguês, mas para a Anita, o Zuzarte era muito mais que isso. Quando o via parecia que nem punha os pés no chão. Pairava no andar etéreo da sua formosura, ondulando na cadência dos seus lindos cabelos cor de azeviche.

Ao princípio ainda ela olhava com ar mais sério, mas depois limitava-se a olhar para o balcão para ver se o Zé se estava a aperceber daquela consentida familiaridade.

- Se não fosse casada... - dizia-lhe o Zuzarte em tom meloso e quente - ainda me havia de fazer quebrar o voto do seminário! Há dias em que até me falta o ar. Esse sinalzito na cara há-de ser a minha perdição...

Nos milhões de cópulas diárias qual será a percentagem das adulterinas? Talvez a evolução da Sida possa dar uma ideia do desastre.

Embora muitos tenham já sido atingidos por simples transfusões sanguíneas que os governos irresponsavelmente têm ocultado promovendo os responsáveis, a verdade é que há já cerca de 17 milhões de seropositivos e no ano 2000 teremos cerca de 30 milhões ou seja; um país como Espanha ou Itália.

Mas, entretanto, o Zé ia pelas aldeias comprar o vinho directamente ao lavrador. Por vezes regressava tarde; de bicicleta, a pedalar pela curva da ferradura acima, eram quilómetros de terra batida, mau piso tipo picada cheia de buracos.

Nas adegas não se podia sair sem beber, e quando se visitava um lavrador era forçoso ter de visitar os outros todos, senão ficavam zangados.

Naquele dia já estava 'quente' com um grão na asa e de bicicleta para casa só mais para a noite. Já estava jantado e melhor bebido. Quando chegasse, chegava... A Anita fechava a porta e ia para casa. Já estava habituada a aturar sozinha aquela cambada de bêbados. Ela lá se amanhava. Quando os apanhava entornados esquecia-se de lhes dar o troco. Tinha dias de ganhar uns contos de reis em trocos.

O Zuzarte pressentia que a presa estava quase dominada. Às vezes vinha para a mesa dele e sentava-se num estilo de amistosa recepção ao cliente. Já tinha sentido a coxa quente da Ana mesmo a seu lado e quando as pernas se tocavam debaixo da mesa ela deixava estar, provocando-o ainda mais com aquele rir trocista em que os olhos brilhantes, doces e meigos mais pareciam dois faróis a iluminar um barco descomandado que se aproxima sem rumo e pronto a encalhar em qualquer sítio.

Há mulheres que nasceram para provocar. Casam-se para ficarem arrumadas porque é de bom tom não ficar para tia, mas nunca serão de um homem só. A ocasião é que nem sempre se proporciona, senão havia muitos mais 'ladrões' rondando o alheio.

O Zé já tinha desconfiado do freguês. O Zuzarte, serralheiro de profissão, tinha a oficina a 50 metros. Andava sempre cá e lá. Tudo servia de pretexto para ir à tasca beber mais um copinho e dar dois dedos de conversa.

Certo dia o Zé reparou que ao pagar, o Zuzarte estendeu o braço com as moedas deixando ficar a mão por cima da mão da sua Anita.

- Um dia ainda arranjas uma desgraça, não tens vergonha nenhuma nem por onde ela passe, fez notar o Zé à mulher lembrando-se da bicha de galanteadores que já durante o namoro bem se aproveitaram enquanto ele esteve na tropa e, depois, durante a guerra colonial enquanto comia o pó angolano do Maxico.

Certo dia chegou à terra mais cedo. Pediu uma dispensa no quartel e logo que chegou foi a casa dos pais dela. Ao abrir a aldraba do portão viu logo ao fundo do quintal o Nando, que se gabava de não haver lá na terra nenhum rapaz mais bonito do que ele, e por isso dançava com todas as raparigas nos bailes do orfeão.

Lá estava ela derretida de falinhas com o mulherengo que já tinha deixado uma de barriga, abandonada lá para Lisboa onde tinha estado a fazer que estudava Direito, mas sem nunca ter conseguido passar do 2º. Ano, alegando que os Direitos Reais eram impossíveis de tragar para um republicano como ele...

A ignorância da família por vezes até lhe dava razão. Realmente, dizia desculpando-o, a mãe; direitos reais numa república como a nossa; parece impossível!... Era certo que o Salazar tinha fama de ser monárquico, mas obrigar os outros a estudar direitos reais além de ser uma violência era uma perfeita estupidez e inutilidade.
Assim se explicava por que é que as ruas estavam cheias de nomes monárquicos:
Conde de Almoster, Duque d'Avila, Duque de Palmela, Marquês de Pombal,etc.


- Ó Zé!... Parece impossível! Que ciumeira mais estúpida - retorquiu-lhe.

Numa fria manhã de inverno, ainda cedo, à porta do Zé, estava muita malta cochichando e com ar compungido, cabisbaixo. O Zé estava dependurado numa trave da adega. As razões eram mais ou menos óbvias. Não tinha filhos. Não tinha dívidas. Não lhe eram conhecidas doenças graves...Só podia ser uxorfobia. Uns matam, outros matam-se.... Os suicidas pensam que por essa via castigam mais o adversário...que afinal se fica a rir!

A polícia foi chamada. Ao entrar o Chefe Paiva ficou hirto com medo do espectáculo. Os olhos abertos virados para o teto. A língua projectada para a frente fora da boca e as calças ainda húmidas do orgasmos fatídico não era coisa que agradasse nem ao coveiro, para quem não há segredos sobre a fealdade humana.

Veio o delegado de saúde para tomar conta da ocorrência. Chegou à adega e certificou-se que ninguém o tinha pendurado. Foi ele mesmo, de motu proprio escreveu no relatório. Não havia qualquer indício de simulação ou violência de terceiros. O exame tanatológico confirmou o suicídio.

O médico, delegado de saúde, pediu o cutelo da cozinha com que a Aninhas cortava as bifanas para os clientes e também para separar as peças de carne maiores.

Virou-se para o Chefe da Policia, o Chefe Paiva e ordenou-lhe com voz imperativa: - segure aí o homem...

O Paiva ficou transido de medo. Colocou-se por trás do enforcado e levantou os braços que tremiam de susto.

O médico legista, o doutor Marcelo, levantou o cutelo e desferiu um golpe na corda batendo contra a trave. O corpo caiu para cima do polícia que quase desmaiou, apavorado com um embrulho de oitenta quilos ao colo que, ainda na véspera lhe tinha estado a servir uns copos e umas rodelas de chouriço assado.

- Ó homem, como é que você conseguiu entrar p'rá polícia? Que grande cagarolas. Eu não o queria nem para recepcionista do meu consultório - observou ridicularizando o amachucado polícia ultrajado no brio da corporação que representava, naquele instante ofendida e humilhada na sua pessoa; logo ele que era considerado durão dentro da esquadra.







O


Tudo tinha censura. O teatro, o cinema acrítico ou apologético do regime, a imprensa encomiástica, a radiodifusão, com o seu nacional cançonetismo, etc. etc.

Não era por acaso que a Emissora Nacional estava na Rua do Quelhas junto ao Palácio de S. Bento. Só a presença do Botas era suficiente para manter o respeitinho! Por outro lado o temor reverencial era imenso. O senhor professor doutor era um caso singular da academia coimbrã.

Notas elevadíssimas, filho dum lavrador, por pouco tinha recebido ordens religiosas. Tinha todos os ingredientes para inspirar confiança, pois até tinha casado com a Pátria como diziam os seus acólitos nos comícios da União Nacional.

Era a santa paz dos cemitérios, como dizia o General Sem Medo!

Qualquer ditador, desde Staline ao Hitler, tem sempre muitos seguidores. Seguidores das ideias porque são como eles. Seguidores do poder que pretendem repartido por si. Ou estão no caminho ou astuciosamente se colocaram na ribalta com esse objectivo pois as ditaduras sabem mostrar a cenoura para que o burro não pare de ter ilusões...

É a antítese do dever ser. Quando não podes com o inimigo junta-te a ele, faz-te amigo dele. Em vez de perderes tudo, alguma coisa podes ganhar.

É o raciocínio pragmático e as pessoas são muito mais realistas que idealistas. Idealistas são os parvos... A própria sociedade que gosta mais do poder que da justiça está sempre desse lado. Do lado errado do progresso social, mas do lado que dá vantagens, tranquilidade, desafogo económico, bem-estar, comodidade, etc.

O revolucionário é o lunático e para melhor tranquilizar a consciência desde logo se afirma que o que o revolucionário pretende é o poder do adversário, portanto, nada vale, é um simples interesseiro sedento de poder. É um farsante que se escuda atrás de verdadeiros valores; apenas tenta arrebanhar os incautos para lhe abrirem as veredas da fortuna e do poder.

O povo, no fundo, desconfia de tudo e de todos e não lhe faltam razões para isso... De facto é difícil separar o trigo do joio. Aí é que está a dificuldade, mas, apesar de tudo, não justifica o reaccionarismo impeditivo do progresso tantas vezes revelado.

É evidente que todas as pessoas têm defeitos e o poder tende a acentuá-los; como também evidencia qualidades que estariam apagadas. Mas, isso não justifica a toada negativista e aviltante promovida por aqueles que na poltrona do seu bem estar nada mais fazem do que bocejar e untar o umbigo com as vantagens alcançadas por aqueles que tantas vezes se sacrificaram e arriscaram tudo, ou quase tudo.


'Hipócrita' significa em grego, cara com máscara. Era o que tínhamos. Uma sociedade hipócrita, cínica, servil, medíocre, resignada na sua triste sorte, chafurdando numa apagada e vil tristeza na terminologia camoniana.

A ditadura servia-se da Igreja Católica e esta vivia parasitariamente à sombra da ditadura. Era o pacto Salazar-Cerejeira que já vinha de Coimbra. No fundo eram dois cardeais. Um religioso outro laico. Um, gestor da herança inquisitorial do Palácio dos Estaus; outro, gestor da Pide. Ambos matavam, aniquilavam, estrangulavam, cerceavam a vida de milhões que tinham de ir "a salto" governar a vida para qualquer lado, pois passaportes só havia para os apaniguados.
Um matava a alma, outro matava o corpo. Ambos tentavam sufocar o espírito...

Tudo isto em nome da ordem, da corporação, da inexistência da luta de classes.

Todos trabalhavam em pé de igualdade para o bem comum: a bem da nação... da nação plutocrática de dezasseis famílias ricas, pois o estatuto do trabalho nacional não permitia que o capital, em caso de conflito, ficasse prejudicado em relação ao trabalho.

Esta nefasta influência ainda hoje se verifica. O poder litúrgico é enorme. O Homem sabe que não encontra resposta para as suas inquietações espirituais e anímicas. O medo do além é notório. Ninguém sabe donde vem nem para onde vai. A incógnita é aterradora para quem não tem quaisquer valores que lhe sirvam de lastro vivencial.

Na dúvida o Homem agarra-se ao mistério, ao sobrenatural, ao místico. Há milhentas religiões certamente com uma mesma origem: o medo. Mas, o Homem não se preocupa com isso. O que importa é que eu tenha um deus. O meu deus. Aquele a quem me possa agarrar nas horas de aflição. Quando alguém pretende provar a existência de Deus agarra-se a uma qualquer coincidência e está provado.

A Bíblia diz que nem Adão chegou a ver Deus. Mas, há neste mundo imensa gente que afirma já o ter visto. Até um corredor automobilista, lider duma actividade tão fútil e ostentatória da opulência num mundo cheio de carências, diz tê-Lo visto numa corria em que saiu vencedor à média de 300 quilómetros horários.

A pequenez do homem, a incapacidade, a fragilidade, a impotência levam o homem a adorar o deus da sua imaginação, e, certamente, cada pessoa tem o seu à sua imagem e semelhança. O ideal da perfeição leva o homem a imaginar arquétipos divinos que sirvam, a cada momento, de S.O.S., no meio da parafernália da vida terrena tão pobre e tão injusta para a maioria dos seres viventes.

Que diria o Eça a isto, naquele seu famoso texto dedicado aos trabalhadores; aos que o calçavam, aos que o vestiam, aos que lhe permitiam aquela qualidade de vida ... Um espanto! O crime organizado à sombra dos princípios cristãos, que de Cristo não têm nada. As ideias mais puras subvertidas ao mais elevado grau. Certamente por isso tanto falavam da subversão. Para os padrões então vigentes, quem pedida pão era no mínimo revolucionário e comunista.

Afinal onde parava a famosa democracia orgânica tão apregoada?
O clero estava sempre ao lado dos ricos e poderosos desconhecendo os pobres.
Os protestantes não tinham direito a sepultura, sendo por vezes necessária a intervenção das autoridades para serem sepultados nos cemitérios comuns.

A marginalização causada por motivos religiosos era uma constante e nem o Bispo Alves Martins que fora condenado pelos miguelistas a morrer fuzilado no largo de Santa Cristina em Viseu por se insurgir contra as bulas papais, conseguia fazer luz naquelas mentes.

"Na minha diocese quero padres para amar a Deus na pessoa do próximo e não Jesuítas para explorar o próximo em nome de Deus"; e acrescentava: "A religião deve ser como o sal na comida, nem muito nem pouco, só o preciso."

O influxo da 1ª. República estava amortalhado. O salazarismo não suportava atitudes liberais.
- O melhor, diziam, era tirar a estátua, pois as lápides incomodavam. Eram muitas coincidências. Até o Aquilino esteve preso no Fontelo tal como o Bispo Alves Martins. Os subversivos sucedem-se uns aos outros; parece que deixam rasto, semente. Proliferam por todo o lado como cogumelos.

Mais tarde o poeta diria que "não há machado que corte a raiz ao pensamento..."

Mas, na realidade as ideias pagam-se por vezes muito caro. É de todos os tempos. A História tem grandes exemplos; desde Jesus Cristo até Tomas More passando por Galileu Galilei, Damião de Gois, Salvador Allende e tantos e tantos outros como em Tienamen...São aqueles que cimentam com o seu próprio sangue o edifício da Liberdade que entregam aos vindouros sem que alguma vez o venham a habitar.

Neste torrão lusitano são exemplos paradigmáticos desta realidade, entre tantos outros: Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Jaime Cortesão, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Bento de Jesus Caraça e tantos milhares de antifascistas que não chegaram a ver o raiar da aurora da Liberdade e nunca serão lembrados nas condecorações do Dia de Portugal.

Pois também o Tito passou pelo fio da prepotência várias vezes e, uma delas, foi na escola comercial para onde foi estudar à noite, pois que durante o dia tinha de ganhar o pão que o diabo amassou.

Havia aulas logo de manhã, pelas 8 horas. Depois à noite era o serão todo.

Quem trabalhava tinha assim o dia todo para o patrão; e, em regime ante e pós laboral, os estudos secundários da Escola Comercial.

Era a escola dos pobres. Os ricos iam para o Liceu que dava acesso directo à Universidade. Os pobres ficavam pela Escola Comercial e Industrial que depois daria acesso ao Instituto Comercial ou Industrial donde saíam contabilistas ou técnicos para a ferrugem. Muito dificilmente alguém conseguia chegar à Faculdade para se licenciar em Económicas ou em Engenharia.

A escola estava instalada num vetusto edifício em granito, brasonado. Já lá tinha sido rodado uma parte dum filme camiliano; "O amor de perdição". Muito perto do reduto onde Viriato se havia instalado muitos séculos antes à espera dos Romanos que haveria de ajudar a expulsar.

Certo dia, logo de manhã, pouco passava das 8 horas a campainha da escola tocava para o início das aulas. Naquele dia a aula era de Religião e Moral. O professor era o Padre Fino, mais tarde promovido a Cónego apesar de, já velho, ter desflorado, na sacristia, uma menina de tenra idade.

Inevitavelmente o celibato católico, criado a partir do Concilio de Trento, leva a estas aberrações. É uma religião castradora. Não deixa de ser estranho tal prática, pois o putativo fundador da Igreja Católica, o Apóstolo Pedro era casado - Jesus foi chamado a curar a sua sogra - o que seria uma boa razão para lhe seguirem o exemplo.

Não conseguem seguir exemplos neotestamentários tão fáceis de pôr em prática. Nem este nem o que diz respeito a Jesus que foi baptizado no rio Jordão quando tinha 30 anos. Um bom exemplo para que a humanidade pudesse ver que uma decisão desta importância é para adultos, e não para bebés indefesos e sem consciência do que os rodeia.

Também aqui a Igreja Católica faz prosélitos como a União Nacional os fabricava através da Mocidade Portuguesa. Está tudo ao nível do futebol. Alguns ainda os filhos não nasceram já são sócios de clubes de futebol. Não têm escolha possível.

O exemplo foi dado por Cristo ao percorrer cerca de cem quilómetros desde a Galileia até à foz do rio Jordão e deixar-se baptizar por João Baptista (o que baptizava), seu precursor. Felizmente não havia Igreja Católica quando Jesus nasceu senão também ia à pia da água benta logo ao nascer. Nem lhe davam a hipótese de ser cristão....

Depois, aproveitavam as crianças cujos pais não tinham recursos e sempre era menos uma boca a alimentar, numa prole sempre aumentada pela falta de preservativos, por eles proibidos. Levam as crianças para um seminário e fazem-lhes a lavagem ao cérebro, de tal maneira que poucos conseguem libertar-se, como fez o Botas.

Naquela região muitos eram os padres católicos que tinham sobrinhas ou primas a tomar-lhes conta das casas, muitas delas com bastantes filhos, cautelosamente chamados de afilhados do senhor prior e que muitas vezes eram a cara do próprio.

Os Paços do Concelho exibem um retrato a óleo ao cimo da escadaria dum orador sagrado, cónego, da localidade cuja prole é já numerosa com netos, bisnetos e tetranetos.

Os paroquianos bem sabiam o que se escondia atrás de tal esquema, mas, tão beatos e tão amorfos na sua crítica à hipocrisia, poucos eram aqueles capazes de tentar alterar o status quo. Assim se explica que tenham suportado uma ditadura durante 50 anos que mais durara, não fora a cadeira de lona ter partido no Forte de S. Julião da Barra.



P

- O mundo, meus senhores, foi criado há seis mil anos - asseverava o Padre Fino atrás da longa secretária de madeira já cheia de caruncho colocada em cima dum estrado quase da largura da sala.

- Milhões, Sr. Padre Fino, replica o Tito de forma seca e categórica lá do fundo da sala.

Aqui, o bom do padre Fino, pequenino, magro, careca, com cara de jesuíta e óculos de aros metálicos aramados a cair na ponta do nariz começou a olhar por cima das lentes para o fundo da sala donde vinha aquela voz firme e irreverente, e para ele insuportável de insolência mas que não deixava de ser verdadeira mesmo para ele que pouco mais via do que o seu catecismo.

Após uma certa pausa e com cara de poucos amigos o padre Fino repetiu pausadamente:

- Meus senhores. Como ia dizendo o mundo foi criado há seis mil anos.

- Milhões - repetiu o Tito, como se fosse um professor a falar para um aluno burro que não aprende uma lição tão elementar apesar de ter apenas catorze anos de idade e poucos livros ter lido ainda.

O padre não hesitou e, levantando-se, como se impelido por uma mola helicoidal, em tom marcial, bruscamente, ordenou:

- Ponha-se na rua, imediatamente, seu insolente, seu malcriado - vociferou o Padre Fino gritando e quase espumando de raiva com vontade de correr o Tito literalmente a pontapé, de tal maneira se sentia exautorado perante a classe.

O Tito levantou-se de pronto. Pegou nos livros e dirigiu-se para a porta da sala onde o padre já se encontrava segurando agitadamente o puxador com a mão, abrindo-lha para manifestar toda a autoridade do seu poder docente e clerical, numa terra comparável à cidade dos arcebispos na influência sacerdotal.

O Tito assomou de pronto junto à porta e, nervoso e revoltado, virando-se para o padre e para os colegas que enchiam a sala de aulas, afirmou em tom de vitória orgulhosamente alcançada:

- Eu vou para a rua; mas pode ter a certeza que o mundo foi criado há milhões de anos!...

E saiu para não mais voltar a tal tipo de aulas retrógradas e obsoletas.

O pobre do padre Fino teria estudado, se é que estudou, o que não é nada provável, o Pentateuco (os 5 primeiros livros do Velho Testamento escritos pelo profeta Moisés) mas o que é mais provável é que aquele conhecimento lhe adviesse dalgum catecismo serôdio do seminário católico, pois naquela época a Igreja Católica proibia ou dificultava a leitura da Bíblia aos leigos, alegando que se tratava dum livro difícil de entender e susceptível de criar confusões, as quais como se vê começavam logo no próprio clero.

Só a partir do pontificado lúcido do Papa João XXIII - Concilio Vaticano II - é que algumas mentalidades católicas se foram abrindo a este e muitos outros temas muito antes ainda de terem aparecido as novas correntes teológicas lideradas pelo Padre Leonardo Boff.

Para eles o raciocínio era fácil. O Cristianismo tem dois mil anos. O Velho testamento com inicio na dispensação abraamica tem mais quatro mil: portanto o total são seis mil anos. Era este o raciocínio clerical português dos anos cinquenta.

Raciocino tão fácil como condenar o Galileu Galilei por afirmar que o sol não podia parar, porque parado estava ele. O que se movia e move é a Terra.

Ora se a Bíblia diz que Josué‚ fez parar o Sol e a Lua quem poderia vir afirmar o contrário; a menos que se oferecesse em holocausto para a fogueira inquisitorial?...

E o raciocino é tão lento que foram precisos mais de quatrocentos anos para reconhecerem o erro após o que levantaram a excomunhão ao cientista.

Tão lentos a reconhecerem os erros e tão céleres a impedirem que as populações se previnam contra as doenças venéreas transmitidas pela via sexual e também contra a sida.

A sociedade em que vivemos chama constantemente para debates sobre problemas familiares quem é solteiro, não tem filhos e usa e abusa das mulheres dos outros, como a literatura refere amiúde e os paroquianos bem sabem por essas aldeias fora.

É de tanto saberem que cada vez há mais sacerdotes católicos a morrerem com sida, pois os seminários e lugares quejandos são um alfobre de homossexualidade e de pedofilia que tem custado ao Vaticano muitos milhões de dólares de indemnizações.

O salazarismo tinha algumas válvulas de escape para certas situações. Para não chumbar por faltas só havia uma saída: a dispensa ministerial para deixar de assistir à disciplina de Religião e Moral.

Foi a solução encontrada num estado que, naquela altura, era quase confessional, onde qualquer outra denominação religiosa era um estigma de personna non grata numa terra cujo espírito feudal era latente.

A Igreja protestante lá da terra chegou mesmo a ser cercada pela população numa atitude de expulsão dos seus fiéis. Os "bíblias" era a alcunha que lhes punham por irem para a igreja com a Bíblia debaixo do braço, numa época em que a igreja católica afirmava que os seus fiéis não a deveriam ler para não fazerem confusões de natureza religiosa, razão pela qual até a missa era dita em latim.

Nesse cerco o pastor da igreja lembrou-se que o edifício tinha sido comprado pelos seus irmãos na fé, americanos, como forma de solidariedade, pois os portugueses nem o sustento do pastor conseguiam pagar, tão poucos e tão pobres eram.

Lembrou-se que na inauguração tinha estado içada a bandeira norte-americana ao lado da portuguesa na varanda do último andar e, perante a ameaça foi buscar a bandeira e içou-a no mastro, desfraldada ao vento.

Dali mesmo, e pela única vez, fez da varanda o púlpito, e pregou para quem se encontrava na rua afirmando que as autoridades estavam a criar um grave incidente político com o Governo Norte-Americano, proprietário daquele edifício.

O espectáculo parecia um prenúncio da confrontação das tropas junto ao muro de Berlim, anos mais tarde.

As autoridades policiais ao ouvirem tão inesperado discurso, recearam. A Pide mandara dispersar. O populacho foi abandonando o local ao mesmo tempo que ameaçavam proceder a uma outra surtida insultando e chamando aos evangélicos: maçónicos, maçónicos, hão-de pagá-las...filhos duma marrã!.



Q

Era um dia escaldante de Julho no primeiro ano da inolvidável década de 60.

O Liceu Camões estava quase deserto. A maior parte dos alunos já tinham ido de férias. Já estariam na praia ou no campo a gozar os merecidos dias de tréguas com alguns dos professores que mais pareciam déspotas do ensino do que mestres.

Estavam apenas alguns que se apresentaram voluntariamente a exame, já maduros; estudavam durante a noite, e trabalhavam de dia como o Tito.

Os exames não eram nada fáceis tanto em Latim, como em Alemão e Literatura.

Era a alínea e) do antigo regime de ensino que permitia o acesso à admissão à Faculdade de Direito. O Tito desde miúdo ainda agarrado à forja do pai já sonhava ser advogado. Não queria ser Juiz. Não nascera para julgar os outros. Não julgueis para que não sejais julgados, dizia-lhe o Mestre ao ouvido todos os dias antes de se reconciliar com o sono que só chegava a altas horas.

Advogado, sim, para auxiliar os fracos e os oprimidos, os trabalhadores explorados, escravizados de sol a sol em árduo trabalho mal pago e tantas vezes com salários em atraso, vivendo de fiados concedidos pela mercearia do bairro.

Lembrava-se do Zenha, do Soares, do Cunha Leal, do seu professor Ribas de Sousa e tantos outros da Campanha do General, que sempre estiveram ao lado dos oprimidos, e queria ser como eles na luta pela justiça social que a Oposição Democrática e o Profeta Amós lhe inspirara na Escola Bíblica Dominical da Igreja que o inspirara a contestar o padre Fino.

Ai de vós que viveis à custa do salário dos trabalhadores a quem defraudais nos seus direitos..., lembrava-se ele amiúde.

No Seminário que frequentara ad hoc como hóspede, tinha tido contactos com teses teológicas diversas que abarcavam inúmeros temas.

Fez o exame de literatura mas teve de ir à oral. Na oral apareceu-lhe a velha fera do Liceu Camões. O Vergalho.

Começou por perguntar ao Tito se tinha lido a Castro. Que não. Conhecia bem a história da Inês de Castro mas não tinha lido a obra, apenas uns excertos.

- O senhor parece que não leu nada de jeito - disse-lhe o examinador - mal começara a oral.

- Leu a Morgadinha dos Canaviais, perguntou do cimo da cátedra da sua sabedoria em tom sobranceiro, o Vergalho. O Tito respondeu de imediato: - Li sim senhor, e até me lembro que foi durante uma noite inteira; de fio a pavio. Não consegui dormir com o entusiasmo causado pela narrativa ínsita no livro

- Então diga-me lá o que é que aconteceu ao Henrique de Souselas? – perguntou o Vergalho em tom ríspido.

- Não me lembro - respondeu o Tito fazendo um inútil esforço de memória - Li o livro há anos e já não me recordo.

- Pode sentar-se - respondeu secamente o professor Vergalho - revelando desde logo o despotismo iluminado do seu juízo sobre o exame.

Claro está que o Tito estava reprovado. Nunca lhe tinha acontecido ser tratado com tanta e tão gratuita rudeza. Não conhecia o examinador de lado nenhum, embora soubesse que ele era escritor pois até o tinham avisado para revelar conhecer algum dos seus livros. Não fora incorrecto em nenhum momento. Qual seria a razão daquela atitude; duma reprovação tão virulenta feita a um aluno que já era um homem feito e que portanto mesmo que ignorasse alguma matéria não seria por andar a passear os livros mas sim por ter granjear o pão de cada dia ao mesmo tempo que estudava.

Só podia ser o texto da prova escrita que não terá sido do agrado do professor, ex-seminarista ressabiado ainda com a padralhada que via ali, por engano, representada pelo Tito vestido com o único fato que tinha, de fazenda, próprio para o Inverno num dia em que estariam mais de trinta graus em Lisboa.

Os juízos das pessoas são muitas vezes temerários e, portanto, injustos.


A interpretação bíblica não tinha muitos segredos para o Tito que além de estudar os Evangelhos desde criança tinha estudado as teorias hermenêuticas e também homiléticas da exegése doutrinária e da teologia sistemática.

Na prova escrita, o texto em literatura recaiu sobre os Sermões do Padre António Vieira.

- Que bom, disse o Tito quando viu o ponto de exame, pois já tinha glosado na escola vários textos daquele excelente autor conceptista da literatura portuguesa.

Automaticamente utilizou toda a terminologia de que se lembrou na análise do texto em causa, mal adivinhando que esse seria afinal o seu erro, pois, uns pecam por defeito e outros por excesso. O professor Vergalho não gostou de ver num simples ponto de exame termos como: cosmogonia mosaica, pentateuco, escatologia e outros relativos ao mesmo jargão científico.








R


Mas o azar com os professores já vinha de longe. Certo dia o Director proibiu que se fumasse na escola; escola de adultos, trabalhadores estudantes. Muitos deles já fumavam e viam-se proibidos de o fazer dentro da escola. Não porque isso fosse bom para a saúde deles; tese que só apareceria muitos anos depois na década de oitenta. Mas para manifestar a autoridade ou o autoritarismo da Direcção escolar.

O Director continuou a fumar, ostensivamente. Os contínuos da escola fumavam, bem como os professores. Só os alunos não podiam fumar mesmo sendo alguns deles mais velhos que os professores, como acontece nas escolas nocturnas.

O Tito não fumava. Nunca fumou. Na Escola Bíblica Dominical tinham-lhe dito que quem tem vícios não é bom crente. Além disso o pai tinha deixado de fumar depois de trinta anos de vício graças à admoestação das sagradas letras.

Não estava em causa nenhuma necessidade pessoal. Passava bem sem ligar qualquer importância à determinação superior. Enquanto norma ipso facto até a aplaudia.

Mas sobressaia um problema de justiça e de igualdade que não podia engolir em seco.

Mal sabia ele que mais tarde iria aprender na Faculdade que uma lei é uma norma geral e abstracta, porém, não precisava dessa noção para sentir que algo estava errado.

A norma dizia o seguinte:

"Todos os alunos deste estabelecimento de ensino ficam proibidos de fumar nas suas instalações, quer nas salas de aulas, quer nos recintos e recreios do mesmo.

Qualquer infracção a esta norma será passível de sanções que podem ir até à expulsão.


a) Dr. Lobão da Cunha
Director"


O Tito não conseguia pactuar com a famigerada norma. Mais tarde veria que tinha azar com os lobões. Mal adivinhava que anos depois haveria de ver a própria mulher em flirt com o Lobato colega dela. Dois dias depois, a professora de português pediu a todos os alunos para fazerem uma composição em tema livre para avaliar da imaginação e dos conhecimentos de português daqueles trinta homens que compunham a turma.

Foi o que o Tito quis ouvir. Havia já alguns dias que andava a remoer a maneira de reagir contra a tal norma, não porque ele precisasse de fumar pois era vício que nunca agarrara, mas por lhe ser insuportável a hipocrisia e a existência de normas com dois pesos e duas medidas.

Na semana seguinte tinha de apresentar a redacção à professora, sob pena de ter falta.

Não hesitou; e redigiu a sua composição do seguinte modo:

"O Exemplo"

Há muitas maneiras de ensinar e muitas outras certamente estarão para ser descobertas tão vastas são as possibilidades que o Homem tem no âmbito pedagógico.

Cada ciência tem os seus métodos, e longe vão os tempos escolásticos em que se aprendia longe da realidade.

Todavia ainda hoje se estuda muito apenas pelas sebentas sem ligar a teoria à prática, o que tem como consequência adquirir-se um saber meramente livresco, desfasado da realidade prática da vida.

Mas, não podemos deixar de reparar e meditar acerca do que sobre este tema ensinou o Padre António Vieira.

Com efeito. diz aquele grande oratoriano que a melhor maneira de ensinar é o exemplo.

Diz concretamente que "fazer uma coisa e ensinar outra é querer endireitar a sombra da vara torcida..."

Ora, há poucos dias saiu uma norma onde se proíbe que os alunos fumem nas instalações da escola. Mas, estranhamente, desde os contínuos até ao Director todos continuam a fumar, não obstante a existência da norma, como se a mesma tivesse efeitos apenas unilaterais e persecutórios dos alunos.


a) Tito



Entregou a redacção à professora, aliás senhora simpática, roliça, aloirada de olhos azuis, que tinha acabado de chegar àquela escola havia apenas um ano, e não pensou mais no assunto.

Dois dias depois voltava a haver português e a professora, logo de início, distribuiu as redacções com as respectivas classificações a quase todos os alunos.

Mas, chegando à redacção do Tito alterou completamente o semblante. Era pequenina, de pele branca e os cabelos encaracolados. Habitualmente era afectuosa e meiga mas de repente ficou alterada, nervosa, quase colérica. Chamou o Tito com voz seca e ríspida. Mas ainda antes de lhe dar tempo a que chegasse à secretária, exclamou em tom brusco e enérgico:

- Parece impossível uma tal falta de respeito pelo senhor Director. O tema livre não era para apreciar as normas da escola. Isto é um verdadeiro oportunismo e uma grande falta de educação; uma grosseria.

Não tem nada que se meter em assuntos para os quais não é chamado.
Insolente, malcriado, não tem quem lhe dê educação??!!...

O Tito estava petrificado perante um tal discurso. Já o esperava mas admitia também que o bom senso pudesse mitigar os ímpetos da ira docente.

- Por determinação do Sr. Director o senhor vai abandonar a escola durante dois dias; é a sanção que foi determinado aplicar-lhe pela sua afronta aos responsáveis por esta escola. Queira sair imediatamente.

- Saio sim senhor. Mas não tenho dúvida alguma que a melhor maneira de ensinar tal como dizia o Padre António Vieira é o exemplo - e saiu pela segunda vez para não mais voltar àquela escola.









S


Quando no inicio da década de 60 entrou para a Caixa Económica estava bem longe de imaginar as voltas que a roda da sorte iria dar até ser reformado, já velho, alquebrado, com lentes bastante grossas de várias dioptrias, curvado e gasto de tantos desencontros da vida.

A Caixa já naquela altura era um antro de 'bufos' da Pide. Muitos que não seriam da Pide eram legionários ou acólitos do Estado Novo.

Para quem desde muito novo começara a ganhar asco àquelas fardas esverdeadas, cor de veneno ou de verdete cúprico, inspiradoras da saudação nazi para tantos jovens desprevenidos, era demais.

Os 'mangas de alpaca', o bafio das mentalidades, a subserviência institucionalizada condição sine qua non para a promoçãozita, ainda era o menos. O que se tornava mais intragável era o ambiente inquisitorial que se vivia e que impedia que os colegas falassem abertamente uns com os outros sem que começassem desde logo a admitir que estavam a falar com o inimigo, capaz de os denunciar ao chefe, à polícia, à Pide, etc..

A Caixa pagava miseravelmente aos seus funcionários. Estava vinculada ao funcionalismo público que, por seu turno, era uma horda de maltrapilhos mal pagos e mal alimentados. O fatinho domingueiro era pago em doze prestações suaves e com bónus..., modalidade inventada por alguns comerciantes para aumentar o paupérrimo consumismo da época.
O que era importante era o colarinho branco, sempre engomadinho com cloro e com palhetas de plástico, para ficar mais rijo e sem rugas.

Havia empregados que entravam da parte da manhã, no seu primeiro dia de trabalho, pelas dez horas, e da parte da tarde já não regressavam à Repartição. Pediam logo a 'exoneração' abandonando um emprego tão estável, do Estado, para o qual só se entrava depois de declarar por escrito e solenemente que o candidato não estava, nunca tinha estado e renunciava completamente às ideias do comunismo..."A Bem da Nação"!!!

Pior que isto só os militares e professores que tinham de pedir autorização para se casarem e dizer com quem, sendo que o casamento não o era se não fosse abençoado pelo senhor abade com grinalda e flor de laranjeira.

Entretanto, o mundo começava a mudar e as primeiras mulheres começavam a ser admitidas no sector dos serviços; mesmo na dita Caixa. Os jovens rapazes estavam a ser sacrificados no bélico holocausto colonialista. Outros, fugindo ao sacrifício iam a salto para os países europeus fazer aquilo que se recusavam a fazer na sua pátria.

Perante tal realidade o melhor era mudar. Passaram cerca de dois anos no entorpecimento da reforma assegurada, dos dois dias por mês para tratar de quaisquer assuntos pessoais e do convívio de colegas que sofriam solidariamente as mesmas amarguras. Mal de muitos é conforto...

- Como estás Tito, como é que vai a tumba?!! - Perguntou-lhe o Caetano no meio do passeio da Avenida da Liberdade. Tinham decorrido meses que ele saíra da dita tumba, assim chamada por ser a pior repartição da Caixa.
-
- Mal - respondeu o Tito - Como sabes aquela porcaria daquela Caixa não tem conserto. O mau-mau está cada vez pior, (o mau-mau era a alcunha do chefe), estou a pensar em vir embora, mas não sei para onde ir.

- Olha pá, disseram-me que numa daquelas ruas da baixa há um Banco que tem os vidros verdes e que está a admitir pessoal. Dá lá um salto - sugeriu o Caetano.

- O.K.; como vou para baixo vou passar por lá. Depois digo-te alguma coisa. Despediu-se do amigo ali mesmo a pensar na fome que rapava todos os dias por ter de dividir o ordenado com os seus dois irmãos que ainda ganhavam menos que ele em empregos ainda piores.

Durante o dia lá se ia safando a almoçar no refeitório, mas à noite sem ter nada para comer e os tostões todos contados até ao fim do mês, obrigavam a ir a uma daquelas tascas imundas da Av. de Paris onde por vezes nem sequer conseguia comer, tão má era a apresentação dos pratos, quando não vinha mesmo com cabelos da cozinheira que até causava vómitos. Mesmo assim nem sempre os tostões chegavam e, nesses dias, lá para o fim do mês, em vez dum prato de qualquer coisa comia pão com figos secos e já não era nada mau...

Foi num desses dias que quando se encaminhava para a tasca deu de caras com o televisor no fundo da sala a dar a notícia do assassinato do Kenedy .

Como um desastre nunca vem só o Tito casou-se por esta altura ainda bastante jovem. Dois anos depois aparecia o primogénito. É uma fase da vida das pessoas em que a paixão cega a realidade e tudo parece puro e honesto.

As dificuldades agora eram acrescidas. Tinha que dividir o magro ordenado pelos dois irmãos mais novos, e fazer face a outras despesas matrimoniais.

A juventude possui um altruísmo que a idade vai limitando na medida em que o endurecimento da vida torna as pessoas mais calculistas e egoístas.

Com a mulher tinha muitos pontos em comum, pensava na altura, o que afinal mais tarde se veio a provar não ser tanto assim.

A luta anti-fascista levou o Tito para o sindicalismo. O trabalho e as afrontas recebidas com as injustiças dentro da empresa cedo o atiraram para as assembleias sindicais onde a mensagem evangélica acabava por ser subliminarmente difundida no âmbito da necessária justiça social.

A Banca subsidiava a mesma polícia política que o tinha impedido de ir para Inglaterra com a bolsa de estudos. Ele via isso nos lançamentos contabilisticos que lhe passavam pelas mãos.

O sistema não estava de pé por mero acaso. Tinha muitos acólitos e poucos eram aqueles que se opunham arriscando o seu conforto e até a vida como fizeram alguns a quem o povo português muito deve.

Quando toda a gente vem à rua no dia da Liberdade, vem porque isso não tem custos e quando não há custos, todos somos democratas.

Na verdade, no dia 24 de Abril poucos eram aqueles que arriscavam o seu futuro para alterarem o status quo situacionista.

O Tito iniciou uma manifestação na capital quando ninguém a queria iniciar dando a mão ao seu colega Chico e colocando-se no meio da via para cortar o trânsito.

A rua tinha imenso movimento, bastando esse facto para que a manifestação não fosse de todo um fracasso, mas a verdade é que a convocatória não iniciava a manifestação só por si, e muitos estavam nos passeios a ver o que é que a coisa dava.

Há sempre uma elite sacrificada que mais tarde é afastada quando os oportunistas aparecem a beneficiar do sacrifício dos outros.

Assim se compreende que o principal estratego do 25 Abril esteja marginalizado entoando-se loas a muitos outros de muito menor importância nos referidos acontecimentos.

A Revolução devora os seus autores. A revolução é autofágica, mas isto é um modo eufemístico de dizer que os oportunistas são imensos, espreitando sempre o momento de atacar. O Xanana vai passar pelo mesmo. Não é necessário ser profeta...

Há, portanto, uma estirpe de cidadãos que mais não são do que abutres sociais, escolhendo as deixas para se guindarem aos lugares que não merecem, beneficiando do que pertenceria a outros por direito próprio.

A companheira do Tito, a Micas, tinha sido aliciada para o sindicalismo através do seu exemplo.

Depois foi tentando diversos empregos, alguns dos quais, logo na primeira prova passava pela malha do assédio sexual. Era baixote, roliça, um pouco rechonchuda mas bastante bonita e de carnes solidas. Os dentes muito brancos e uniformes davam-lhe um sorriso muito alegre e vivo.

Os cabelos eram negros e brilhantes. Mesmo sem qualquer cosmética tinham um negro azulado de azeviche que a faziam no conjunto uma pessoa simpática e muito agradável.

Embora às escondidas do marido fosse lendo literatura de cordel do tipo "simplesmente maria" e “colecção amorzinho”, apreendia muito bem o que a rodeava, e ia cimentando a sua própria experiência junto de administrações capazes nas empresas por onde ia passando.

Pessoa sensata tinha sempre um ponto de vista reflectido e inteligente. Tinha na verdade poucas habilitações escolares, mas em compensação adquirira bastante experiência prática e uma razoável cultura ministrada também pela Escola Bíblica Dominical da Igreja onde conheceu o Tito.

Nenhum homem rejeitaria a oportunidade de a levar para a cama.

Atrás do primogénito veio o segundo e último filho. O ambiente familiar era bom, não faltavam oaristos . Não havia atritos nem conflitos. Já tinham passado os tempos heróicos em que à socapa comiam dois bolos na pastelaria e pagavam só um; método prático para esticar o ordenado.

Tempos depois já viviam melhor e recebiam a família quase todos os fins-de- semana para almoçar ou jantar em franca harmonia e confraternização.

As férias eram passadas a percorrer o país ou em viagem até França onde tinham familiares emigrantes fugidos à guerra colonial.

O Tito chegava a casa muito tarde. Acabado o trabalho ia para o Sindicato onde tinha reuniões com os companheiros, anos depois camaradas do seu partido e doutros. Não estava em causa apenas a melhoria de vida dos trabalhadores. A luta dirigia-se também contra um regime obsoleto, colonialista e ditatorial.

Defendendo a sua lista eleitoral para o sindicato o Tito deslocou-se aos Açores e à Madeira, acompanhado por dois marxistas-leninistas-maoistas da extrema esquerda, que também integravam a candidatura.

Mal chegou aos Açores viu-se em minoria sem poder fazer frente aos dois companheiros cujo diapasão político tentavam impor. O separatismo estava na ordem do dia e eles, oportunisticamente, afirmavam estar com os movimentos separatistas: FLA e FLAMA. Para eles tudo o que estivesse contra os comunistas era válido, nem que se entregasse a alma ao diabo...

Os Açores, terra que nos deu o primeiro Presidente da República e socialistas da melhor valia (Manuel de Arriaga, Antero de Quental, etc.) estava agora na mão de separatistas e havia continentais que iam para lá dar cobertura a uma tal estupidez, apenas para agradar à extrema direita e atacar o chamado social-fascismo.

Na Madeira a cena foi mais ou menos a mesma. A Constituição da República de 1976 era letra morta e pior que isso queriam matá-la. Numa sessão de esclarecimento apareceu um bancário de cabelo à escovinha e de apelido Kriegmann com quase dois metros de altura, loiro mais parecia um filisteu caído no Funchal. Era certamente um descendente de fugitivos da II Guerra Mundial que escaparam ao Tribunal de Nuremberga.

As ameaças aos cubanos ( nome dado aos continentais ) foram imensas. Nessa noite o Tito chegou a pensar que não chegava ao hotel e que numa das ruelas do Funchal cairia no meio dalgum grupo de energúmenos. Convidaram-no para entrar num carro a pretexto de dar uma volta pela ilha, mas preferiu ir até ao café caminhando sempre a pé com toda a atenção aos transeuntes.

Ainda hoje é espantoso como as zonas mais bonitas de Portugal se encontram tão atrofiadas mental, técnica e socialmente.

A viagem estava azarada. Logo à partida de Lisboa o insólito aconteceu. O carro estava estacionado à porta do Sindicato como tantas outras vezes. A rua era estreita e o carro tinha uma roda em cima do passeio e outra na via. Havia bastantes carros naquelas condições mas o do Tito estava um pouco mais junto da curva sem que impedisse a passagem dos outros veículos mesmo camionetas de carga.

O reboque da polícia raramente passava por ali. A tolerância por falta de espaço na cidade era um dado adquirido. Naquele dia certamente tinham tido pouca clientela de reboques pois infelizmente as firmas do ramo estão enxameadas de polícias que assim ajuízam em causa própria.

Faltava uma hora para estar no aeroporto da Portela para fazer o check-in.

As malas estavam já dentro do carro com os documentos, bilhetes e material diverso relativo às reuniões que estavam marcadas para o próprio dia da chegada ao Funchal. Quando chegou à rua tudo tinha partido para parte incerta.

Um comerciante avisou que minutos antes, num abrir e fechar de olhos os polícias tinham posto uma guita à volta do carro e em três minutos já o carro ia arrastado com as rodas tortas e o pára-choques a bater no empedrado mais saliente da calçada.

Perdeu o voo. Conseguiu lugar no avião imediato com o transtorno de centenas de pessoas à espera do sindicalista que já não bastava ser considerado cubano e comunista senão ainda irresponsável, sem noção de pontualidade, etc.

Que espécie de direito é este policial que põe e dispõe dos bens dos outros sem olhar às consequências.

A actividade policial tem fins lucrativos? Permite-se constituir sociedades comerciais com a farda da P.S.P.? É isto um estado de direito? Foi para isso que o Tito arriscou tanto contra a própria polícia de choque?

O feudalismo que não chegou a existir em Portugal deixou alguns laivos que perduram nalgumas regiões do país onde o caciquismo organizado à volta da igreja católica e outras forças reaccionárias campeiam em prejuízo dos mais desfavorecidos. Tanto num caso como no outro haveria boas razões para se libertarem dado o influxo dos EUA e da Grã-Bretanha tão representados naquelas sociedades, mas as forças conservadoras são poderosas e organizadas e por outro lado são ilhas. Tudo começa e acaba dentro da ilha. É um círculo fechado que tudo controla.

A Liberdade é incompatível com o atraso intelectual e económico. Nenhuma revolução foi feita por pedintes. Pelo contrário foi a pequena ou média burguesia que ajudaram a transformar decisivamente o mundo em que vivemos.

São no fundo os intelectuais altruístas, cuja honestidade lhes impõe agirem no sentido do bem comum, alguns dos principais revolucionários da História.

Lenin, Karl Marx, Mao Tse Tung e Fidel eram juristas e pertenciam a um extracto social com nível de vida elevado.

Mas o altruísmo fica ainda mais evidenciado quando pensamos em Che Guevara, médico, que depois de ser ministro no governo de Fidel parte pelo mundo para promover a revolução, acabando por morrer numa cilada às mãos dum cabo da guarda boliviana.


Alguns dos companheiros do Tito estavam detidos em Caxias e em Peniche. Ir visitar esses companheiros, só por si, já era um acto de coragem pois, a partir daí era certo e sabido que a polícia política iria averiguar donde lhe vinha aquela amizade, e que contactos existiriam anteriores e que objectivos comuns eventualmente teriam. Todos estes elementos constavam dos ficheiros da Pide, e por isso, até as relações extra-conjugais eram deles conhecidas.

Era arrepiante o contacto com os detidos daquelas prisões. A primeira vez, quando viu o vidro onde os presos punham as palmas das mãos encostadas às dos visitantes como que a cumprimentarem-se, pareceu-lhe uma cena extraterrestre. Ficou aterrado perante a imagem gélida e crua duma vileza indizível que daquele modo tratava os adversários políticos, cujo único crime era o de terem opiniões diferentes do salazarismo.

Como poderia um país dito católico há quase mil anos ser tão violento, sanguinolento e reles. Como poderia um génio político daqueles, dos quais raramente aparecem na História - como dizia a União Nacional - patrocinar uma tal prática política? Tudo isto com a cobertura duma Igreja Católica que infelizmente nada tem a ver com a genuína mensagem de Cristo, de tão adulterada ter sido ao longo dos séculos, sempre numa opulência tentacular de relações políticas próprias de senhores feudais.

- Somos piores que os parricidas, dizia o Daniel aos amigos e companheiros que o visitavam nas masmorras de Peniche.

E era verdade. Os parricidas tinham perdão de penas. Gozavam de amnistias quando o Papa visitava o país ou havia uma eleição presidencial, mas os presos políticos de nada beneficiavam. Quando não morriam nas prisões ou não eram enviados para morrer no Tarrafal já era uma sorte.

Outros antifascistas foram metidos em barcos para as colónias; nunca mais apareceram.

Muitos dos presos do Tarrafal ainda vieram em urnas do tamanho do fémur; urnas pequenas do tamanho de bebés. Estiveram em exposição na Sociedade Nacional das Belas Artes cerca de quarenta dessas urnas trazidas após o 25 de Abril.

Outros desapareceram sem deixar rasto.

Era um regime que seleccionava os seus presos políticos. A violência física exercida era inversamente proporcional à importância social do detido. Tinham algum receio da opinião pública internacional.

Embora, como em tudo, sempre havia excepções, pois o General Sem Medo foi mesmo assassinado a sangue frio e à queima roupa, como ficou processualmente provado.

Mas aqui talvez tenha havido excesso de zelo dos facínoras sequiosos de mostrar serviço à espera de promoção.

Certamente estavam há muito a ordenar processos e a redigir fichas identificadoras dos inimigos. As rivalidades internas já têm sido referidas na comunicação social por eles próprios.

Quando o Tito foi um dia à Torre do Tombo ver o seu processo feito pela Pide verificou factos da sua vida dos quais nunca mais de lembraria; pois, lá estavam referidos os comunicados por si assinados e as participações políticas e sindicais a que tinha dado algum contributo.

A Micas sabia disto tudo e rodeada de milhares de operários dum dos grandes estaleiros navais do país, seu novo trabalho, sentiu-se politizada e estimulada para uma intervenção política activa.

O Tito ganhava mal. No meio da rebeldia e das vicissitudes da vida nunca mais fora promovido. Os patrões não gostam de agitadores. Gostam de carneiros que trabalhem sem levantar a cabeça e sem reivindicar o que quer que seja.

Por vezes aproveitava as idas ao hipermercado para meter nos bolsos algumas coisas de pequeno volume. Educado em princípios que se opõem a tal comportamento espantava-se consigo mesmo sem saber se se tratava de cleptomania ou não, pois eram sempre objectos de pequeno valor.

Certo dia, cansado de carregar com o filho ao colo, precisou dum carrinho de bebé para o rebento, nascido alguns meses antes, o qual custava quase tanto como o ordenado de um mês. O dinheiro mal chegava para as mercearias. A tentação e a necessidade juntos eram uma atracção irresistível.

- Se houver azar passo um cheque mesmo sem cobertura - pensava com os seus botões. Tremia e transpirava imenso só de imaginar a façanha. Se a caixa do supermercado o conhecesse via logo que algo de errado se passava com aquele cliente que bem denunciava ter cometido qualquer habilidade.

Sentou o miúdo no carro de bebé e dirigiu-se para a caixa para pagar. Colocou os embrulhos no tabuleiro da caixa e fez passar o miúdo no carrinho para o exterior. Pagou os produtos com tanta pressa que nem conferiu os trocos. Cada vez tremia mais. A voz estava já num falsete facilmente notado. Ao sair encarou com um vigilante que deve ter ficado aparvalhado com a atrapalhação do Tito, mas não conseguiu perceber porquê.

Nunca o primogénio do Tito saberá como conseguiu ter o seu primeiro carrinho de bebé que tanta alegria lhe deu até ter recebido a primeira bicicleta em segunda mão.

Quando o Tito se lembrava de apresentar reivindicações para tentar alterar aquela miséria um seu colega dizia-lhe, por vezes, criticando-o, que ainda um dia havia de pôr o patrão, banqueiro, à porta da igreja a pedir esmola!!!... Uma ideia destas só podia sair da cabeça dum ex-legionário, concluía.

A Micas via a sua vida a andar para trás. Havia meses que não comprava um vestido novo. Começavam a surgir as telenovelas brasileiras. Nesses folhetins as mulheres eram sempre umas escravas que importava libertar dos despóticos maridos.

A libertação das mulheres tinha como condição sine qua non, o divórcio. Os reflexos sociais em Portugal não se fizeram esperar. O Tribunal de Família foi-se enchendo de processos. O divórcio tinha sido instituído em Portugal há pouco mais de meia dúzia de anos. Foi a grande explosão libertária pela qual o Tito tanto havia lutado sem nunca admitir que tal lhe passasse pela porta. Nem a existência de filhos travou a sede de liberdade.

- Casei contigo porque estava cega, era uma criança inexperiente, dizia a Micas cada vez que surgiam indícios de conflitualidade por ele suscitados.

Mas o problema era mais grave. Já anos antes a mãe da Micas e todas as suas irmãs tinham feito o mesmo. Outras mulheres da família tinham corrido a mesma senda.

A mãe da Micas era uma mulher muito bonita e bem proporcionada. Dir-se-ia que tinha tudo para ser feliz. Já em solteira desmaiara uma ou outra vez durante os bailes dos Algares. As pessoas amigas pensavam que era algum chelique relacionado com a tensão arterial ou qualquer outra coisa menor de foro patológico relativo à falta de contactos com hormonas androgénicas.

Contudo, o caso era doutra natureza. Durante a noite ouvia vozes que ninguém sabia donde vinham. Por vezes tinha visões que ninguém conseguia interpretar, o que implicava premonições diversas. Quando começou a constar, alguns figurões da cidade quiseram visitá-la para serem aconselhados. Políticos, homens de negócio, profissões liberais batiam-lhe à porta para saberem o futuro que ela ia revelando taramelando a língua. Tinha sido promovida a médium.

Constou até que o próprio Botas ter-se-á avistado com a mulher para decidir que medidas tomar sobre a invasão de Goa, Damão e Diu, e também no caso de Angola para saber qual o êxito da sua política...Afinal não era assim tão católico...

À mulher dum falecido e arruinado comerciante da África do Sul a mãe da Micas terá dito que o marido tinha ganho dinheiro ao jogo e que fosse a Cape Town à Winchester Street a casa dum tal John Brown que lhe devia mais de quinhentos mil rands que perdera ao jogo.

Constou depois que a viúva tinha no regresso procurado os amigos do falecido marido e tinha conseguido receber os ditos rands.

Tinha dons parapsicológicos e mediúnicos que deixavam boquiabertos o comum dos mortais. Por vezes parecia ter várias personalidades. O Tito interrogava-se se isso teria alguma coisa a ver com os heterónimos do Pessoa, também ele criado e formado naquelas paragens do Cabo da Boa Esperança.

Um dia juntaram-se em casa do Tito porque a Micas também tinha apetência para este tipo de fenómenos, e, testemunhas oculares afirmaram que a mesa pé-de-galo tinha dançado, e o avô dela tinha escrito uma mensagem ainda na grafia do século passado, escrevendo farmácia com ph.


A fatalidade da família não ficava pelas mulheres. O irmão da Micas filiara-se num partido político revolucionário de extrema esquerda, já depois do 25.Abril.

Era um altruísta cheio de vontade revolucionária, numa sociedade cuja justiça social era ainda muito mitigada.

O grupo era armado e dava treinos aos militantes mais fiéis. O Pedro foi um dos guerrilheiros que beneficiou dos treinos de guerrilha urbana. Devia andar preocupado com o Liceu e com a matemática que lhe davam tanto trabalho, mas tudo isso ficou para trás. Interessava-se pelos fenómenos da ovnulogia e pela revolução que estava - dizia - na ordem do dia.

Muitas noites não chegava a ir a casa. Ficava no partido com o resto da malta. Quase tudo jovens com o coração na boca. Dormiam todos juntos espalhados pelo chão, vestidos, sujos e barbudos. De manhã era só lavar a cara porque a barba nunca faziam, e elas também não precisavam de maquilhagem.

Por vezes nem se sabia quem era ele ou quem era ela. O vestuário, o cabelo e o aspecto eram iguais. Se não fosse a barba hirsuta que eles usavam, por vezes seria difícil distinguir, pois alguns deles eram mais bonitos que algumas delas.

Foi lá que o Pedro conheceu a Mafalda que o acompanhava para todo o lado. Todos andavam armados para fazer a Revolução. As palavras de ordem eram: Viva a classe operária! Os ricos que paguem a crise! Paz, pão, habitação! A revolução está na ordem do dia! Viva a reforma agrária! O poder está na ponta da espingarda! Abaixo os latifundiários mais quem os apoiar!

Eram jovens que nunca tinham ouvido falar em socialismo, a não ser depois do dia 25 de Abril. Nunca tinham sido prejudicados pelo salazarismo mas tinham informação dos malefícios do regime para todo o país e para todo o povo. Viviam embalados pela esperança de criar uma sociedade justa, sem pobres, com igualdade, liberdade e fraternidade para todos, como tinham ouvido nos comícios da Oposição Democrática. Os salazaristas é que estavam a mais e impediam que se atingisse esse desiderato. Pura utopia. Só mais tarde alguns deles veriam que os problemas sociais e políticos não são assim tão fáceis de resolver.


O Pedro não tinha casa de jeito. Dormia em casa do padrasto debaixo da escada do piso superior porque a casa era pequena mas mesmo assim parte dela estava ocupada com um laboratório fotográfico que era o seu ganha-pão. Mas família que estivesse em barraca ele logo lhe arranjava uma casa. Metia a porta dentro de qualquer que estivesse desocupada e alojava os que viviam em condições precárias, por vezes menos precárias que as dele.

Uma das vezes, em Campolide, apontou mesmo a arma à cabeça dum senhorio que, avisado pelos vizinhos, soube que a porta tinha sido metida dentro e a casa estava a ser ocupada. Preparava-se para disparar quando o senhorio, branco como a cal desmaiou com o sistema nervoso agitadíssimo e convulsivo.

Numa dessas escaramuças envolveu-se em contenda com uns camaradas que se tinham locupletado com bens que pertenciam ao partido e, em fogo cruzado, acabou por morrer no meio do tiroteio, depois de se ter escudado com uma transeunte que transformou em refém.

Era uma criança de 18 anos. Tinha um coração maior que ele. Uma vítima da revolução que tinha abraçado em toda a sua plenitude.

Morreu como o Che, cuja boina basca usava como distintivo, e cujo ideal assumia como seu.

A mãe, emigrante na Holanda correu logo para Portugal para assistir ao funeral do filho. Terá sido o maior azar da sua vida. Pior que os homens que a traíram e a abandonaram foi de longe a morte do filho o que mais a traumatizou.

No dia seguinte ao funeral, em fins de Janeiro, chovia imenso. Ao chegar à janela a mãe estremeceu. Petrificada pela morte do filho passou a ficar lívida ao imaginar que sobre o filho, debaixo da terra, a natureza era tão cruel que ainda lhe ensopava os ossos do filho. Ficou a bater o queixo sem dizer nada, mas quem a conhecia sabia bem o que lá ia dentro, e lá dentro ia um dos dias mais negros que uma mãe pode sofrer!


Era revolta sobre revolta. Revolta contra os homens e revolta contra a natureza. Bem no fundo a revolta seria até contra Deus que a castigava daquele modo tão cruel e injusto. Roubaram-lhe os homens, roubaram-lhe a saúde, roubaram-lhe os bens que foi deixando por casa dos maridos/companheiros, sempre posta na rua, e, por fim, roubavam-lhe o filho com uma bala roubada à revolução de Abril.

Vivia uma vida palimpsesta sem significado e sem rumo. Ansiava por chegar ao fim, já inchada pela doença hormonal que a castigava rudemente. Sozinha, regressou à terra e foi numa casinhota que endireitou e caiou com os florins que trouxe da emigração que a arranjou, para nela acabar antes de ir para o Hospital exalar o último suspiro, antes de fechar os olhos que tanta coisa ruim viram, nas andanças de um mundo que, para ela, fora sempre carrasco.






T


É a sina das mulheres da família, dizia o tio da Micas, desalentado com a constante desgraça familiar do ramo feminino.

Por outro lado, o Tito passava muitas noites no sindicato. Por vezes nem ia a casa. As camaradas não deixavam. Morava longe e algumas tinham carro e residiam ali bem perto, no centro da cidade ou na periferia.

Era um convite. As gulosas dos maridos das outras não perdiam pitada, e o Tito cedia com facilidade. Se o signo tem algum significado a balança parece, de facto, bastante volúvel, por oscilar com facilidade.

Estava farto das vaginites caseiras que transformavam o prazer num drama. Mas, havia ainda casos mais antigos com reminiscências da vida de solteiro que a Micas nunca perdoara e remoera até se poder vingar.

O assédio doméstico em casa da sogra tinha sido uma realidade que não valia a pena esconder.

A carne é fraca e o espírito, por vezes, não é muito melhor. Isto se não é a cultura judaico-cristã a impor ditames contraditórios com a realidade.

Certo dia confessou o crime. Mas não o confessou em tom de desculpa. Com um caracter talhado à machadada tinha de afrontar a companheira com a realidade nua e crua.

- O meu único período de felicidade foi quando tive uma camarada do sindicato, durante seis meses - confessou em tom acusatório.

Estava lida a sentença do primeiro casamento. Já nada havia a fazer. "O Casamento e a mortalha no céu se talha", diz o povo. Na terra talham-se as asneiras. Paciência!

Durante seis longos anos o Tito foi trabalhando e estudando à noite. Acabaria de se licenciar em Direito depois dum longo sacrifico em que todos os fins-de-semana e todas as horas disponíveis eram gastas a estudar. O refeitório da Faculdade era péssimo. Uma das noites pouco depois de chegar a casa desmaiou na casa de banho. Tinha comido um bitoque estragado no bar da Faculdade. Cólicas que nunca mais acabavam. Bifanas estragadas que a ganância comercial sem escrúpulos tudo vende sem fiscalização sanitária.

Foi o maior sacrifício da vida do Tito. Chegava a casa pela uma da manhã depois de percorrer bastantes quilómetros.

Alguns professores com tendências ditatoriais revelavam bastante falta de idoneidade. À guisa de exemplo veja-se o que ensinava o Professor de Direito de Família na sua sebenta, sobre as práticas sexuais:

"A irrumatio consistit in lambendo vel sugendo, vel tililando, mediante lingua et labis, genitalia eiusdem vel alterius sexus, usque ad expletam voluptatem; cum emissione seminis in viro et liquidi glandularum genitalium in muliere: soepe cum deglutione ipsius seminis, vel liquidi. Aliquando vero perfectus coitus oralis accedit vel immititur in vaginam."

Não vale a pena traduzir pois a nossa língua tem por base o Latim e fácil é perceber do que se trata; até porque nesta matéria parece que toda a gente nasce já ensinada e, além disso, quando os turistas portugueses visitam os monumentos que têm inscrições em Latim, também não têm tradução e lá vão percebendo!

Mas, será esta matéria assunto para um curso de Direito de Família? É óbvio que não. Os traumas que as pessoas carregam são dignos de análise freudiana.

Um dos professores obrigava os alunos a esperar por ele com bastante frequência. As aulas nunca mais começavam e um certo dia um dos alunos lembrou-se de telefonar para casa dele para saber se o professor vinha ou não. Foi atendido pela empregada doméstica que se descaiu informando que o Senhor Pofessor estava a ver a telenovela!...

Quem se governava bem nas aulas eram algumas alunas. Não largavam os monitores e os assistentes. Era durante as aulas, no bar e à saída lá iam não se sabia para onde. Certo dia numa das salas recuadas onde se reuniam grupos de estudo foi apanhado um par e quem havia de ser?: um dos monitores e uma das alunas, aluna que claro, por artes e manhas tinha de chegar a assistente da faculdade.

Agarrada aos monitores e assistentes lá foi levantando as notas e as saias até conseguir o seu objectivo. Quando hoje a Manuela aparece a debitar bitates em Direito ninguém adivinha como é que ela conseguiu saber tanto Direito. Foi assim que ela venceu na vida e não se sabe onde irá parar. Há pessoas que se servem de tudo para atingir os seus fins.





U

O Tito deu o salto. Mudou de emprego poucos dias depois de ter ido ao Banco dos vidros verdes, mas não mudou de vida. Continuou amarrado a outras cadeias que o puseram a trabalhar de sol a sol. Deixou de estudar. Parou 10 anos na marcha do processo o que lhe afectariam a vida.

Já não bastava o chumbo em Literatura que o Professor Vergalho acintosamente lhe infligiu no Camões, pensando que ele também teria vindo dalgum seminário e por isso estava a entrar em escatologias transcendentes com o texto do P. António Vieira, para ainda ter de aturar os sacripantas do banco que, para além das minutas rotineiras, pouco mais sabiam ou queriam saber fazer.

A mudança teve pouca expressão e a conflitualidade pouco mudou.
No novo Banco não haveria a mesma carga política, mas salientavam-se mais os apadrinhamentos por serem mais despudorados. O sindicato era ainda dirigido por esbirros escolhidos pelo regime. Homens de mão que representavam como títeres o papel de dirigentes sindicais, e por essa via iam beneficiando de chorudos privilégios corporativos.

A revolta era inevitável, tanto mais que a exploração em baixos salários e horas extraordinárias infindáveis nunca pagas era o dia-a-dia. Isto sem falar nas multas da Inspecção Geral do Trabalho que o patrão não assumia e endossava para o mais fraco, o trabalhador, que, por sua vez, quando o fiscal do trabalho aparecia fugia como baratas encurralando-se na retrete para não ser detectado.

O Banqueiro nem assim ficava satisfeito e, por isso, muitos trabalhadores nem nos sábados e domingos conseguiam libertar-se dos papéis. Outros levavam-nos para casa todos os dias e até a família punham a trabalhar para o Banco sonhando com a 'surda' (distribuição de lucros dada à socapa pelo patrão só a alguns).

Recompensa que nunca chegava, tal como a promoção que viam ser oferecida ao mais apadrinhado, ao mais dócil e ao menos reivindicativo.

A hora de entrada era sempre conhecida, mas pelo sim pelo não os trabalhadores antecipavam-na sempre, para que constasse.

A hora de saída, essa, era sempre desconhecida; sempre prolongada, por vezes inesperadamente, só porque a contabilidade estava errada em dez tostões, ou estava mal intercalada uma ficha do 'ruf' que nunca mais aparecia e não deixava fechar o diário.

As prioridades do serviço estavam indexadas não à respectiva urgência, mas sim ao valor hierárquico de quem mandava executar. Por vezes estava na máquina de escrever uma operação da chefia da secção. Retirava-se imediatamente para executar a que o Director trazia. Esta por sua vez era também retirada quando o administrador pedia qualquer coisa, e tudo era interrompido. Felizmente o Cardeal Patriarca não era cliente daquele banco apesar de lá ter alguns protegidos, senão alguma vez pararia tudo para atender sua Eminência. É caso para dizer como os latinos: Decus in labore!

O funcionamento daquele Banco era do tipo militar. As hierarquias nem sequer eram contactáveis pelos administrativos. Havia que atender à hierarquia em primeiro lugar. Quem a ultrapassasse ficava marcado e o melhor era ir-se embora, despedir-se, arranjar trabalho noutro lado.

Não se fazia continência perante as chefias mas, pior que isso, a subserviência era uma constante. Alguns chegavam a trabalhar doentes com 39 graus de temperatura.

Não largavam o serviço por nada deste mundo. Era bom que o chefe visse que mesmo doentes estavam ali em defesa da sua camisola; sempre, sempre ao lado do trabalho. Estava em causa a promoção, a surda, o clientelismo pascal e natalício!

As horas extraordinárias eram obrigatórias. Quem quisesse estudar estava marcado como se tivesse lepra. As chefias diziam mesmo: ou trabalha ou estuda; ninguém deveria poder estudar depois dos 30 anos....

Houve um que se lembrou de não transigir recusando-se a fazer horas extraordinárias: foi despedido.

O 25 de Abril salvá-lo-ia, anos mais tarde, reintegrando-o, depois de ter sofrido as passas do Algarve batendo sucessivamente à porta de muita gente que, desconfiada ou conhecedora do incidente laboral fechavam-lhe sistematicamente as portas.

Para eles o Homem foi feito para trabalhar, especialmente quando trabalha para eles auferirem chorudos ordenados e prémios a fazer que trabalham e tantas vezes a trabalhar mal. O princípio de Peter era uma constante. Quando um empregado sugeria qualquer alteração nas minutas existentes era uma guerra:

- Sempre se fez assim, sempre se fez assim - era o estribilho das chefias.

Por vezes davam cursos ao pessoal. Por exemplo, como utilizadores do sistema informático. Tudo bem. Louvável. Só que depois, as próprias chefias não deixavam praticar, não deixavam utilizar. -Isso não é para brincar - diziam. E a esferográfica continuava a ser o único instrumento de trabalho, com os computadores desligados na secretária como se fosse artigo para decoração.

Os filhos pequenos bem podiam esperar em casa da ama. Alguém os havia de ir buscar lá pelas 8 ou 9 horas da noite... ou então já estavam em casa trazidos pela mãe, pois o pai chegava quando eles já dormiam, depois do serão, e como isto era um hábito transformado em vício, acontecia os miúdos verem o pai lá para o fim de semana e já não era nada mau...Quem estivesse preso pela Pide estava ainda muito mais afastado da família e não se podia queixar que eles não deixavam!

Os anos 60 foram de facto importantes: os Beatles, o Maio/68 em França, os efeitos das transformações sociais do pós-guerra, a politização das populações, puseram o mundo a fervilhar. A velha Europa, como sempre, tinha uma palavra a dizer. O Socialismo estava na ordem do dia mesmo para muitos que nada sabiam sobre o sistema. O patronato sabia que nunca mais poderia contar com a exploração acéfala da mão-de-obra barata, e já havia alguns empresários que anunciavam que a produtividade nada tinha a ver com o aumento dos horários de trabalho mas sim com a organização das empresas.

Longe iam os tempos das heróicas lutas dos trabalhadores americanos fuzilados em Chicago por pretenderem 8 horas de trabalho diário. Certas conquistas, quer queiram quer não, são mesmo irreversíveis, a menos que... Convém sempre ressalvar pois os efeitos de profundas crises económicas são sempre imprevisíveis e ainda há poucas décadas foi o que se viu; um desastre: genocídio, xenofobia, racismo, numa palavra: holocausto nazi e stalinista.


Aquele Banco - o dos vidros verdes - tinha dias que mais parecia uma casa de malucos, um verdadeiro manicómio... As correrias eram constantes, sem horários, sem condições de trabalho, no verão com uma temperatura impossível de suportar, os funcionários ficavam colados às cadeiras de napa. As camisas ensopadas em suor molhadas nos sovacos, nas costas e no peito causavam uma impressão que mais parecia uma oficina artesanal onde o trabalho manual obriga a esforços físicos constantes do que uma instituição de crédito.

Não era por acaso que o Tito baptizou a sua secção com o nome de serralharia bancária, tal a confusão, o ruído e as correrias dos empregados que se acotovelavam para disputar por exemplo a única máquina de calcular os juros das contas dos clientes que servia para dezenas de empregados.

Os clientes que por qualquer razão especial tivessem de se deslocar à secção, viravam a cara para o lado logo que chegavam. O cheiro a transpiração era pior que o do Metro nas carruagens antigas e à hora de ponta.

Muito sofre quem tem de ganhar o pão de cada dia. As chefias, com formação de capatazes, nunca estavam satisfeitas. Quando os empregados, muito a medo depois de duas horas extraordinárias gratuitas, assim como quem quer compensar o tempo de ter ido mijar durante o dia, começavam a tentar despedir-se, ouviam quase sempre o mesmo responso: "Tem o serviço em dia ?"; "Então já se vai embora?"; "Quem me dera poder ir já embora, isto de ser chefe só dá chatices".

Quanto à camaradagem também esta deixava muito a desejar. Amigos no trabalho é coisa muito difícil de encontrar. Os colegas tentam saber os podres de cada um para daí tirarem partido. Tudo serve. A mulher daquele é muito velha e portanto ele foi desmamado antes do tempo e toda a vida vai andar agarrado à mãezinha. A mulher do outro é muito mais nova e portanto é certo e sabido que já tem um bom par de cornos. Aqueloutro divorciou-se e a mulher foi progredindo profissionalmente, logo é porque ele não presta. É o desfiar dum rosário que nunca mais acaba com as contas que se fazem de cabeça para tentar tramar o parceiro com quem, por vezes, se convive mais horas do que com a família.

Claro está que os grandes centros estão mais atreitos a este tipo de coscuvilhices. Mas nos outros, onde é suposto haver mais solidariedade, os problemas não são menores. Casos há em que se torna tão insuportável que as pessoas chegam a pedir a transferência para outras cidades para poderem respirar mais à vontade. Ou porque não entram no jogo da maledicência, ou porque têm uma vida menos regular não sendo casados mas vivendo apenas em união de facto, tudo isso é suficiente para molestar as pessoas, marginalizando-as, até se verem obrigados a mudar de região.

Noutros casos o snobismo é hegemónico. Ou se faz parte da elite ou somos marginalizados.

Não penetras na roda da elite da terra e não passas de cidadão de segunda.

Quem se apaixonar pelas doces terras onde Inês estava posta em sossego bem pode apanhar um sobressalto destes. E então diremos: que terra tão encantadora onde os rouxinóis cantam lindos trinados. Por onde andou Camões, Bernardim, Torga e tantos outros e, afinal, ai de quem não estiver ligado à "fina flor do entulho" da urbe; torna-se num outsider.

No emprego o drama é o mesmo. O snobismo impera. O princípio de Peter mais facilmente se verifica.

- Ó Tito, dá cá um abraço, há tanto tempo que te não vejo - dizia-lhe um colega.

- Cuidado com a faca - respondia o Tito.

- Qual faca?!...

- É que quando me estão a abraçar não vejo o que têm na mão, ironizava o Tito, querendo com isso significar que muitos abraços não passam de beijos de Judas.

Por vezes ainda se fazem algumas amizades que parecem sãs, mas o tempo vem muitas vezes provar o contrário.

Toda a gente se refugia em casa e exclui amizades. Dois casais amigos de longa data passavam férias juntos dividindo despesas no que parecia uma sã camaradagem.

Mais tarde soube-se que não só dividiam despesas como se dividiam entre si ao longo de anos sem os cônjuges saberem.

Só os vizinhos sabiam o que se passava porque o corno é o último a saber.

O que se passou com a Anita do Zé é frequente noutros meios onde predominam os serviços.

O Tito pensava que o Chico era o seu melhor amigo no emprego. Eles tinham passado longos serões organizando o combate antifascista antes do 25 Abril. Eram como a unha com a carne. Uma confiança absoluta em tudo passando até pela administração dos bens se fosse caso disso.

- Vais para fora. Precisas de dinheiro? Toma lá um cheque em branco e depois levantas o que necessitares, dizia-lhe o Chico.

E algumas vezes isso aconteceu sem problemas. O problema sério estava na mulher do Tito que desde logo começou a ser assediada pelo Chico que aproveitava todos os momentos para atingir os seus libidinosos objectivos.

E, enquanto tal, a amizade parecia ainda mais reforçada. Convites para aqui. Convites para ali. Venham cá jantar. Venham cá passar o fim de semana.

Enfim! O lobo vestido com pele de cordeiro.

Tinha sido um ano cheio de trabalho. O banco tinha progredido imenso. Os balcões tinham duplicado, bem como o cash-flow, os depósitos, os financiamentos, etc.

De seiscentos empregados já ia no dobro. E os patrões logo aproveitaram para meter os seus apaniguados. Mesmo os menos preparados.

As promoções eram por escala de cunha. Quanto mais forte a cunha, maior a promoção. Uma boa maneira de medir o mérito!

Naquele ano entrou o filho dum dos administradores. Enquanto a generalidade dos empregados trabalhava de sol a sol sem ganhar horas extraordinárias e escondendo-se nas casa de banho quando aparecia o fiscal do horário de trabalho, o protegido trabalhava só uma hora por dia. Na realidade tinha duas operações bancárias por ano para analisar. E quando foi necessário taxa-las com a respectiva comissão escreveu 3/8 do seguinte modo: 888 (três oitos).

Todas as pessoas tendem a atingir o ponto máximo de competência a partir do qual deixam de o ser. Este já tinha entrado no limite.

"Quem não tem padrinhos morre moiro", diz o povo e tem razão - repetia o Tito.

Mas, na verdade estes erros acabam por não passar. Estes iluminados têm sempre quem lhes abra os olhos, gratuitamente.

Está em causa a honra do convento com que todos estão preocupados.

Há assim um exército de escravos, mão de obra barata que nada valem para as hierarquias mas que quando elas não sabem, ou vão tirar nabos da púcara, ou pedem pareceres ou empurram para os outros resolverem mesmo ganhando um quinto do que eles ganham.

Depois, quando os problemas estão resolvidos, avocam-nos e atribuem-lhes uma pseudo autoria resolutiva que exibem junto dos superiores hierárquicos ou dos patrões.

O verdadeiro autor da solução fica incógnito, afastado do processo e, por vezes, lá caem algumas migalhas para os entreter e estimular a continuarem com a mesma dedicação a um tempo subserviente e zelosa.

Verdadeiras chefias saprófitas que vão sugando o tutano dos outros, vivendo à custa deles e desprezando-os quanto baste, para que ninguém se aperceba do seu real valor.

Até o Monteirito, subchefe da secção, dizia que era o caixote do lixo do chefe. Tudo o que apenas dava chatices ia para ele resolver. Depois de resolvidos os problemas, o chefe ficava logo pronto para os levar ao "Boss", ao Champas que o contemplava com choruda "surda".










V


Em 1972 a luta aqueceu substancialmente. Os banqueiros 'arrotavam postas de pescada' por todos os lados. Quando os bancários almoçavam por pouco mais de vinte escudos já eles pagavam alguns milhares no luxuoso e elitista Tavares Rico. O Sindicato tinha acabado de sair das mãos dos esbirros pidescos e dos seus acólitos da legião salazarista. A luta contra o colonialismo estava na ordem do dia. O povo estava cansado do salazarismo/marcelismo.

Após o 25 de Abril a liberdade passou a ser moeda corrente, e às vezes demasiado corrente mas, naquela época, com quase meio século de ditadura, as pessoas já deitavam "estado novo", pelos olhos. Ninguém falava a ninguém tranquilamente. Nunca se sabia de o interlocutor não seria um "bufo" a soldo da Rua António Maria Cardoso em Lisboa, sede da Pide. O medo é que guarda a vinha e, portanto, a melhor maneira de evitar chatices era manter o silêncio. Foi assim que viveu este povo mais ocidental da Europa. Murcho, triste, vestido de preto, sem alegria para nada, sempre ansioso, amedrontado, castrado. Não admira que fosse a terra dos três “F”: Fátima, Fado e Futebol.

Nos últimos anos, desde 1960 até 74 cada vez que chegava o boletineiro, o coração batia com mais força no peito de grande número de famílias. Famílias que eram quase sempre as mais desprotegidas, pois as outras bem instaladas sempre arranjavam maneira de fugir à guerra; não por convicções politizadas a salto para a estranja como uns poucos fizeram, mas por cunhas que fabricavam doenças inexistentes ou em alternativa arranjavam taxos longe do mato, longe do perigo...

Os profissionais, esses, não queriam outra coisa. Era vê-los a comprar apartamentos cada vez que faziam uma comissão de serviço. A tropa era um bom cartão de visita para outras coisas. O que roubavam lá dentro nunca chegava. Como os depósitos dos carros são pequenos era ver as criadas das avenidas novas encher os depósitos dos carros com jerrycanes cheios de gasolina que o Sr. Coronel sempre tinha em casa para as faltas.

É como diz o povo: quem se lixa é sempre o mexilhão! Na tropa o soldadinho de chumbo, o miliciano é que estava sempre tramado.
Era ele que vinha sempre encaixotado, era ele que escrevia os aerogramas que chegavam ao puto cheios de terra vermelha, era ele que sofria com as suas carreiras cortadas no trabalho e nos estudos; em suma, carne para canhão.

O bancário sabia disto tudo e tinha um grau de politização bastante elevado para a época. Mesmo que nunca tivesse ouvido falar em democracia, em socialismo, em comunismo, o bancário sabia que o regime estava errado e que um país não podia ser governado por um sacristão de Santa Comba durante muitos mais anos.

Falhara a tentativa do Emidio Santana para o liquidar. Falhara a tentativa do General Botelho Moniz. Falhara o Santa Maria, mas a forretice do ditador acabaria por lhe ceifar a vida ao sentar-se numa cadeira podre. Mas, antes disso o destino obrigou-o a representar uma farsa aviltante como Presidente do Conselho cujos despachos eram proferidos pela governanta que, desse modo, geria a mediocridade dos títeres do Estado Novo.






X


O Monteirito ficava pior que uma barata. Nunca tinha acesso ao segundo andar, o piso da administração. Até nas férias do Chefe, o Carrascão, lhe trocava as voltas para ele não ir queixar-se das habilidades hierárquicas. No Natal a situação agravava-se com as prendas dos clientes. O maralhal fartava-se de trabalhar, muitas vezes à borla, para que os interesses dos clientes fossem acautelados e atempadamente tratados; vinha o Natal e as prendas eram quase todas para o Carrascão. Era irritante ver passar os embrulhos para o chefe e ter de dar a morada dele para lhe levarem a casa os mais volumosos.

O Carrascão já não sabia onde meter tanta coisa numa casa de 4 assoalhadas nas avenidas novas. Era muito sovina. Não era capaz de dar nada a ninguém. Certo dia pediu a um funcionário que lhe trouxesse da terra umas garrafas de vinho do Dão. O rapaz foi de férias e quando regressou ao trabalho entregou-lhe a caixa com as 12 garrafas. Ficou à espera que ele perguntasse quanto era mas, em vez disso, recebeu um obrigado muito atarefado de quem tem mais que fazer...

O Guedelha barafustava todos os dias. Pelas cinco horas da tarde vinha o segundo correio que o Carrascão distribuía de imediato. À terça-feira o correio acumulava o atrasado do fim-de-semana; chegavam montes de papel. Depois dum árduo dia de trabalho vinham aquelas resmas de papel. O Guedelha ficava furioso e mal o chefe lhe punha o montão de correio em cima da secretária, atirava-o logo para o caixote do lixo... para depois o ir apanhar, contrariado mas cuidadosamente porque atirava para o lixo documentos que nalguns casos valiam muitos milhares de contos, tais como: aceites bancários, livranças, warrantes, cambiais, etc.



Entre outros sectores profissionais mais ou menos amorfos, os bancários tinham um grau de consciência política elevado.
Podiam nunca ter lido Engels, Lenine, Karl Marx, etc. mas sabiam que o regime estava podre, caduco e obsoleto.

O colonialismo causava um sofrimento enorme nomeadamente nas famílias mais humildes. Eram eles que serviam de carne para canhão. Os mais endinheirados sempre conseguiam safar-se. O nepotismo sempre foi uma instituição nacional a toda a prova e, ainda hoje, passados todos estes anos, continua a imperar o clientelismo de cariz político e religioso, como se diz modernamente na sociedade portuguesa, mas, na verdade, isso não é mais do que compadrio organizado, institucionalizado, que cilindra os mais capazes em benefício da mediocridade.

Quando as armas não são estas aparecem outras que dão pelo nome de assédio sexual, mas na verdade quem conhece estes fenómenos por dentro não acredita em assédios que só pontualmente terão lugar. O que acontece é que muitas das vítimas de tão atroz assédio são-no voluntariamente para subir na vida - é a chamada promoção horizontal tão frequente na esfera de acção política partidária bem como no exercício da actividade profissional nas pequenas, médias e grandes empresas.

Durante o consulado salazarista a mulher esteve indelevelmente marginalizada o que já se verificava durante séculos na sociedade portuguesa. Para ir ao estrangeiro tinha de ter autorização do marido. Para abrir conta bancária tinha de ter autorização do marido. Para casar antes da maioridade tinha de ser o marido o tutor caso fosse desconhecido o paradeiro do pai. Agora, em liberdade, há que aproveitar custe o que custar e, para se alcançar o máximo de promoção, vale tudo...Hoje em dia têm tudo a seu favor. De divórcio em divórcio vão aumentando o seu pecúlio e o seu pé-de-meia. Casam-se pelintras, sem nada, e logo o casal compra a casita e o carro. De seguida vem o filho, e basta um. Com este, a matrona já tem direito à casa de morada de família. Coitadinha diz o Tribunal de Família o quase sempre é confirmado e ratificado pelo Tribunal da Relação e pelo Supremo Tribunal Judicial.

Com um filho para criar a mulher fica automaticamente com direito a uma boa fatia do salário do ex-marido e à casa. Quando a casa foi comprada custou 15.000 contos. Depois vale 25.000 contos mas ela, através do expediente da Regulação do Poder Paternal que tem em vista defender as crianças, não paga mais que metade do preço de compra e ainda assim a prestações suaves... O marido esse vai para a pensão rafeira ou arranja amigos ou familiares que lhe dêem guarida durante uns tempos até conseguir reorganizar a sua vida.

Normalmente com os amigos não pode contar. Esses ficam todos do lado dela, pois quanto mais pécora mais amigos tem, enquanto ele fica cada vez mais isolado numa luta desesperada para reorganizar a sua vida pois os tarecos também ficam na famigerada casa de morada de família ainda que ela tenha mais apoio familiar para resolver a crise que é, muitas vezes, gerada deliberadamente pela cônjuge para daí tirar benefícios materiais.

Nunca se viu tanta promoção na horizontal. O que é importante é subir na vida. Cada um luta com as armas que tem. Realmente a mulher tem uma sorte invejável. Além do prazer da cama recebe ainda chorudos aumentos no ordenado que nunca receberia e que tanta falta fazem aos seus colegas chefes de família com filhos que ficam uma vida inteira a trabalhar arduamente sem aumentos ou promoções, a não ser os exíguos aumentos contratuais anuais que não chegam para fazer face à inflação e ao aumento do custo de vida.

Com este ritmo, um dia só haverá mulheres nas chefias e quiçá no trabalho, como já vai acontecendo em países mais industrializados. Entretanto, pode ser que o fenómeno vire e os homens venham a ter vantagens iguais, também na horizontal como vai acontecendo em países que já passaram por estas etapas sócio-profissionais.

Esta é a sociedade machista em que vivemos, em que o homem tem de ser um homem e aguentar com os traumas e com os devaneios da cara metade. Um homem é um homem. O sexo forte; a besta de carga da sociedade conjugal. O sócio espoliado quando a sociedade é dissolvida.

Algumas descobrem agora, após 30 anos de casamento que o marido, afinal foi sempre um chulo a viver à sua custa, e portanto pretendem o divórcio para tratarem dos netos e dalgum velhote viúvo mais endinheirado...

Os actores cómicos vão contando anedotas que parecem inverosímeis dada a comicidade e toda a gente se ri ficando a pensar nos caos que conhece e que muitas vezes já o prejudicaram pois que este fenómeno também prejudica as mulheres honestas; mulheres de um homem só, embora sejam cada vez mais raras.

Num dos Bancos de maior prestígio do país um dos seus directores teve de ser afastado porque na cidade onde exercia a sua actividade já só faltavam duas ou três mulheres que ainda não tinham ido com ele para a cama. Promoção a quanto obrigas. O escândalo já ia na rua e a imagem da instituição de crédito ia também pelas ruas da amargura. O melhor foi afastá-lo com uma choruda reforma.

Uma das empregadas, divorciada, tinha a benefício de inventário, um apartamento bem perto do Banco e perante o figurão era-lhe quase impossível dizer que não e, portanto, o mesmo apartamento ia servindo de lupanar, assaz barato, por empréstimo para todo o harém do marialva.

Pensava-se que as empresas públicas eram um alfobre destas misérias humanas o que muito tranquilizaria muita gente do sector privado. Acontece que após uma notável privatização bancária logo um dos administradores passou a dedicar-se à observação do terreno fácil existente, e como quem porfia mata caça, uma boa parte do dia gastava-o nessa tarefa que dá pelo tal nome de assédio sexual.

Mas não há então processos no tribunal; perguntarão. Não. Não há. Tem havido é aumentos e promoções...para as vítimas indefesas que caem como pássaros encantados por serpentes sem se importarem nada de serem assediadas.



Quem não utiliza estas armas vai ficando para trás e de tal maneira que chega a causar mal estar. Existem injustiças e distorções na sociedade portuguesa, nomeadamente nas empresas públicas e de capitais públicos que bradam aos céus.

Alguns safam-se porque conseguiram uma licenciatura e, portanto, como o grau de preparação é notório, as hierarquias vêem-se forçadas a aproveitar esses valores, embora dando-lhes o mínimo, uma côdea para se entreterem e nada mais reivindicarem.

Como trabalhar naquilo que se gosta já é, de alguma maneira uma compensação, as chefias pagam aos licenciados com trabalho e mais alguns trocos... para se calarem. Os ordenados chorudos e regalias são para eles, que não sabem decidir sem os licenciados e mesmo assim dão erros de palmatória bem pagos nos tribunais, mas como são bons lateiros do tipo 'yesmen' estão sempre bem, pois não levantam ondas e são semelhantes aos bonzos.

Os outros são meros técnicos que lhes fazem a papa para brilharem junto dos parceiros da gestão que, como gerem bens alheios ou públicos de modo irresponsável, estão uns com os outros como Deus com os anjos!...

Hoje em dia não temos luta de classes. A luta de classes morreu com a democracia que temos, onde existe, dizem, igualdade de oportunidades para todos. Mas a realidade é bem diferente. Que o digam os candidatos à advocacia. Só aqueles que tiverem recursos para financiar o estágio em regime de horário laboral poderão completá-lo.

Os outros tiraram o curso na mesma Faculdade mas terão de jogar no Loto para financiarem o estágio. No regime salazarista o estágio era pos-laboral, no escritório do patrono e após 18 meses de prática e umas oficiosas feitas pelo meio iam para a 'barra'.

Com esta democracia, tão gostosa nos dias de Abril, criam-se dificuldades sobre dificuldades para vender algumas facilidades que engrossam as contas de uns quantos corruptos que nunca dão a cara e não se sabe bem onde se encontram.

São os processos nos tribunais que levam anos e anos para despachos que deveriam ser lavrados em horas, são os gerentes bancários e gestores a funcionar a 10% por operação, são os professores à espera dos presuntos, é a P.J. com as negociatas da droga não queimada e que desaparece, são os ministros que não tinham nada mas logo recebem chorudas heranças que lhe dão para casas de dezenas e dezenas de milhar de contos, são as organizações representativas dos lavradores, dos comerciantes, dos industriais e dos trabalhadores além dos partidos que recebem receitas com proveniência incógnita, mais parecendo uma lavagem de dinheiro de origem desconhecida mas que passa por Washington, Bonna, etc. etc.

A corrupção chega a ser de natureza puramente intelectual. Quem tem de decidir e tem dois pesos e duas medidas, o que é senão corrupto? Quem tem nas suas mãos o futuro de famílias e decide a seu bel-prazer conforme a cor política, sindical, religiosa, clubística ou qualquer outra o que é?

Bem diz o Profeta Salomão: "O amor ao dinheiro é o princípio de todos os males."
O dinheiro tudo compra e tudo corrompe. O caso do Corretor da Bolsa de Lisboa é paradigmático. Alto, elegante, bonitaço, aparecia em todas as colunas de jornais do tipo 'Vip'. Revistas coloridas de que tanto gostam as cabecinhas ocas quais costureirinhas a sonhar com um príncipe encantado que nunca chega apesar de se matarem com jejuns farisaicos tão inúteis como os que Jesus denunciava.

O cavalheiro tinha pose. Havia fotografias que o apresentavam em estilo presidencial no seu escritório da baixa alfacinha rodeado de azulejos azuis e mobília clássica de pau preto cheia de torneados. Fato completo, casaco de jaquetão, um verdadeiro gentleman. A confiança nos meios financeiros era total. Ele punha e dispunha parecendo que mandava mais nalguns bancos do que as próprias administrações. Não havia conselho de crédito que não decidisse 'em conformidade'.

A Bolsa de valores estava em alta. Os títulos valorizavam-se todos os dias. Havia quem não pensasse em mais nada. Nos meios financeiros muita gente nem trabalhava. Investia, jogava na Bolsa, fazia o apuramento dos seus lucros para mais investir. Gabava-se dos seus lucros. Pedia financiamentos para investir e investia a crédito.

- Já hoje ganhei mais na Bolsa do que durante toda a minha vida a trabalhar nesta merda deste Banco, dizia um Inspector bancário que passava os dias agarrado ao terminal informático contabilizando os seus créditos e lucros.

A situação gerava discussões acaloradas, tanto mais que já em 72 a Bolsa tinha dado o 'berro' e muita gente ainda se lembrava desse crash que como sempre enriqueceu alguns e pôs na bancarrota muitos mais.

Nem toda a gente embarca no lucro fácil que considera desonesto.

É imoral ganhar dinheiro sem nada fazer. Na verdade eles ganhavam mais num dia que muita gente não ganha a trabalhar todo o ano.

O capital, contudo, não tem alma. O que importa é ganhar. Como, não interessa, desde que a policia não nos venha prender, está tudo bem. É esta a óptica de muita gente que considera todos os outros uma cambada de parvos que não sabem aproveitar o que a sociedade capitalista lhe oferece.

Ser honesto numa sociedade de trafulhas, destoa. É o mesmo que ir a um funeral vestido de vermelho.

Não é por acaso que a sociedade não promove quem a denuncia. Fulano não serve. É pena que pense daquela maneira. Não é dos nossos. Não é parvo mas é comunista, ou ainda pior, pois não está inserido em nenhum clã. Importa subjugá-lo para não ser um fermento a levedar o pão da justiça social, da revolta e do inconformismo.

O nosso homem, corrector de eleição, não tinha estes problemas. Bem falante, bem vestido, com boa casa na Quinta da Marinha, sempre de braço dado com as altas figuras do governo e da finança, estava como peixe na água...

Os fins de semana no Algarve já não tinham significado. Que maçada aturar estes chatos de todos os dias também na Marina de Vilamoura.

- Olá , como está , tá bom?... então como vão os meus papéis? Queria ver se lá para o fim do ano comprava um barquito para vir da Quinta da Marinha para Vilamoura directamente. Trate lá da minha vidinha, confio em si!...

- Esteja descansada Senhora Viscondessa que o meu Gabinete está atento à evolução do mercado apesar de o Governo ser sempre uma surpresa. Esta democracia é uma desgraça... As greves, as reivindicações, esses esquerdistas não nos dão sossego e quando estamos tranquilos é como sabe.... sai-nos pela proa uma abrilada!

Era uma maçada aturar toda aquela gente a fazer perguntas. Acabava por não ter fins-de-semana. Passou a ir para Paris, Londres, Roma, Atenas, etc. Alguns fins de semana custavam o que muitos trabalhadores não ganham durante um ano, mas isso que importava. Desde que não tivesse de aturar tanta pergunta repetitiva, justificava-se o êxodo temporário para longes terras que afinal ficam só a duas horas de avião.

Os bons hotéis de Paris têm piscina olímpica aquecida. Depois a sauna com aquelas massagistas parisienses eram um deleite. A lagosta suada, o salmão, o caviar regado com champanhe Moete 86 são divinais e que importa o preço. À noite o Moulin Rouge na Pigalle com o bom charuto de Havana e a escapadela a pretexto de negócios com corretores do mercado francês proporcionavam fins-de-semana maravilhosos.

Depois saía de Lisboa na sexta-feira e chegava na segunda-feira. Quando chegava o motorista já lá estava com o Ferrari-Testarrossa. Regressava sozinho. Atrás vinha o outro carro com a família. Chegava sempre primeiro à Quinta da Marinha: um verdadeiro campeão que a polícia tolerava pois um carro daqueles não foi feito para andar nos limites de velocidade. Na Bolsa, na sociedade, na família, nos meios financeiros...o maior corrector! Até na estatura com o seu metro e noventa era o maior...

Procurado pelos ministros, pelos banqueiros, pelos gestores de todas as empresas, nacionais e até internacionais, ele era o melhor e o maior Corrector da principal Bolsa de Valores, o único com escritório de luxo na Baixa.

Pouco tempo durou o êxito. A massa falida acabaria toda nas mãos do respectivo administrador síndico designado pelo Tribunal Cível.

Os Bancos andavam às aranhas com a contabilidade bolsista. Ele era para muitos o único corrector com idoneidade suficiente. O único com quem se devia trabalhar e em exclusivo.

Se ele sacava cheques é porque o Banco lhe era devedor. É porque a sua conta estava habilitada e se não estava é porque a escrita do Banco estava atrasada... Pague-se a descoberto. Não há problema. Os Directores do Banco disputavam a oportunidade de autorizar, a tão ilustre figura, os descobertos que fossem precisos. Nunca devolver um cheque sacado pelo nosso Corrector era questão de honra.

- Tem créditos? - perguntava o caixa para a Contabilidade.

- Tem um crédito de 100.000 contos - respondiam - e o cheque era pago de imediato.

No dia seguinte, perante outro cheque, o caixa voltava a perguntar: - Tem créditos? Tem. Tem um de 100.000 contos. E voltavam a pagar com o plafond do mesmo crédito depois de terem sido pagos cheques de valor muitíssimo superior ao crédito existente.

A burla estava consumada. Os cheques sem provisão não foram devolvidos atempadamente. Era importante agir mas como? Trata-se do nosso melhor Corrector. Uma queixa-crime apresentada contra ele é o mesmo que apresentá-la contra nós próprios. E os favores que lhe devemos. Quantas vezes é que ele nos informou para vendermos as acções porque iam baixar e comprarmos outras que iriam subir. Para aplicarmos algum nesta ou naquela empresa porque era a primeira emissão e ia dar dinheiro, etc. etc. etc.

Com que cara é que vamos apresentar queixa contra ele. Toda a gestão do Banco ganhou rios de dinheiro com ele. Até o Presidente do banco passava o tempo a falar com ele ao telefone para ter as novidades em primeira mão. O melhor será fazer um acordo concedendo-lhe um prazo dilatado para pagar nomeadamente com a cláusula de 'melhor fortuna'. Foi um engano. Não houve dolo. Portanto, paga quando puder e sem juros.

Pagou algumas prestações menores. Deu em hipoteca a vivenda da Quinta da Marinha. Continuou com o Testarrossa em raids pela marginal fora até à Capital que a polícia já sabia quem era e não incomodava o senhor Corrector; tão amigo do Ministro da Administração Interna que também mora na Linha, na sua nova vivenda de 200.000 contos, comprada sem vender a casa de Lisboa e sem receber qualquer herança.

Também este quando foi questionado sobre a fortuna defendeu-se de imediato dizendo ter feito aplicações na Bolsa e, pasme-se: quase toda a gente perdeu dinheiro na Bolsa desde o dia em que o Primeiro Ministro inadvertidamente disse haver lá muito gato por lebre. Só uns quantos ganharam e muito. Antes de estarem no Governo andavam, como diz o povo, com uma mão atrás e outra adiante. Agora, de repente, a auferir um ordenado que não chega a um milhar de contos/mês, multiplicaram enormemente o património e a vida faustosa que nunca tinham tido, e mesmo assim dizem que a classe política está mal paga e por isso qualquer dia não há valores no hemiciclo.

É o que se queira como dizia o Barrigas de Sintra que os conhecia bem e por isso enquanto foi gerente bancário enchia-lhes a casa com borregos inteiros, e nem a inspecção do banco lhe perguntava porquê nem ousava importuná-lo.


Tinha acabado de receber o produto duma OPV (Oferta Pública de Venda) com o valor de um milhão de contos.

As dívidas acumulavam-se e nunca mais saía delas por mais que se esforçasse. O nível de vida obrigava-o a dispêndios enormes com recepções aos amigalhaços todos que o tinham protegido.

A Quinta da Marinha nos fins de semana mais parecia um acampamento de vedetas.

O barbecue não dava rego para tanto grelhado. Vinho era às caixas, e das melhores reservas. Lagosta era às caixas. Cada fim de semana custava tanto como os de Paris.

- Transfiro o crédito da OPV para o U.B.Suisse. Saio de carro até‚ Madrid e depois apanho o avião para Lausanne. Aí requisito um cheque bancário e sigo para Bogotá. Encontramo-nos no Hotel Plaza depois de amanhã. Entretanto, telefono para casa com outro nome - confidenciou o Corrector para a mulher - enquanto esta lhe ia fazendo as malas para a viagem do regresso forçado.

- Tu levas já estes 500 mil contos nos fundos das malas divididos pelas malas dos miúdos. Dizes-lhes que vamos de férias mas que não digam a ninguém por razões de segurança e para não assaltarem a casa. Aos empregados dizes que demoramos pouco tempo e que estamos no nosso apartamento de Vilamoura, mas que não digam a ninguém senão é um inferno, cai-nos lá tudo no outro dia e descobrem logo que estamos em parte incerta.

Assim fez. No dia seguinte, logo pela manhã, meteu-se no carro e dirigiu-se a Madrid. Só parou em Badajoz para tomar o pequeno almoço. Num carro daqueles era fácil parar só em Madrid mas a fome apertava e o stress tornara-lhe os membros hirtos e doridos. Havia que desenferrujar as pernas. Já não aguentava o acelerador.

Ao sair do café ainda apanhou um susto na zona das lojas dos caramelos. Pareceu-lhe que alguém o tinha reconhecido, mas meteu-se logo no carro e arrancou preocupado com a matrícula do carro que conduzia, pois era portuguesa. O ser reconhecido é uma chatice, pensou consigo próprio. Foi assim que o pobre do Luis XVI foi apanhado quando estava quase em liberdade. Ainda bem que a minha cara não vem nas moedas nem das notas senão já estava denunciado mesmo em Espanha onde pagou a despesa com escudos.

Voou para Madrid onde tinha uma cliente viúva dum banqueiro espanhol que o visitava com alguma frequência em Lisboa. Parou no Paseo de La Castellana e bateu à porta da D. Mercedes Dollores de Garcia y Calderon.

Estava em Madrid para uma reunião dum sindicato de Bancos internacionais para uma operação bancária de vulto no âmbito da CEE, coisa para muitos milhões de contos.

A operação tinha a ver com a construção da nova ponte sobre o Tejo e várias auto-estradas bem como ainda o TGV que havia de ligar Lisboa a Paris.

- Como está... meu bom amigo, por cá , disse-lhe a D. Mercedes recordando-se do bom português aprendido no Estoril e no Algarve com o jet-set luso-espanhol.

- Tudo bem obrigado! Já tinha saudades da minha boa amiga - respondeu-lhe de modo amistoso.

Sentou-se na luxuosa sala revestida a mármore de carrara no dúplex de 10 assoalhadas da D. Mercedes.

Bebia apenas um Jerez pois estava com pressa para a reunião que começava da parte da tarde pelas catorze horas.

- Estou muito contente por vê-lo por cá, é pena não ter mais tempo, sinto-me tão só... Podia até ficar cá em casa. O quarto de hóspedes está sempre disponível para si. Um casarão destes sempre cheio de movimento; mas desde que faleceu o Alvarez nunca mais houve vida neste convento.

Era uma viúva ainda nova, guapa e cheia de salero, muito sexy. Não tinha mais de 40 anos. Naquela fase em que uma mulher não é nova nem velha, mas sim apetecível.

O convite era tentador, mas havia que desaparecer quanto antes.

- Sabe, estou à espera duma chamada do Union de Banque Suisses para saber qual é o meu saldo actual com os juros capitalizados, para lhe passar um cheque para aplicar na Bolsa em Lisboa - dizia ela - ao mesmo tempo que se ia sentando com uma mini saia bastante justa que o calor madrileno de Agosto fazia subir ainda mais.

Ao ouvir isto ficou um tanto hesitante. Ao vê-la sentar-se ficou ainda mais excitado. A viúva sozinha em casa e o cheque à sua ordem com umas centenas de milhar de dólares não era coisa despicienda. Mal ela sabe como essa massa me faz jeito nesta altura do campeonato, como ele costumava dizer no escritório e agora pensava só para si.

- Está bem. Então passo pelo Hotel e trago as malas, lá para o fim da tarde, depois da reunião. O.K.? - perguntou.

- Faz muito bem! Não esperava outra coisa de si. Cá fico à espera, respondeu a viúva em tom dolicodoce como quem acaba de receber uma prenda inesperada.- Não precisa ir jantar fora. Quando chegar tem cá aquela paelha que tanto gosta de acompanhar com o palhete da sua terra, da região de Colares - acrescentou.

A D. Mercedes passou a tarde a jogar as paciências num nervosismo miudinho de contentamento que a adrenalina não deixava travar.

Quando a empregada lhe trouxe o chá apanhou um susto. Caiu das nuvens onde o seu espírito pairava ao sabor das suas etéreas fantasias.

O pêndulo do relógio de sala batia os segundos num tic-tac exasperante. Os minutos pareciam-lhe horas. Cada vez que distribuía as cartas olhava para o relógio cujo pêndulo com os movimentos isocronos lhe sugeriam algumas estranhas sensações.

Eram já dezanove horas quando o corretor bateu à porta. Nessa noite a empregada tinha folga mas de qualquer modo teria sido dispensada. A D. Mercedez levantou-se como uma mola. Arranjou o cabelo. Pulverizou-se com Anais da Cacherel e dirigiu-se para a porta. Abriu suavemente como quem não tem pressa e, nervosa, viu perante si um verdadeiro sibarita em fato azul, cabelo liso à Rodolfo Valentino com uma linda rosa vermelha na mão, envolvida em verdura e celofane, que iria alegrar o solitário de cristal da D. Mercedes, por algumas horas.

Jantaram a paelha cada um em cada topo da longa mesa onde por vezes se sentavam mais de trinta pessoas, sempre aberta ao longo da sala, com um enorme castiçal em prata de sete braços quase igual ao que estava na Sinagoga do falecido marido.

Pendurado do teto caía um enorme candelabro em cristal que iluminava no topo da sala o retrato a óleo do banqueiro desaparecido, financiador daquele luxo principesco.

Por cima do aparador e das cantoneiras viam-se verdadeiras obras de arte em cristal que, nas viagens com o falecido marido, tinha comprado em Murano e Praga, bem como outras oferecidas por clientes cujo crédito ficou muitas vezes impunemente mal-parado nas prateleiras do contencioso bancário.

Jantaram e passaram à sala de jogos onde tomaram o café e começaram a jogar uma partida de xadrez?

As contrariedades dos negócios são constantes. O Governo socialista era uma desilusão completa. A inflação. A legislação laboral. Os horríveis impostos sobre os rendimentos eram insuportáveis. Quando é que o PP ganharia as eleições? Eu bem votei Aznar mas há para aí muitos comunistas encapotados que acabam por dar a vitória a esse Gonzalez que, se nunca prestou como advogado, como é que pode ser bom presidente do gobierno – desabafava a D. Mercedes.

- É verdade minha boa amiga. Em Portugal estamos melhor. Os socialistas há muito que foram arredados do poder. O socialismo foi metido na gaveta para sempre quando o Soares viu o caso mal parado. Pena é que o Freitas não tenha conseguido um score eleitoral mais elevado para obrigar o Cavaco Silva a incluir no programa do governo os princípios da democracia cristã. Mas mesmo assim, graças ao Governo, tenho feito os bons negócios que uma vez mais me trouxeram a Madrid - dizia-lhe o Corrector.

Aliás, mesmo que os socialistas ganhem as eleições não há problemas de maior, porque, entre uns e outros, a diferença não é grande, acrescentou ainda, com ar repousado enquanto colocava o charuto no cinzeiro de prata da sala de jogos da D. Mercedez.

Batiam já as onze. A viagem e o cansaço das horas da reunião que não existiu cansaram o viajante.

- Quando quiser pode ir deitar-se, sugeriu a D. Mercedez. Se precisar dalguma coisa é só tocar à campainha.

- Muito obrigado - respondeu - ao mesmo tempo que se despedia e ia subindo para o quarto que já conhecia do tempo em que visitava o casal quando o banqueiro ainda geria a Caja de Ahorros.

Deitou-se. Apagou o candeeiro de bronze açacalado, mas não conseguia dormir. Não sabia como havia de a atrair ao quarto. Encostou a porta, mas não a fechou.
Passaram alguns minutos e ouviu-se a porta a ranger suavemente. Voltou a acender a luz e o que era... O caniche! Saiu da cozinha e, estranhando o visitante, foi farejar.

A D. Mercedez adivinhou. Levantou-se e dirigiu-se ao quarto do hóspede à procura do caniche e, ao mesmo tempo foi perguntando, novamente, se o hóspede precisava dalguma coisa...

-Ah, é a Fani, desculpe. Vá-se embora para a sua caminha, ordenou, ao que o bicho obedeceu prontamente fazendo jus à proverbial inteligência canina daquele espécie.

Ela ficou. Estava com insónias. Volta meia volta sem saber porquê não conseguia dormir. Havia de abandonar o café para sempre.

- É verdade, disse-lhe ele, por vezes também me acontece o mesmo. Esta vida agitada que levamos não nos deixa descansar. Parece que temos de dormir à pressa.

Ela estava com um roupão de seda quase transparente e muito justo. Langeri francesa da Dior. As formas sobressaiam em toda a sua plenitude escultural. Simplesmente apetecível!

Aproximou-se da cama como quem vai endireitar a roupa e inclinou-se ligeiramente sobressaindo dois rechonchudos seios ainda rijos e agradavelmente volumosos.

Ao inclinar-se tropeçou ligeiramente no tapete e descaiu para cima do corrector que já estava deitado.

Ele, solícito, segurou-a, amparando-a com os braços e com o peito. Os rostos ficaram colados e envolvidos no perfume inebriante dela, enquanto ele soltava um tímido e sussurrado "querida"...A luz apagou-se de imediato enquanto o caniche uivava uma inexpressiva surdina de ciúmes.

Manhã cedo levantou-se. Prometeu voltar em breve, mas o que o preocupava era apanhar o avião que o havia de levar para lá do Atlântico antes que os credores o localizassem ou alguma notícia fosse transmitida pela comunicação social.

Levava consigo mais de dois milhões de contos de burlas. Só a um dos credores levou mais de um milhão e meio de contos e, coisa curiosa; meses depois foi localizado numa praia junto de Santiago do Chile. A polícia foi lá buscá-lo, como se impunha.

Para espanto geral apresentou-se como vítima. Estava a ser ameaçado e por isso teve de fugir; com muita pena dos miúdos, com a vida transtornada pela viagem abrupta que teve de fazer; o desgosto do pai e um rosário que nunca mais acabava. Recearam alguns que os credores acabariam por ir presos... por terem incomodado tão brilhante cidadão que tinha burlado dezenas de pessoas que caíram na patetice de quererem ganhar dinheiro fácil, com dinheiro já de si ganho com facilidades que só os privilegiados têm.

A comunicação social cujo sensacionalismo tanto contribui para a sua facturação não largava o arguido, agora detido e trazido do aeroporto com algemas. O que a polícia faz a um cidadão que só derreteu vinte milhões de contos dos outros...

Com um pouco mais de tempo de antena apareceria uma subscrição pública para auxiliar o meliante.

Lá diz o povo na sua sabedoria, que aliás nem sempre acerta porque em tudo há excepções: "Quem rouba um pão é ladrão, quem rouba um milhão é barão !"

Entretanto, o Tito apurava no Banco o total do prejuízo causado pelo meliante que se cifrou em dois milhões de contos que o erário público pagou por se tratar dum Banco nacionalizado, cuja administração, nomeada pelo governo pela fidelidade política, se estava borrifando para o cash flow.

É esta a sociedade que temos. Foi uma sociedade igual a esta que levou Alexandre Herculano a refugiar-se no Vale de Santarém onde se revia melhor a tratar das oliveiras que a lidar todos os dias com uma cáfila de malandros que singram quanto querem como impolutos cidadãos a quem toda a gente se curva. Na verdade, homens há poucos, há muito mais carneiros subservientes, bajuladores e parasitas.

Tal como na prostituição cada um luta com as armas que tem. De facto há pessoas para quem os princípios estão ao nível da vileza mais repugnante.

Foi esta sociedade que levou Trindade Coelho ao suicídio depois de gastar as tábuas do escritório, de tanto andar dum lado para o outro, matutando na crueldade social que o envolvia. Nem a dedicação da esposa e do filho o conseguiram salvar da garra adunca do servilismo social, para quem a verdade e a justiça são coisas menores, face ao lucro fácil e ao bem estar material ainda que à custa dos outros.

O rosário das vítimas nunca mais acaba. No dia-a-dia há inúmeras pessoas que sofrem as agruras de terem coluna vertebral esmagados pelos yesmen que sobem na vida às costas dos que foram temperados na forja da autenticidade dos princípios; "antes quebrar que torcer".

Campeia neste mundo uma qualidade de indivíduos que não olham a meios para atingir os fins. Vivemos numa sociedade sem valores e não admira que tantos jovens se entreguem aos estupefacientes quando se vêem desamparados por todos e até‚ pelos mais chegados. Vencer é a palavra de ordem. Vencer a qualquer preço. Não importa como, o que é preciso é passar à frente, custe o que custar.

- Há os loosers e os winners, dizia o chefe do Tito injectado pela filosofia da administração que lhe pagava principescamente.

Pretendia assim levar o pessoal a uma maior escravização. Não se estimulavam os princípios da solidariedade, o espírito da entreajuda face às dificuldades surgidas no trabalho. Há os loosers e os winners era a palavra de ordem que transformava amigos de sempre, em competidores cegos por uma promoção ou um aumento de umas quantas centenas de escudos. Até a terminologia é adulterada para causar mais impacto.

E ninguém diz nada. Tudo se cala. Magister dixit!

Numa sociedade onde as pessoas são consideradas pelo que têm, e não pelo que são, tudo pode acontecer.

É neste sentido que a juventude está a ser dirigida. O egoísmo levado às últimas consequências. O equilíbrio social tem de ficar extremamente instável. Caminha-se para uma sociedade de paranóicos cujo deus é o dinheiro e não há Eclesiastes que socorra tantos infelizes a caminho do precipício.

Já o Profeta-Rei Salomão dizia que; "o amor ao dinheiro é o princípio de todos os males".

De facto, por ele dissolvem-se famílias que não têm o suficiente. Por ele fabricam-se famílias que o acumulam. Por ele mata-se e violenta-se tudo e todos. Ele compra os bens e as consciências. Nada lhe resiste. Os amigos separam-se. As famílias desagregam-se. Os estados hipotecam-se. A ignorância promove-se e usa borla e capelo. A peixeira com dinheiro é melhor candidata ao parlamento que o filosofo sem vintém. Terá sido a invenção mais nefasta da sociedade. Uma chaga social sem cura. SIDA sem antídoto.

O próprio povo o exalta. Quem não tem dinheiro até os cães lhe ladram à ilharga. Destes simples conceitos ao despique e ao desafio é um passo. Em vez de solidariedade temos competição; em vez de amizade temos sobranceria; em vez de afecto temos calculismo; em vez de altruísmo temos contabilidade.

Por isso Jesus Cristo deserdou do reino dos céus, com a autoridade que só Ele tinha, aqueles que têm muito, os ricos, os poderosos, os oligarcas e plutocratas.

- Vai, vende tudo quanto tens, dá aos pobres e segue-me.

- É mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no reino dos céus.

- Ai de vós ricos que já tendes o vosso galardão!

Não admira que séculos mais tarde Proudhon venha dizer que a propriedade é um roubo. De facto, que direito têm uns a ter em excesso aquilo que faz falta à sobrevivência de tantos outros?

É justo que eu esbanje o que faz falta ao meu irmão para o seu bem estar elementar?

Quando se inicia uma revolução a esperança nasce para os mais desprotegidos da sorte. Os idealistas pensam que desta vez é que é. "O povo unido jamais será vencido!" Mas, no dia seguinte o povo, que afinal nunca esteve unido, já está semi vencido. Dão-se três passos adiante, para se darem dois para trás. Depois, lentamente, vai-se avançando por decreto, mas a justiça social é sempre mitigada, e, no meio da confusão, os oportunistas enchem-se como nunca.

Em 25 de Abril havia, como hoje, muita gente sem casa. O país era uma quinta fechada. Ninguém podia sair para o estrangeiro que não fosse da confiança do Governo Salazarista. Os emigrantes fugiam 'a salto'. Fugiam à fome, à miséria e à guerra colonial onde tantos jovens morriam ingloriamente. Nesta quinta em que viviamos até a necrologia dos jornais era censurada.

Vivia-se orgulhosamente só, com total isolamento político do resto do mundo. Quando os ministros dos negócios estrangeiros tentavam falar na ONU, ficavam a falar sozinhos pois todos os diplomatas se levantavam e saíam.

Quando hoje se critica a descolonização e os descolonizadores, daria vontade de rir se não fosse a tragédia que tem enlutado milhares e milhares de famílias totalmente destroçadas pela carnificina que esse demente ex-colaborador da PIDE tem fomentado em Angola. Pretende o poder, mas deveria ser julgado em tribunal militar como os nazis. Há crimes que não deveriam ter perdão, e muito menos promoções. Finalmente ao fim de tantos anos de atrocidades a Comunidade para o desenvolvimento da África Austral (SADC) declarou o Sr. Savimbi um criminoso de Guerra.

É evidente que o sofrimento de tantos retornados que tiveram de abandonar os seus bens e haveres fugindo duma ameaça estúpida é injusto e desnecessário, tanto mais que os portugueses, se foram racistas, foram-no dum modo bastante subtil, nunca como no apartheid sul-africano ou como nos E.U.A. até ao martírio de Martin Luter King.

Todos os brancos africanos deveriam ter permanecido em África. Eram eles os detentores do know-how para desenvolverem os países africanos, nomeadamente na Guiné, Angola e Moçambique.

É espantoso como os países mais ricos (as ex colónias portuguesas) são os que lutam com as maiores dificuldades e isto porque não basta ter matéria prima: é necessário saber extraí-la e tratá-la.

Eram os brancos que possuíam esse know-how. Não por serem brancos mas por terem ido da Europa e frequentado escolas que os indígenas não tinham, a não ser em número muito limitado e com o apoio das organizações religiosas.


O cerne da questão está na marcha do processo pois, desde Norton de Matos que os conhecedores da realidade africana vinham insistindo na necessidade de promover a descolonização, lentamente, sem convulsões, mas quando se referiam a isso, até os delfins do sacristão de Santa Comba eram corridos e despedidos com um simples telefonema. Era esta a consideração que o ditador tinha pelos seus ministros, alguns deles ilustres professores universitários.

Portugal era uma panela de pressão quase a explodir quando os capitães saíram à rua nessa esplendorosa manhã de 25.Abril.74.

As mulheres necessitavam de autorização dos maridos para abrirem conta bancária, para terem passaporte, para se deslocarem ao estrangeiro e não tinham direito a voto se não soubessem ler e escrever.

Não havia divórcio, sendo inúmeros os casos de situações de facto, com miríades de filhos de pai incógnito cuja paternidade não podia ser reconhecida. O que Afonso Costa abolira Salazar recriara.

A ditadura política tinha reflexos directos no mundo laboral. As assembleias de trabalhadores eram minadas por elementos da PIDE e pelos inúmeros bufos espalhados por todo País.

Um simples comentário desfavorável ao salazarismo era suficiente para ser encarcerado e apodado de comunista e subversivo.

A Esquerda derrubou portas de casas que estavam fechadas para a especulação imobiliária. Foi assim que alojou muitas famílias. Passaram os tempos e quando se vai avaliar a obra feita verifica-se que muitos desses pobres sem casa arranjaram a maneira de ficar com duas.

O problema é tão grave que a edilidade tem observado via satélite o número de barracas existente para que esses cogumelos não proliferem. O bom portuguesinho aproveita-se logo. Se a Câmara dá casa a quem vive em barraca abandona-se a casa que temos e constrói-se uma barraca para beneficiar doutra casa.

O português tem uma imaginação bastante rica. Põe sempre o engenho e a arte de se locupletar com alguma coisa de modo limpo, sem envolvimentos policiais, sem chatices!

Será o melting pot das raças de antanho que nos corre desordenadamente nas veias, sem sabermos qual o comportamento desejável?

Ainda assim trata-se dum país sui generis. Um país onde o Presidente da República manda uma mensagem à Assembleia da República sobre a comunicação social e no mesmo dia recebe resposta insolente dum simples jornalista do canal pago com os impostos dos cidadãos. É um grande país! Grande na burrice, grande para os sacripantas e bigorrilhas que, como diz o povo, se queres ver o vilão mete-lhe a vara na mão.

Como tenho um microfone sou tanto como o mais alto magistrado da Nação, e vai daí qual presidente qual carapuça. - Olhe lá que também tem telhados de vidro... e se me chateiam ainda digo mais. Parlamento para quê? A TV resolve o problema e responde em directo, sem rede, ela também é a TV de todos os portugueses, pois então! É um país de bananas governado por sacanas, como dizia o Bordalo Pinheiro.

Parafraseando o Grande poeta popular António Aleixo, polícia, cauteleiro, finado com tuberculose, em Coimbra, é caso para se dizer:

"Sei que pareço um ladrão,
mas há muitos que eu conheço,
não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço!"

Cada vez há mais engravatados. A gravata é um símbolo de prestígio. Quem não usa gravata não é bom chefe de família. É como o carro. Quem não sai de casa de carro e vai para o trabalho nos transportes colectivos é no mínimo um pelintra.

Por isso, alguns dos vizinhos do Tito que são mesmo pelintras arrancam com o carro para a estação mais próxima e deixam-no a secar durante o dia todo.

À noite regressam a casa de carro e os vizinhos pensam que o meio de transporte que usam é o carro mas, na verdade, viajam no meio dos pretos a cheirar a catinga e o pior é que também viajam no meio dos brancos que só tomam banho de mês a mês, e ainda cheiram pior que os pretos. Mas isso é o sacrifício que se faz para manter as aparências sociais.

É importante parecer rico. Mesmo que a conta bancária esteja a zeros e o gerente ande à nossa procura para não devolver o cheque que pagou o fatito novo sem ter provisão. É importante continuar a lanchar na Mexicana ou no Califa com os miúdos e se não tiver um apartamento no Algarve, aluga-se nem que custe centenas de contos. É o satatus.

Na Caparica, no meio dos pretos com o garrafão na mão, nem pensar. Ou Benidorme ou Algarve. Nem o bronzeado é o mesmo. Aquelas cores, aquele bronzeado tipo Scheychelles é indispensável para o chefe ver que estamos cada dia mais belos mesmo quando a marreca já começa a vergar, os papos dos olhos e os pés de galinha não largam por mais betume que se use antes de adormecer.

Vaidade das vaidades, tudo é vaidade, e nada há debaixo da roda do sol que não seja vaidade, como diz o Eclesiastes.

A sabedoria Salomónica é de todos os tempos. Já existia antes dos carros pagos a prestações durante cinco anos. Apodrece o carro antes de estar pago, mas lá se vai aguentando a aparência de rico ao mesmo tempo que a poluição vai aumentando de modo incontrolado.



Y


Os governos sucedem-se e as expectativas vão ficando cada vez mais goradas. Os problemas sociais ficam adiados e as classes possidentes cada vez se distanciam mais dos pobres, dos trabalhadores, dos sem abrigo, dos excluídos da sorte.

Há pouco tempo estava em causa o aumento das condições de vida e o respectivo nível.

Hoje os parceiros sociais vão afirmando que o nível de vida é secundário, o que importa é dar emprego ao maior número. Mas o que acontece é que o desemprego tem vindo a aumentar assustadoramente e dum ano para o outro duplicou na Europa.

As empresas não pertencem a quem lá trabalha. Pertencem só ao patrão que nada divide a não ser pelos que lhe são próximos, e esses são uns quantos que não deixam aproximar a maior parte para eles poderem brilhar à vontade.

O que está presente nos relatórios e contas não é o bem estar social que a empresa proporcionou à comunidade, nem o esforço dos trabalhadores para o engrandecimento da empresa.

O elogio vai todo para o génio empresarial. Esse sim fez progredir a empresa. Vejam os lucros que ela deu para dividir pelos accionistas, de entre os quais se destaca o patrão com mais de 50%, quando não mesmo os 100% distribuídos exclusivamente pela sua família.

Há trabalhadores que ao fim de 50 anos de trabalho passam à situação de invalidez presumível e são dispensados da empresa. Pois, pasme-se: ao fim de cinco décadas de esforço e trabalho muitas vezes árduo e sem uma única falta nem por doença, são feitas as contas e o trabalhador afasta-se sem uma palavra de apreço do patrão.

Não se pediria um jantar de despedida; nem uma lembrança que os trabalhadores guardassem na estante até aos seus últimos dias como recordação dos seus laços ao ambiente onde dedicadamente deixaram o melhor das suas energias para se afastarem já velhos, com escassa saúde e a contar os últimos dias duma vida tantas vezes de sacrifício material e moral, obrigados a fazer o que nem sempre deveriam para suprir as mazelas da empresa. Tudo acaba sem se ouvir sequer um; muito obrigado.

Se não forem os colegas a organizar um almoço para simbolicamente manifestarem o seu apreço, sairiam como entraram: incógnitos.

O patronato cuida das suas máquinas. Dá instruções para que sejam tratadas com todo o cuidado. São caras e imprescindíveis. Muitas são as normas de serviço sobre o assunto e chegam mesmo a responsabilizar os trabalhadores quando estas aparecem avariadas mesmo pelo uso.

Com os trabalhadores todos os cuidados médicos são um prejuízo que é necessário evitar.

O trabalhador não pode ter família. Esta não pode adoecer. Os prémios relacionados com os lucros são cortados quando o trabalhador falta por doença ou para fazer exames escolares cujo produto acaba por reverter a favor da empresa.

Os trabalhadores não merecem cuidados. São carne para canhão. A fome lucrativista empresarial é insaciável no que toca à exploração de quem trabalha.

Quando envelhece é mandado embora com a mesma dignidade com que os cães são abandonados na rua, por velhice ou por estorvarem.

Os filhos do patrão podem gastar a seu bel-prazer. A família toda pode viver no luxo e na opulência e muitos fundos, por vezes comunitários a fundo perdido, podem ser desviados para contas numeradas na Suíça não vá o diabo tece-las; mas para os trabalhadores nunca há nada para além do contratualmente exigível, após longas maratonas negociais que acabam em dilatórias Portarias de extensão.

O capital social da firma tem de ser bem remunerado para enriquecimento de uns quantos, mas o capital humano nada vale. Aqueles que fazem a empresa são meras peças substituíveis quando o patronato o decide e lhes dá na real gana.

O que é mais estranho é que muitos dos trabalhadores concordam. O espírito de subserviência é enorme e, na dúvida, o melhor é acatar a situação. Não levantar ondas, pois pode ser pior...

Os lucros são para nós. Os sacrifícios são para os que trabalham. Já estão habituados a isso, e sempre viveram com pouco.

Um rico não consegue habituar-se à pobreza, mas a um pobre não custa nada porque é o seu meio ambiente natural.

É assim a realidade. E ouve-se dizer que sempre haverá pobres. Não vale a pena remar contra a maré. Foi Jesus Cristo que proferiu esta sentença. Não se diz é se a referência era aos pobres de espírito ou aos outros.

Por isso também disse: Ai de vos ricos que já tendes o vosso galardão!

Está em causa uma revolução cultural. As sociedades não podem continuar a consentir as injustiças sociais que se encontram a cada passo. Não está em causa fazer correr rios de sangue inútil e criminoso pelas valetas do ódio e da inveja.

O que está em causa é a construção duma sociedade mais equilibrada, onde não exista a ameaça expressa ou tácita da incapacidade de ganhar o pão de cada dia.

Não é mais possível que eu esbanje o que faz falta aos meus irmãos, e isto é assim no concerto das nações e na sociedade em que estamos inseridos.

O tempo do despotismo já lá vai, ou tem mesmo de ir. Ou entra em vigor a solidariedade activa para amparar com dignidade os que por qualquer razão estão afastados dos circuitos sociais, ou o barril de pólvora vai ganhando pressão e um dia será imparável a corrente caudalosa do rio da revolta social e política.


Luis XVI estava nos antípodas da existência dum Mirabeau da canalha. O luxo da corte pairava acima de todos os problemas sociais e, afinal, quem eram os pés- descalços para se amotinarem.

Tomar a Bastilha era uma ideia peregrina que só um arruaceiro poderia conceber.

O Dr. Guilhotine arranjou cura para maleitas que o simpósio farmacêutico não previa.

As mais elegantes cabeças rolaram numa carnificina deplorável, mas que não estamos livres de se repetir com outros protagonistas de sangue menos azul.

Para o apreciador distraído o Maio.68 parece ter terminado, mas é pura ilusão.

Enquanto houver Maios no calendário, os Maios aparecerão a agitar o status quo.

Aos bem instalados na vida é benéfico pensar que a luta de classes acabou. Dizia um adido cultural alemão numa recepção da sua Embaixada que o povo alemão já tinha atingido a sociedade sem classes.

- Somos todos burgueses, dizia ele para explicar ao Tito que a luta de classes em Portugal era um erro nos idos de 74/75.

Se o nível de vida é elevado para todos os cidadãos é fácil afirmar que a luta de classes não tem cabimento.

Mas, na generalidade dos países, os pobres são cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos.

Aí não são todos burgueses, mas apenas alguns. Alguns que esbanjam o que faz falta a tantos outros.

Não há dúvida que a luta de classes passiva ou activa tem de existir como uma imanência natural, pois casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.

Mas a luta de classes lato senso não se confina a uma sociedade mais ou menos fechada. Com efeito, ou há diálogo norte sul ou então a luta entre países será latente e grave ameaça pode surgir da parte de multidões desvairadas cujos países nada têm para lhes oferecer e que se lançarão nas jangadas do desespero à procura de pão nos países industrializados, com matérias primas quase gratuitas extraídas desses mesmos países de emigração, cada vez mais depauperados.

Demos-lhe um peixe mas não os ensinámos a pescar, diriam os orientais com a sua proverbial sabedoria.





Z

A Micas era mais nova que o Tito. Há dois anos que ele estava sozinho, abandonado pela mulher que lhe levou os filhos. Quanto à mulher já não estranhava muito. Estava farto de atender clientes no escritório que lhe perguntavam como é que elas se podiam ver livres dos maridos. Depois de várias acusações, todas caiam no mesmo tema; os maridos ganhavam pouco ou estavam desempregados.

O Tito também ganhava pouco. O sindicalismo castigou-o severamente. Havia dez anos que não era promovido. Embora tivesse ganho sempre um pouco mais que a Micas não era suficiente numa sociedade machista onde o homem era o chefe de família e como tal era pressuposto contribuísse de modo mais substantivo para os encargos familiares.

O Tito não via outra coisa senão os filhos. Quando o primogénito nasceu saía do trabalho a correr, chegava a casa e deitava-se na cama com o filho ao lado e olhava para ele durante horas, extasiado, como se não houvesse mais filhos no mundo. Aquela cabecita do tamanho duma laranja e os deditos fininhos que mais pareciam palhinhas, e o facto de ser tão parecido com o pai deixavam-no boquiaberto.

Mas, não há bem que sempre dure e mal que se não acabe! Pouco tempo haveria de ter para estes arroubos de paternidade. Duraram apenas doze anos, seis dos quais muito limitados dado que ao chegar a casa pela meia-noite depois de sete horas de trabalho e as restantes na Faculdade, a estudar à noite, pouco tempo ficava para os filhos, pois durante os fins-de-semana não levantava os olhos das sebentas para tentar fazer aos quarenta o que não pôde fazer aos vinte anos.

Não podia aperceber-se do que a mulher estava a maquinar. Depois de cinco anos e meio de estudos e exames chegou a casa com o peito cheio pela alegria de ter feito o último exame: Direito Penal - O Cadeirão - como os estudantes lhe chamavam na gíria dada a exigência do professor e o grosso volume da sebenta.

Para agravar a dificuldade o professor não seguia as teses da sebenta então existente, defendendo teses pessoais que os alunos só com grande dificuldade conseguiam captar e inteligir cabalmente.

Nos exames orais nunca se sabia se os alunos estavam passados ou não. Um dos finalistas perguntado durante o exame o que lhe faltava para acabar o curso, respondeu candidamente que aquele era o último exame que lhe faltava, ao que o professor lhe retorquiu que poderia ser a última cadeira, mas quanto ao ser o último exame isso poderia estar muito longe de ser verdade.

As Faculdades de Direito de Coimbra e de Lisboa eram rivais há longos anos. Os professores diziam que um 13 em Lisboa valia 18 em Coimbra, pelo que as pautas estavam quase sempre cheias de notas negativas. Ao terceiro chumbo, um dos alunos provocado pelo professor durante a oral perdeu as estribeiras e atirou com a sebenta à cara do professor, perante a estupefacção dos examinandos.

O Tito tinha com muita dificuldade ultrapassado todas as barreiras, ainda piores que a cilada que lhe fora armada no Liceu Camões pelo professor Vergalho que o chumbara deliberadamente, como se visse ali um inimigo de longa data a tentar enganá-lo por não se lembrar duma personagem da Morgadinha dos Canaviais que ele havia lido, anos antes, durante uma longa noite de leitura imparável.

Chegara a casa mais cedo nessa noite. Era o dia do último exame, marcado para as 20 horas.
Eram vinte e duas horas já estava à porta de casa, depois de ter levado alguns colegas a suas casas a quem habitualmente dava boleia, pois não tinham carro.

Mais de três dezenas de anos de vida esperando aquele dia. Como era trabalhador estudante não esperava pelo dia mas sim pela noite. E foi uma noite cerrada de breu que inundou a sua alma quando ao chegar a casa viu a Micas virada do avesso, supinamente irritada contra ele, mostrando-lhe uma cinta interior velha e rota, alegando não ter dinheiro para comprar nada, e que o Tito era o culpado...

- Um narcisista é o que tu és - dizia ela em tom provocatório - estou farta de ti e isto não passa de hoje. Estou farta de miséria - acrescentou.

- Mas o que é que eu fiz? Replicou o Tito estupefacto com argumentação tão injusta e deslocada de oportunidade, agora que surgiam perspectivas de melhoria de vida, com o curso acabado e com o escritório do patrono de portas abertas para começar a trabalhar na profissão com que sempre sonhara. Tudo soava a falsete naquele diálogo. Na verdade nunca tinha tido qualquer discussão com a mulher durante quase vinte anos de convívio e de casamento.

Ela, pela primeira vez depois de tantos anos, foi para outro quarto deitar-se ao lado do filho mais velho, abandonando o leito conjugal.

O Tito estranhou e, como nunca tinha acontecido um tal disparate, foi ao quarto do filho buscá-la para o seu quarto. Mais espantado ficaria quando viu a Micas a vociferar como possessa, os olhos esbugalhados, dizia coisas sem nexo e ao mesmo tempo fugia de casa para a rua em camisa de dormir, arrastando consigo os filhos, certamente para casa do cunhado, irmão do marido, alí bastante perto, concluiria o Tito.

Era já meia-noite. No dia seguinte era dia de trabalho. O Tito deitou-se esperando que a crise passasse e, no dia seguinte, foi para o trabalho, mas, ao meio-dia pediu licença e foi a casa do irmão para ver em que paravam as modas....

Ao chegar, a Micas estava a fazer o almoço e, estranhamente, imbuída daquele cinismo que as pessoas astuciosas sempre têm, ainda fez o almoço para o Tito que tinha ainda de regressar ao trabalho durante a tarde, acalmando-o.

Foi nessa altura que o Tito viu o filme todo, pois ao sair para o trabalho viu chegar num carro um amigo da família dela que esperava na rua. Então viu a Micas a correr e a enfiar-se no carro do amigo, e desaparecer a grande velocidade.





Era o fim de um sonho e o começo de um pesadelo!

Há feridas que só se curam com o pelo do mesmo cão!


Ao principio começou por se armar em conquistador, e várias foram as que se lhe entregaram aproveitando-se também da sua própria desgraça. Não aprendera a viver sozinho e esse facto só lhe complicou a vida, dando guarida a uma qualquer que lhe aparecesse disponível.


Uma amiga aqui outra acolá, uns meses em casa dele, outros meses em cada delas, mas nunca mais conseguia estabilizar-se depois da separação que já durava havia dois anos.

Não acertava com nenhuma. Solteiras, casadas, divorciadas, viúvas, de tudo conheceu um pouco, mas por isto ou por aquilo nunca conseguia um entendimento razoável com perspectivas de futuro.

Ficara sem filhos, sem casa, e só. Valeu-lhe inicialmente uma amiga que conhecera no Partido de que ambos eram militantes, que o amparou durante alguns meses, mas logo começaram os conflitos com os ciúmes dos filhos dela que tinham quase a idade do Tito.

Era viúva. Tinha uma vida bastante boa gozando da pensão que o marido, oficial da marinha, lhe deixara. Os filhos é que recearam ver o pai substituído e começaram a não suportar a presença dum substituto. O Comandante fora um homem bem constituído com muito bom aspecto, já com o cabelo grisalho; uma boa figura. O coração é que lhe transtornava a vida.

Qualquer coisa o cansava. Quando tinha crises corria para a janela na tentativa de respirar um pouco melhor, mas só à custa do comprimido de cortisona é que aquela maldita arritmia associada à asma o deixava serenar um pouco.

O pior de tudo eram as relações sexuais. Tentava mas acabava por desistir. Deixava-se cair para o lado como morto.

A mulher, azar o dele, era de muito alimento e não podia passar sem o conforto que o aconchego sexual proporciona. Ficava sempre esfomeada.

- Já lerpei outra vez - dizia ela, indiferente à angústia que causava ao herói de 4 comissões na guerra colonial angolana.

Além de doente ficava ainda mais transtornado com a ameaça velada da mulher quando insinuava ter de procurar um substituto e, por vezes, chegava mesmo a masturbar-se junto dele humilhando-o sobremaneira.

- Não prestas para nada. Ao que eu cheguei. E deixei eu o outro - o Cardoso - no altar à minha espera, por tua causa. Afinal não prestas para nada - dizia-lhe ela com acintosa crueldade perante o quadro clínico do marido.

Angolana, modernista, dava nas vistas sempre que saía à rua. Durante toda a década de sessenta viveu numa pequena cidade da província -Tomar. Muitas vezes saía à rua a fumar com uma longa boquilha e de calças. Os comerciantes vinham à porta espreitá-la e as pessoas paravam na rua a olhar para o espectáculo que afinal, anos depois, seria trivial e pacificamente aceite. O começo é sempre o mais difícil em tudo. Depois mudou-se para o litoral.

Como mulher era pioneira em muita coisa, desde a moda à política. Quem é que naquele período saía à rua durante a noite para frequentar reuniões clandestinas? O nosso Coronel não tinha hipótese de aguentar uma cabeça tão politizada, desinibida e hedonista.

Na rua onde morava vivia um construtor civil que estacionava o mercedes a faiscar para a varanda dela.

Era lá que a mulher do Coronel se sentava depois do almoço, a tomar banhos de sol e a ler revistas. Era um misto de varanda e solário. Os vidros eram translúcidos e quem olhasse para cima adivinhava a roupa que ela não tinha vestida. Normalmente sentava-se no cadeirão de vime em roupão semi-aberto, que, visto de baixo, deixava adivinhar as formas roliças mas bem proporcionadas da dona da casa.

O construtor adiantava sempre um pouco o estacionamento do veículo, para, ao sair, olhar para cima e espreitar pelo canto do olho.

Ela já sabia a que horas é que ele ia almoçar e quase ostensivamente, ia até à varanda com um ar semi-negligé‚ como quem não quer a coisa, querendo, pretextando arranjar as flores ou outra qualquer lida da casa.

Dias depois viu-a na paragem do autocarro para o centro da cidade. Estava sozinha. Parou o carro e ofereceu-lhe boleia que ela fazendo-se um tanto esquisita, logo aceitou.

Nesse dia deixou-a no largo da Câmara onde ia às compras à procura de chifon para mais uma blusa decotada e quase transparente.

Esquecera-se contudo dos enchumaços de espuma e teve de lá voltar dois dias depois.

Há coincidências pois, ao passar para o Banco para negociar um financiamento, o construtor volta a encontrar a vizinha e, de novo, oferece-lhe boleia que era irrecusável.

Aí já não a deixou no largo principal. Fez um desvio até ao miradouro donde se avistava o mar ao fundo com os barcos dos pescadores na faina para lá do Bugio.

Estacionou no meio do pinhal frondoso batido pelo vento. Os pinheiros eram baixos com copas que pareciam carapinha pois o vento não os deixava crescer muito. O carro ficava quase todo tapado pela ramagem. Havia mais uns quantos carros dispersos ao longo do pinhal vendo-se por vezes uma cabeça a subir e a descer junto ao condutor.

A mensagem era um pouco mais que subliminar. A música do carro era dos anos sessenta, aconchegante e estimulante para a ocasião. Música para constituir família como ela dizia...

O carro era largo e confortável. O banco de trás dava para quatro pessoas não muito anafadas e, portanto, chegava para se deitarem com algum conforto. Foi o suficiente para o inicio daquela aventura que havia de durar todo o tempo que durou a doença do infeliz Coronel.

O Tito apareceu no fim deste romance. A mulher do construtor também começara a desconfiar da falta de assistência em casa e, certo dia, ao ouvir o marido a estacionar o carro em frente da casa da vizinha ficou à espreita por trás da cortina e, qual não foi o seu espanto quando reparou que a vizinha dizia adeus ao seu marido por trás da cortina da varanda, enquanto ele esboçava um mal disfarçado sorriso para cima. Ficou elucidada.

No dia seguinte seguiu o marido no carro duma amiga para ver o que acontecia. No primeiro dia não conseguiu ver nada. O marido foi mesmo para a obra e, já tarde, saiu de lá, já depois do pessoal. Mas no dia seguinte viu-a ao longe na paragem do autocarro. O marido arrancou com o mercedes e deu-lhe boleia. Segui-os ao longe e estacionou à entrada do pinhal seguindo depois a pé por dentro das ramadas frondosas.

Apanhou-os com a boca na botija. Acabou o romance.

O Tito desconhecia esta história e mesmo que a conhecesse não alteraria muito o processo.

Estava sozinho. Carecia de companhia e tinha-a ali viva, fogosa e ardente, embora mais velha que o desejável para o seu gosto.

Depois do almoço os calores subiam ao clímax. Almoços sempre apetitosos. Caldeiradas de cabrito bem apimentados com gindungo excitava-os de modo imparável.

Nem o medo de congestão os travava. O Tito tirava a barriga das misérias de catorze anos de casamento amorfo e falhado, de insipidez total. Ficou estupefacto perante a doce realidade que o envolvia. Pensava até que todas as mulheres eram como a dele, mas viu que não. Também havia mulheres que gostavam de sexo como ele.

O 25 de Abril tinha ocorrido pouco tempo antes. Eram do mesmo Partido e naquele período vivia-se uma azáfama enorme na luta partidária e política. Muitos serões nas delegações partidárias e sindicais por vezes durante quase toda a noite.

Ao sair já não havia transportes e era preciso levar as camaradas a casa, muitas delas solteiras, divorciadas e sobretudo mal casadas.

O convite era tácito. Sobe para beberes um copo. E o Tito não resistia a subir e a beber um copo petiscando sempre um pouco mais para abafar a solidão que sempre fica em quem convive com muita gente mas, no fundo, não tem ninguém.



Depois desta fase surge a Laura, bastante jovem, vinte anos mais nova, mas muito vivida e experiente, bastante sabida, o que só mais tarde o Tito viria a constatar, pois, mulheres para ele eram sempre bem formadas como a sua própria mãe.
Apesar de nova já tinha dois filhos, um de cada pai, e um casamento desfeito depois de muitos abortos pagos a peso de ouro a parteiras que vivem de explorar a miséria alheia, até que o médico a obrigou a laquear as trompas.

Era o tipo de mulher que não dava felicidade a ninguém. Falsa, mentirosa, calculista, materialista, egoísta; só via cifrões à frente dos olhos. Até a avó dizia que ela só sabia coçar para dentro...

O que o Tito não tinha alcançado por ser demasiado ingénuo era o facto dos segundos casamentos serem quase sempre um negócio. Foi assim que o pai duma arguida por ele defendida classificou o seu próprio casamento desabafando quando queria salvar uma filha pagando as suas dívidas no tribunal; vendo-se incapaz de o fazer por estar descapitalizado por uma companheira que também lhe tinha saído nas encruzilhadas da vida solitária.

A Laura era muito prática. Um dos filhos entregou-o ao pai sem pestanejar e nunca mais teve contactos com ele. O outro deixou-o à avó, pois ela era demasiado senhora para se ocupar de tarefas tão comezinhas como tratar duma criança.

Viveu ainda alguns anos junta com o Tito mas acabaria por levá-lo à certa na Conservatória por ver que se ele morresse, sempre era mais uma casa que ela aproveitava, ainda que pagando tornas aos filhos do Tito.

Casou-se para ter casa à borla, pois nunca pagava nada, pretextando que se o Tito vivesse sozinho também tinha de pagar tudo. Assim foi comprando casas com o ordenado e, com a renda duma, ia pagando outras, que ia arrendando mobiladas fora do olhar das Finanças.

As viagens eram sempre um conflito generalizado. Certo dia em Paris os transeuntes pararam a ouvir o berreiro dentro do carro. O conflito incidia apenas sobre a rua a escolher para virar para o Arco do Triunfo o que poderia encurtar ou aumentar nalgumas centenas de metros a viagem. Isto em Paris onde apetece a qualquer um perder-se para ver mais daquela maravilhosa cidade.

Mas, nas outras capitais por onde andaram, os conflitos surgiam como cogumelos no inverno. Tudo servia. Aonde ir. Como ir. A que horas ir. Tudo servia para alimentar a guerra entre ambos. Só quando iam à Pigalle é que havia algum consenso por razões libidinosas.

Quando encontrava alguns jovens noutros grupos de turistas, logo queria seguí-los esquecendo-se do marido que, mais velho, dificilmente conseguia acompanhar o corridinho pedestre de monumento em monumento.

Uma imaturidade enorme que levou o Tito por vezes a admitir meter-se sozinho no TGV e regressar a Lisboa. Só não o fez porque nem sempre é fácil estar três dias dentro dum combóio e procurar a Gare St. Lazaire ou outra que para quem não conhece Paris suficientemente, não é fácil de localizar.

Em Veneza o conflito teve a mesma natureza, a mesma infantilidade. Mais valia andar com a Laura pela mão como os pais costumam fazer aos filhos para não se perderem.

Aí ameaçava atirar-se aos canais. Que se suicidava. Que o Tito era um malandro só comparável com o imperador homónimo que tinha visto em Roma. Que tinha casado com uma fera pior que as que tinham comido os cristãos no Coliseu.

E mais uma viagem estragada em que mais valia ter ficado em casa. Naquela cidade onde todos os casais aproveitam para viver luas-de-mel, o Tito teve mais uma lua -de-fel muito amargo, como habitualmente.

Há casamentos que não casam nada, e mesmo assim não acabam, talvez porque dão lucro a um dos cônjuges.

O Tito deixara dois filhos da Micas no primeiro casamento. Nada lhe custou tanto na separação como deixar de contactar com os filhos. Recorreu para a Relação alegando que vivia bastante perto deles, mas o machismo jurisprudencial não o permitiu.

Os filhos são para a mãe e está o caso arrumado, decretou o Tribunal. Mais tarde este entendimento foi alterado e a casa de morada de família passou a ser para os filhos e não para um dos cônjuges, à semelhança do que acontece nalguns países anglo-saxónicos.

O filho da Laura podia desfrutar de tudo sem problemas, mas os do Tito foram banidos a pretexto de que nunca apareciam. Na verdade quando apareciam eram corridos pela madrasta que chegou a afirmar que gostaria de os ver dentro do caixão.

A relação estava totalmente envenenada mas, por incrível que pareça, continuava. Fria, estranha, inútil e gélida. Mas é assim que muita gente vive durante longos anos. Detestam-se mas não se separam.

De inicio tudo corria bem, pelo menos do ponto de vista sexual. Mas depois de o ter apanhado na Conservatória do Registo Civil, tudo descambava para a asneira.

Os conflitos eram diários e a pretexto de tudo. Desde o pagamento dum simples jornal que nunca comprava, a não ser que o metesse nas contas do patrão, até ao produto mais trivial que não usasse, tudo servia para conflituar.

O Tito chamava-lhe o que nenhum filho gosta que chamem à mãe mas ela, cujo objectivo era juntar mais um andar aos que já comprara, para também pôr a render, tudo aguentava.

Dizia que não abandonava a situação pela vergonha do divórcio, mas era um argumento falso. No fundo, o que lhe interessava era o que viria a obter de mão beijada, como herdeira, apesar de terem casado com separação de bens.

O único itinerário que conhecia era o da casa da mãe para os lados de Alvalade. Nenhuma zona da cidade foi mais visitada pelo Tito que aquela. Já conhecia mais vizinhas da sogra que as da sua rua. Era lá que a Laura se enfiava dias inteiros nos fins-de-semana para receber chamadas dos amigos, que seriam inconvenientes em casa do marido.

Não era capaz de dar uma sopa a ninguém. As visitas foram banidas, e o casal passou a viver isolado de tudo e de todos, com excepção da família dela. Isolou assim o marido que quando ela saía ficava sozinho a olhar para as paredes, pois desde o primeiro divórcio o isolamento foi-se acentuando cada vez mais.

Em alternativa ia para a casa da praia que comprara pelo mesmo sistema, isto é, em nome dela exclusivamente. Quando lá chegava ficava toda inchada como senhora absoluta, e começava a dar ordens ao marido numa manifestação patronímica reveladora da deformação do seu caracter.

Raramente o marido permanecia na casa da praia. Não raro ao deitar-se constatava que o perfume dos lençóis era de homem mas não dele. Alguém lá tinha estado deitado sem que ele tivesse visto.

Logo que se casou passava horas ao espelho a mirar-se, de frente e de costas. Tinha mudado de emprego e havia que agradar ao novo chefe, aliás bastante parecido com o pai do filho dela.

Tal como ele, também era muito moreno, elegante, de cabelos lisos compridos e sobretudo sem a proeminência ventral que o marido já exibia, e muito menos com a alopécia que o atormentava gastando rios de dinheiro em tónicos capilares ineficazes que a televisão impinge constantemente, mas que não servem para nada e, por vezes até cheiram mal e são perigosos pelas sequelas cardiológicas que acarretam.

Tinha a monomania que era boa e que os homens se perdiam por ela, mas na realidade tinha um ar de pécora fina que atiçava os homens para a possuirem e nada mais.

Estatura baixa, morena, de nariz afilado, e cabelo negro como os olhos ficava com um ar duvidoso, que as mini-saias ainda acentuavam mais.

Depois da doença ficou muito magra, quase esquelética e as mamas desapareceram quase por completo. Pensava que tinha um cancro. O Tito perguntava-lhe se não teria Sida, ao mesmo tempo que pensava no ditado popular: mulher doente é mulher para sempre.

Os médicos já não sabiam o que fazer. Nada de novo tinham para lhe receitar. O Simpósio farmacêutico estava já esgotado no capítulo de gastroenterologia.

Sexualmente ficou frígida, duma frigidez típica da mulher que está dividida entre o marido e o amante; dividida entre a necessidade de disfarçar em casa e a obrigação de satisfazer o amante que a esgota na gula do fruto proibido que hoje se tem, e amanhã pode já não haver; num regime provisório que deixa sempre resquícios de dúvida, quanto à viabilidade do dia seguinte.

Se há casos que duram anos, outros não passam do primeiro dia e outros ainda não chegam a consumar-se por falta de condições objectivas. Antes de terem utilizado o banco do carro foram ainda a uma pensão tipo passe, onde pensavam que estariam mais à-vontade.

Quando lá chegaram e viram o ambiente provocado pelas rameiras rafeiras do Intendente recuaram, e vieram-se embora. O quarto que lhes indicaram estava ainda desarrumado, se alguma vez iria sê-lo durante todo o dia. A cama estava por fazer. Os lençóis estavam castanhos e encardidos de tanto uso consecutivo. Por baixo do catre o pó fazia novelos envolvidos em cabelos que causavam vómitos.

A própria pensão apresentava um ambiente sórdido, escuro e sujo, exalando um cheiro mofo que custava a suportar. Logo no hall havia revistas velhas, cheias de fotografias pornográficas, espalhadas pelo chão ao lado duma mesa enfeitada com uma jarra de porcelana desbordoada com flores de plástico cheias de pó, em quantidade tal que já tinham ganho uma cor cinzenta quase negra.

Desceram as escadas, e antes de sair para a rua separaram-se, virando um para cima e outro para baixo, disfarçando assim qualquer mau encontro. A volúpia fê-los esquecer que em frente à pensão havia uma farmácia, e que um dos empregados tinha sido colega deles no laboratório farmacêutico em que trabalhavam.

O nexo de causalidade era fácil de fazer. Os dois a sair daquela pensão, um para baixo e outro para cima, só podia ter como explicação tratar-se duma escapadela entre colegas.

Dias depois já toda a gente sabia que os dois tinham sido vistos a sair do lupanar a uma hora em que deveriam estar no serviço. Claro que não era caso único. Todos sabiam que o patrão também tinha uma secretária privilegiada, não só no ordenado, mas também no horário e nas funções. Secretária para todo o serviço. O exemplo vem sempre de cima.

A Laura tinha uma colega da escola que agora era bancária e confidenciou-lhe que, por vezes, saía do banco a pretexto duma consulta clínica, mas na verdade ia-se encontrar com um colega doutro banco que murava perto, e, portanto, durante o horário de trabalho, e sem que alguém suspeitasse, aproveitavam para o affair.

O Tito ouvira uma conversa cujo teor era parecido. Certo indivíduo apaixonou-se por uma colega mas não podia levá-la para casa porque a mulher era doméstica. Foram para casa dela num dia em que o marido tinha ido para fora. De facto tinha saído com essa intenção, mas ao percorrer uns quilómetros lembrou-se que tinha deixado a pasta em casa que lhe era indispensável por conter os mostruários. Andou uns vinte quilómetros e voltou para trás. A mulher já estava na cama com o amante.

Ficaram lívidos quando ouviram a chave a entrar na fechadura a abrir a porta. Num salto, ele pegou na roupa e fugiu para a varanda escondido pelo reposteiro largo colocado de cada lado do cortinado. Foi-se vestindo como pôde ao mesmo tempo que, do outro lado da rua, uma sopeira ria a bom rir perante aquela insólita cena de cinema mudo.

A aventura durou cerca de dois anos. Uma ou outra vez o amante teve de se meter atrás da porta da despensa que ficava perto da porta da rua e quando o marido ia à casa de banho o amante escapava-se pelas escadas abaixo galgando os degraus. Os vizinhos desconfiavam, mas nada diziam. De facto, o corno é sempre o último a saber.

Depois de contar a aventura a um colega o D. Juan, ufanando-se, fazia crer que com ele não escapava nenhuma e ao chegar ao fim da narrativa disse de modo tonitruante:

- Olhe meu amigo, sabe o que lhe digo: sempre se fornicou muito em Portugal- e desapareceu em passo marcial!

O Tito encontrou um cartão na carteira da Laura assinado pelo chefe, onde este agradecia ter sido elevado ao sétimo céu, não num banco de jardim como o que o cartão exibia, mas no banco do carro, carro esse bastante largo para o efeito; um Mercedes E320.

Negou qualquer envolvimento com o chefe alegando que aquilo era só a agradecer as palavras de apoio sentimental devido ao recente divórcio, e à falta de cabeça com as contas a pagar, que envolvia cheques sem provisão.

Mentia com a mesma facilidade com que dizia a verdade, dizendo sempre que nunca mentia. Dava uma boa actriz.

Em solteira perseguia o futuro marido por todo o lado, revelando ciúmes doentios e despropositados. Telefonava várias vezes ao dia para os sítios mais díspares para o localizar, o que chegava a aborrecer as telefonistas que se apercebiam tratar-se duma verdadeira paranóia.

Estando ele ausente em diversos departamentos do seu serviço espalhados pela cidade arranjava sempre a maneira de obter da telefonista o contacto do namorado, que como é óbvio, não era por saudades nem coisa parecida.

Não era mais que um frenético controleirismo. A noite, em casa, choviam as perguntas. Organizava um interrogatório que nunca mais parava. Pretendia constatar se caía ou não em contradição. Teria ele ido para casa dalguma amiga... eis a preocupação dominante.

Como exercia uma advocacia de vão de escada, certo dia deslocou-se a casa duma amiga para esclarecer alguns problemas de natureza jurídica para cuja apreciação teve de furtar um código numa livraria da especialidade. Não possuía o tal código, estudara anos antes com um emprestado, e era-lhe agora fundamental no caso sub judice.
Iria demorar bastante a chegar a casa a vários quilómetros, mas o que ele não contava era com o atraso do autocarro, retido no meio do trânsito durante 3 horas por causa de um jogo de futebol num estádio próximo.

Chegou a casa à hora de jantar. Ainda na rua viu a Laura que, ao enfrentá-lo, fugiu de imediato correndo rua abaixo. Deu mais uns passos e reparou que do seu apartamento saía bastante fumo. A Laura na sua ausência havia pegado fogo à roupa da cama e para disfarçar, habilidosa, ligou o ferro de engomar para que os bombeiros e a polícia fossem ludibriados quando fizessem a peritagem.

O Tito, com baldes de água, apagou o fogo atirando a água e correndo para a janela para ir respirando, no meio da fumarada irrespirável causada pelos tecidos queimados.

Dias depois apresentou queixa-crime na Judiciária mas, semanas mais tarde, abordado pela Laura, acabaria por pedir à policia que anulasse a queixa a pretexto de que não sabia bem qual a origem do incêndio...

Era um coração de manteiga, mas quem falasse com ele parecia um trinca-fortes, imagem que muito o prejudicou toda a vida, pois os amigos nunca sabiam quando é que ele falava a sério ou estava a brincar.

Depois de casada, passados poucos meses, tinha já descoberto que os homens depois dos cinquenta anos não prestam para nada e que, portanto, teria de a autorizar a ter um amante...

Fácil foi ao Tito constatar que estava perante uma daquelas cabras que se aproveitam do casamento para tirar dividendos.

- A tua sorte é eu não ser um mero serralheiro, senão já tinhas voado pela janela - dizia-lhe ele com alguma frequência, entre muitas outras ameaças nunca concretizadas.

Mas não havia ameaças que a convencessem a ir-se embora. No fundo sabia que o marido era incapaz de perder a cabeça graças aos princípios religiosos que assimilara enquanto jovem, bem como a imagem de que gozava na sociedade ou imaginava gozar, por ter participado em muita actividade religiosa, política e sindical e ser, por isso, bastante conhecido.

O Tito não sabia o que fazer para se ver livre da inimiga que metera em casa. Com muita frequência pedia-lhe que o abandonasse, mas ela nem respondia. Quando via os programas da condição feminina a defenderem a mulher, tinha sempre vontade de lhes contar a sua história, mas acabava por calar-se. Era a vergonha latina.

Em desespero de causa traçou-lhe o retrato num curto escrito e afixou-o em todos os espelhos da residência, para ela ler ao chegar ao fim do dia e como se apresentava sempre como impoluta, o retrato saiu nestes termos:

"O MEU RETRACTO NUMA FOLHA A4....

Eu sou tão boazinha que:

- Conheci um chefe no laboratório para onde tinha acabado de entrar, e com ele traí logo o meu marido, apenas dois anos depois de casada....alegando que tinha emprestado a minha casa a uma amiga separada para os engates dela, mas que na verdade eu utilizava, deitando o meu marido nos mesmos lençóis em que deitava o amante, sem sequer os mudar.

- Ao meu marido foi fácil convence-lo que os homens depois dos 50 anos não prestam para nada e que tinha de me autorizar ter um amante, mas nem esperei pela autorização, porque já o tinha arranjado.

- Como nunca tive respeito pelo marido deitei-lhe fogo a casa num dia em que ele esteve 3 horas dentro do carro num engarrafamento de trânsito. Por sorte chegou a tempo de apagar o fogo...

- Sou tão boa que lhe disse desejar ver os filhos dele, que tanto ama, dentro de um caixão......E se eu pudesse matá-los para não herdarem nada era o ideal....O contrário do que ele faz com os meus filhos...

- Estou em casa dele há 18 anos e nunca fui capaz de dar um escudo para ajuda das despesas, mesmo para pagar os prejuízos que tenho causado danificando utensílios...

- Quando lhe dou alguma coisa (que não me custa dinheiro por serem ofertas do Laboratório destinadas a corromper os médicos) até isso acabo por chorar ou arrepender-me, porque em primeiro lugar está a minha família, e o que posso armazenar, sempre posso vender e ganhar mais uns cobres...

- Quando vou de viagem de fim de ano, oferecida pelo Laboratório aos empregados, digo ao palerma do meu marido que a viagem é de oito dias mesmo
quando são só quatro e, como ele nunca sabe quando chego, passo os restantes
dias em casa do meu amante, pensando ele que ainda estou nas Caraíbas ou noutro qualquer destino.

- Até umas garrafas de whisky - ofertas do Laboratório - vendi porque se o meu marido quiser oferecer alguma bebida às visitas que vão a minha casa na praia, ele que as compre porque nem ele nem os amigos dele me merecem qualquer consideração e eu nunca dou nada às visitas, só se for água da torneira...

- Resolvi acompanhá-lo com frequência à Igreja só para não o deixar em paz, pois ao pé de mim nunca terá descanso em lado nenhum, pois em todas as casas onde já vivemos sempre fiz as maiores peixeiradas possíveis. Sou pior que as peixeiras do Bulhão. Todos os vizinhos me conhecem pelas gritarias do tipo: Oh da Guarda....

- Obrigo o burro do meu marido a pagar as portagens do carro que uso e que não me custa um tostão, para assim ir amealhando o máximo possível para deixar ao meu filho que é o único que merece alguma coisa, pois a pobre da minha filha também não merece nada, a não ser algum brinde do Laboratório que não me custe dinheiro....

- Ganho um ordenado equivalente a deputado entre ordenado, rendas de casas e brindes que vendo, mas nunca tenho um tostão para dar a ninguém, muito menos ao marido para as despesas, que hei-de explorar até mesmo depois de morto para lhe caçar a sua própria casa, que hei-de pôr a render e assim aumentar o meu pecúlio...para uma reforma dourada!

- Embora goste muito da Igreja nunca serei praticante porque era o que mais faltava saberem que o meu dízimo seria apenas uma esmola e assim ver retractada a minha verdadeira personalidade fuinha....

- Prefiro ir dando uns medicamentos aos "Irmãos" que por isso ficam muito sensibilizados. Se fosse eu a pagá-los nem uma aspirina lhes dava, tal como faço ao meu marido que é a coisa mais reles que eu tive entre todos os homens que foram comigo para a cama, e foram bastantes...

- Faço tudo isto por saber que ele tem uma formação que o impede de me mandar mais cedo desta para melhor..., e agora que ele está velho e doente mais descansada fico. Ao próximo ainda hei-de fazer pior...se puder.

- Quando o conheci eu ganhava a quinta parte do salário mínimo por mês, mas hoje que aufiro 50 vezes mais sou a mesma miserável. Nunca mudarei. Hei-de ser miserável até ao último dia.

- Quer ele que eu o abandone. É parvo; ia agora perder a galinha dos ovos de ouro!!!


Ass: Cadela Malhadiça - O cognome que a própria mãe lhe atribuiu ainda em criança.


Não resultou. A Laura leu o escrito, rasgou-o e deitou para o lixo. Nada a impressionava.

Há pessoas que não possuem um mínimo de amor próprio e tudo são capazes de suportar para atingir os seus fins.

Mesmo esgotando os adjectivos que constam do dicionário nunca o Tito conseguiu ver-se livre da traidora que, qual cobra bífida, nunca foi capaz de abandonar o ninho gratuito que habilidosamente conseguira.






A'



O ambiente de trabalho era mau. O Tito licenciou-se na condição de trabalhador- estudante no próprio Banco onde já trabalhava, havia anos.

Os colegas começaram logo a dizer que tinha tirado o curso à custa do Banco o que em parte até era verdade, embora sempre tivesse utilizado apenas os direitos contratuais e por vezes tivesse faltado ao trabalho para estudar, para preparar uns pontos de exame e testes. Por vezes até na casa de banho estudava!

O Tito passou seis longos anos da sua vida a estudar de dia e de noite até altas horas, estimulado com café‚ enquanto os filhos e a mulher dormiam. Nos transportes, na praia, pela rua fora magicando e memorizando conceitos de Direito foi uma absorção total. O maior sacrifício da vida dele, costumava dizer aos colegas, que o invejavam e denegriam junto das chefias, com medo de verem alguma promoção fugir-lhes a favor do novo jurista.

A empresa sempre privilegiou os lateiros. Chamava-lhes lateiros mesmo sem ter ido à tropa, por imaginar que eram aqueles que serviam para tudo. Precisavam de subir na vida e, como estudar era trabalhoso, e a telenovela era muito mais agradável, ficavam no banco horas e horas, gratuitamente, para agradar às chefias.

O Tito saía à hora. Quando estava doente não aparecia no trabalho, telefonava. Os outros não. Trabalhavam mesmo doentes. Ele dizia-lhes que a forma mais refinadamente subserviente de estar na empresa era trabalharem doentes.

Nos conflitos, a generalidade dos colegas nunca estavam presentes. Queriam aumentos promovidos pelo Sindicato, mas alinhar na greve e nas reivindicações, só uns quantos não recuavam.

O Tito ia sempre à frente. À frente contra a polícia política, nas manifestações, e à frente contra o patronato que, antes do 25 de Abril, pagava a sua cotização à Pide. Era uma praxis que já lhe vinha da candidatura do General Sem Medo.

Passou três dezenas de anos nestas escaramuças criando uma imagem deturpada da sua real personalidade. Só duma vez esteve dez anos sem qualquer aumento salarial por mérito extracontratual.

Quando deu conta quedou-se estupefacto; tinha dois tipos de inimigos: os patrões e os colegas. Os primeiros por não poderem aturá-lo com as criticas ásperas que lhes fazia, e os colegas por se ter licenciado e ter passado a ser “doutor”.

Quando se licenciou andou desempregado dentro do Banco à procura de trabalho compatível. A Direcção de Pessoal deu-lhe autorização para procurar trabalho junto de qualquer serviço interno e demitiu-se das suas responsabilidades na colocação dum licenciado em tarefas compatíveis e, portanto, mais úteis para a Instituição.

Durante meses o Tito esteve em autogestão. Não a autogestão que chegou a pensar ser a melhor para os trabalhadores, mas uma autogestão forçada pela indiferença dos responsáveis da empresa onde trabalhava.

Finalmente conseguiu trabalhar como auditor e advogado. Sentia-se minimamente realizado por poder defender o Banco com a toga vestida. O Banco, contudo, nunca lhe reconheceria a categoria, muito embora tivesse emitido procurações forenses a seu favor assinadas pela respectiva administração. Até da eventual reforma da Caixa de Previdência dos advogados foi obrigado a abdicar a favor do Banco por ser a Instituição que pagava a respectiva cotização.

Já depois de reformado, quando havia passeios organizados pelos colegas, outra coisa não se ouvia senão os desabafos dos empregados e famílias contando as agruras sofridas no Banco durante as décadas necessárias para atingir a reforma.

Era uma empresa com gestão surrealista. Havia os filhos e os enteados.

No ano em que entrou soube que um dos colegas tinha uma cunha dum Director e outro dum Administrador.

O protegido do Director foi promovido a uma categoria designada pela letra "F" o outro subiu mais um escalão e foi promovido à "E". Quantos teriam sido promovidos à "C" com a cunha do Patrão foi coisa que nunca descobriu.

Toda a gente trabalhava desalmadamente para conseguir ter o serviço em dia. Mas, uma protegida dum Director tinha tempo para namorar através do telex com um funcionário doutra empresa.

O drama durou trinta e cinco longos anos. Quando ainda estava na plenitude das suas potencialidades a administração surrealista convidou-o a reformar-se. Aceitou logo. Viu-se livre dum conjunto de malandros muito piores que os amigos que o Camilo referiu no seu poema dedicado aos amigos.

Havia quase tantos advogados como polícias. A maior parte eram advogados de vão de escada. O que lhes valia eram as oficiosas pois, doutro modo, não poderiam pagar a pesada quotização da Ordem. O cambão era mais que evidente. Verdadeiros circuitos internos entre magistrados e advogados nomeados oficiosamente para os processos que iam aparecendo. O Tribunal de Policia era uma das saídas para arranjar alguns cobres. Era só pedir justiça e estava feito. Sempre eram cinco contos para dar à Ordem e manter a inscrição.

O pior era a "máfia" organizada. Os advogados eram designados pelo direito de precedência. Os julgamentos, normalmente, 5 ou 6 por dia começavam pelas 11 horas mas os advogados já lá estavam há horas à espera da carrinha da polícia. No inicio começaram a chegar às 9 horas, mas à medida que o número de advogados foi aumentando começaram a antecipar a hora e às 7 horas já lá havia advogados à porta do Tribunal.

Mas o número começava a aumentar - todos os anos surgiam mais uma largas centenas de advogados no mercado de trabalho - e, então, começaram a ir para a porta do tribunal às 5, depois às 3, e depois à meia-noite. Estes dormiam dentro do carro e às 8 horas iam ao bar do Tribunal comer o pequeno almoço e continuar a aguardar a sorte traçada pela alcoolemia que nessa noite poderia ter falhado e acabar por não fabricar qualquer julgamento.

Nenhum arguido poderia imaginar o drama vivido pelo seu defensor oficioso. O arguido iria ser condenado a pagar algumas dezenas de contos por ter bebido demais, mas o advogado já tinha bebido o fel da profissão em que se havia enredado e da qual não via como sair depois de 5 dolorosos anos de estudo e ano e meio de estágio inglórios.

Trabalho havia para os pintores, canalizadores, serralheiros, bate-chapas, etc. Para advogados e economistas seria melhor procurar um café ou um táxi para não estarem parados ou então arrumar viaturas como os marginais.

Claro está que a culpa só podia ser atribuída a quem permitiu que em Portugal houvesse um advogado para cada 500 habitantes.

O neto do Zé-das-Vinte, o Tito, terá herdado alguns genes que não o ajudaram em nada. A agulha truncada ao Videira e ao Toni veio a estar truncada também ao neto. Oxalá a tetraneta que nasceu no fim do século não venha a receber tal herança, o que é provável, porque nunca ouvirá falar do Zé-das-vinte.

As famílias dispersas, sem relação contínua, acabam por multiplicar as fatalidades para os vindouros, e mesmo que não sejam imolados dentro da locomotiva, acabam por ser imolados pela sociedade que só conhece os winners desprezando sempre os humilhados e ofendidos loosers.







B'

O trajecto determinado pelo erro de agulha relativo ao Tito estava próximo do fim. Mais de seis décadas de lutas de toda a ordem: familiar, social, politica, sindical, religiosa, etc. desgastaram drasticamente um coração que se foi repartindo por muitas escaramuças, quase todas perdidas a favor da injustiça social, da intolerância e da incompreensão.

A luta tem de continuar com sangue novo. Por fim o Tito já nem sabia avaliar bem de que lado estava a razão. Por vezes os interesses estavam mal determinados. Para ele uma coisa era o período em que todos estavam do mesmo lado contra o ditador outra bem diferente era na constância do regime democrático ver certos trauliteiros arvorarem-se em democratas e socialistas, quando tinham apenas em vista os seus próprios interesses, sem olharem aos mais desfavorecidos da sociedade. Na verdade e regime democrático veio favorecer muitos que no anterior regime estavam cobardemente calados e que agora formavam lobbies poderosos que se autopromovem a seu bel-prazer.

Parafraseando em sentido negativo o Apostolo Paulo (referência ímpar para o Tito) acabou os seus dias a proclamar junto dos amigos e conhecidos: "Combati um mau combate, acabei a carreira e perdi a fé".

Finou-se na cama, como sempre desejou, ainda a sonhar com um mundo melhor, quando o coração gasto de tantas emoções decidiu parar suavemente, sem dor, como que poupando-o a mais um desgosto, inclinou a cabeça na almofada em que se recostava para ler antes de adormecer e assim ficou para a eternidade, certamente sonhando com o cravo vermelho que tanto desejava entupisse para sempre os canos das espingardas!..






FIM